2,9 milhões de estudantes brasileiras já sofreram alguma violência de gênero na universidade (Marie Claire – 04/12/2015)

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Pesquisa realizada pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular revela a percepção dos jovens diante da violência contra a mulher nas faculdades e aponta que mais da metade das entrevistadas já foi vitima de machismo

Na quinta-­feira (3), o Instituto Avon realizou mais uma edição do Fórum Fale Sem Medo, evento realizado com a proposta de estimular a reflexão e a discussão sobre a violência contra as mulheres e que neste ano se debruçou sobre o ambiente universitário, investigando, através da pesquisa feita em parceria com o Data Popular, a percepção e comportamento dos jovens diante do tema, com o objetivo de que seu conteúdo traga consciência social e incentive ações que transformem o atual cenário discriminatório e promovam a igualdade de gênero.

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Realizada entre setembro e outubro deste ano, a pesquisa ouviu 1.823 universitários de ambos os sexos (60% mulheres e 40% homens) em cursos de graduação e pós-­graduação de todo o Brasil, e foi feita online, em grupos de discussão com alunos, por meio da coleta de depoimentos e também por entrevistas em profundidade com especialistas.

O reconhecimento da violência

Considerando diferentes tipos de violência, que vão da agressão física e do estupro à coerção (beijar veteranos ou ingerir bebidas alcoólicas, por exemplo), desqualificação intelectual de alunas ou cantadas ofensivas, a pesquisa aponta um aspecto importante da violência de gênero: mesmo no ambiente universitário, tido como mais esclarecido e cenário de mudanças, diversos comportamentos abusivos ainda não são reconhecidos pelos alunos como violentos. 35% dos entrevistados afirma que não enxergam violência em coagir uma mulher a participar de atividades degradantes como desfiles e leilões, e 27% deles não consideram abuso se a garota estiver alcoolizada, justificando­-se com frases como “se você bebe, você aceita o risco”.

Mesmo entre as alunas, quando questionadas sobre terem sofrido algum tipo de violência de gênero na universidade, apenas 10% responderam que sim no primeiro momento, mas, uma vez confrontadas com uma lista de comportamentos abusivos, que incluem além de agressões mais evidentes como estupro, a violência psicológica e moral, tal qual ser colocada em rankings de beleza ou sexuais ou ser humilhada com piadas degradantes e sexistas feitas por colegas, a porcentagem de alunas que reconhece ter sido submetida por algumas dessas situações sobe para 67%.

A antropóloga Débora Diniz, presente no fórum, reforçou que a faculdade é um momento definitivo de amadurecimento individual e um rito de passagem para a fase adulta. Parafraseando Simone de Beauvoir, ela critica a cultura sexista dento das faculdades: “Ninguém nasce homem, torna­se homem. O aprendizado da masculinidade no ambiente universitário e a normalização de práticas machistas que transformam o homem em agressor”.

Também convidada a falar no evento, a aluna da Faculdade de Medicina da USP e integrante do coletivo feminista Geni, Ana Luiza Cunha completou “precisamos encarar inclusive as opressões que não são óbvias, que se não forem combatida se repetirão depois, no mercado de trabalho”. Ana Luiza acrescenta ainda que há uma resistência em aceitar coletivos feministas dentro das instituições e que alunas que os integram e se posicionam contra o machismo são constantemente hostilizadas, ridicularizadas e até perseguidas pelos colegas. A intimidação é vista também nos números apresentados pelo estudo do Instituto Avon, 63% das entrevistadas admitiu não ter reagido à violência sofrida.

Combatendo a violência

“Há uma resistência em colocar o perfil universitário como de criminoso”, afirma a promotora de Justiça Silvia Chakian, que completou que no Brasil ainda não houve agressor preso por violência contra a mulher na universidade. A falta de provas dificulta a responsabilização dos agressores, uma vez que frequentemente o caso reside no consentimento ou não do ato pelas vitimas, que não raro são descredibilizadas: “Os aplicadores da lei ­ promotores, delegados, juízes ­ reproduzem os estereótipos de gênero e muitas vezes encaram os depoimentos de forma machista”.

É diante de um cenário hostil que muitas vitimas acabam optando pelo silêncio e não denunciam o abuso sofrido, temendo a exposição e o isolamento. Com o objetivo de acolher essas meninas dentro da universidade que a professora e pesquisadora Ana Flávia D’Oliveira se uniu à outras docentes da USP para criar a rede Não Cala, que também busca alterar o regimento da instituição possibilitando a punição dos culpados pela universidade e mudar a cultura acadêmica diante dos assédios, revertendo o cenário no qual instituições tentam abafar os casos de violência sexual para não manchar sua imagem, deixando agressores impunes.

Os alunos entrevistados pela pesquisa reforçam o desejo de que as universidades tomem uma atitude: 88% dos rapazes e 95% das garotas acreditam que a faculdade deve criar meios de punir os responsáveis por cometer violência contra a mulher na instituição, e 64% dos alunos e 78% das alunas concordam que o tema deveria ser incluído nas aulas, iniciativa apoiada por Ana Flávia, que reforça a urgência de ensinar aos alunos o respeito à diversidade ­ “mais do que profissionais, estamos formando pessoas, sujeitos da sociedade”.

Jackson Katz durante o Fórum Fale sem Medo Promovido pelo Instituto Avon na Vila Leopoldina (Foto: ROGERIO CANELLA/MARIE CLAIRE)

Jackson Katz durante o Fórum Fale sem Medo Promovido pelo Instituto Avon na Vila Leopoldina (Foto: Rogério Canella/Marie Claire)

A violência contra a mulher é um problema dos homens

Convidado para encerrar o fórum, o educador e ativista Jackson Katz reafirma a necessidade de que o engajamento para combater a violência contra as mulheres seja de toda a sociedade ao defender o Programa de Mentores para a Prevenção da Violência, no qual o espectador de uma situação de abuso deve se posicionar contra ela. “O silêncio diante de uma situação de violência deve ser encarado como uma forma de consentimento, é preciso criar essa sensibilidade de justiça social entre os homens.”

Jackson afirma que focar nos homens como possíveis agressores apenas os distância do problema, pois os que não cometeram qualquer violência se desligam da discussão e ficam apáticos aos acontecimento, enquanto o ideal é que homens que não praticam a violência contra a mulher confrontem os que têm comportamento sexistas. O pesquisador reforça ainda a necessidade de que líderes, como professores, assumam essas práticas dentro das universidade uma vez que exercem uma influência maior entre os alunos. É necessário que os homens também não se calem.

Nathalia Cariatti

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