A cultura do estupro e a naturalização da violência contra a mulher (Tribuna Hoje – 06/06/2016)

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Segundo dados no Anuário Brasileiro da Violência 2015, 1.286 mulheres denunciaram estupro

Após a revelação do estupro coletivo cometido por 33 homens contra uma jovem de 16 anos de idade no Rio de Janeiro, o debate sobre a “cultura do estupro” ganhou as redes sociais e parte da imprensa. Nas redes, houve quem tentasse relativizar a barbaridade cometida, mas o combate à culpabilização da vítima demonstrou mais força.

A “cultura do estupro” é um termo usado para identificar a aceitação e replicação de conceitos que normalizam o estupro tendo como base construções sociais sobre gênero e sexualidade. Em resumo, ela se materializa em falas como “se estivesse em casa, não seria estuprada”; “se não se vestisse dessa forma…”; ou “isso aconteceu por andar em más companhias”.

A naturalização da legitimação dessa violência ocorre diante do não cumprimento de padrões de comportamento ditos como corretos e dentro da normatividade estabelecida pelas mulheres. Ou seja, se a mulher não faz o que é “certo”, é por que pediu para ser abusada. E é essa naturalização que explica o porquê do Brasil ter um caso de estupro notificado a cada 11 minutos.

Assobios, puxadas de braço, passadas de mão nos cabelos, comentários sobre o tamanho dos quadris femininos e maquiagem usadas, são formas de naturalizar o domínio sexual que os homens possuem sobre as mulheres. Qual homem nunca presenciou – ou reproduziu – comentários grosseiros sobre mulheres por rejeitarem uma paquera ou aceitarem uma ou por causa da roupa que vestem?

Segundo dados do último Anuário Brasileiro da Violência (ABV), divulgado em 2015 e com dados referentes a 2014, 90,2% das mulheres e 73,7% dos jovens de 16 a 24 anos afirmam ter medo de sofrer violência sexual.

Em Alagoas, o ABV 2015 aponta que 1.286 mulheres notificaram terem sido vítimas de estupro, sendo 137 em Maceió, e 174 notificaram terem sofrido tentativas desse tipo de violência. Os dados das notificações foram recolhidos junto a órgãos de segurança dos estados.

CULPABILIZAÇÃO

Para a advogada Andrea Albuquerque, o estupro não tem a ver com sexo e sim com dominação de gênero e por isso, as vítimas mulheres são culpabilizadas em casos de violência sexual.

“Geralmente se pergunta para as vítimas o tipo de roupa que usavam no momento em que foram violentadas. Isso é banalização da violência sexual e a ‘cultura do estupro’ e tem como objetivo manter as mulheres intimidadas. É uma forma de demonstrar poder”, afirma.
Além disso, a advogada argumenta que a construção do papel da mulher na sociedade é voltada para a prática sexual. O corpo feminino, segundo ela, é um troféu e isso é a base da “cultura do estupro”.

“A sexualização do corpo feminino em comerciais de cerveja, tornam a mulher um objeto a ser desejado. A naturalização do assédio, entendido por muitos como elogio; a não aceitação do ‘não’ feminino, até mesmo pelos maridos e namorados; a sexualização precoce de crianças, chamadas de ‘novinhas’, mais a culpabilização das vítimas de estupro. Isso é a ‘cultura do estupro’”, diz Andrea.

Para ela, o combate a esse comportamento é urgente, pois a violência sofrida pelas mulheres cresce escalonadamente e, por se a lógica dominante na sociedade, muitas mulheres acabam reproduzindo esses valores.

“O machismo é parte da nossa socialização. É um sistema de opressão que nos é ensinado desde o nascimento, quando mulheres passam a usar rosa, ganhar bonecas e aprender a se comportar como ‘mocinhas’. É preciso deixar claro que não existe mulher machista, existe mulher que reproduz machismo, pois nenhuma mulher se beneficia desse sistema opressor. As mulheres reproduzem machismo porque foram ensinadas a pensar dessa forma. O processo de desconstrução é lento e gradual”, afirma Andrea.

“cultura do estupro está enraizada na sociedade”

Para a publicitária e estudante de jornalismo, Camila Guimarães, o problema está na raiz da nossa organização social, pois desde quando as mulheres nascem valores e formas de comportamento são estabelecidas e sempre com viés de dominação de gênero.

“A cultura do estupro já é algo enraizado em nossa sociedade. A partir do momento em que nós, mulheres, nascemos já recebemos uma série de predefinições de como devemos nos comportar, as roupas que devemos usar, com quem devemos nos relacionar, as profissões que devemos ter, enfim. Uma série de padrões impostos por uma sociedade machista que considera o pai de uma menina um ‘ex-consumidor e atual fornecedor’ do produto em questão. No caso, uma mulher”, analisa Camila.

Em decorrência disso, ocorre a naturalização de comportamentos machistas e da objetificação da mulher. De acordo com ela, isso é a base que estimula agressões físicas, psicológicas e sexuais contra o sexo feminino.

“É o que vemos ser disseminado em propagandas, nas escolas, universidades, no mercado de trabalho e em bares. Quando um caso de estupro acontece, e aí é importante ressaltar que estupro não é só cometido por um desconhecido que aborda uma mulher no meio da rua e comete o ato, a culpa é sempre da vítima que utilizou roupas curtas, que estava andando sozinha no meio da rua, que bebeu demais, que provocou e uma série de argumentos que tentam justificar o injustificável. A culpa nunca é da vítima. Não dá pra justificar um estupro, um assédio ou qualquer outro tipo de violência contra a mulher, pelo argumento de que homem é assim mesmo”, afirma Camila.

Para ela, esses valores são reproduzidos até mesmo dentro de casa e coloca a mulher em posição de ponderar tudo o que faz, diz ou usa para não contrariar o valor machista impregnado na sociedade.

“É preciso que ensinemos os meninos, que se tornarão homens, a respeitar. É preciso entender – e aceitar – que homens assediam mulheres em seus locais de trabalho; que homens estupram suas companheiras ao forçar sexo; que homens podam a liberdade intelectual de suas filhas ao demonstrar dentro de casa qual o lugar da mulher na sociedade. O lugar da mulher é onde ela quiser estar e a liberdade dela deve ser sempre respeitada”, diz.

Questionada sobre mulheres que reproduzem os valores que legitimam a “cultura do estupro”, Camila diz não acreditar em mulher machista por que elas não ocupam espaço de poder na relação entre os sexos.

“Veja, a mulher não se beneficia em nada com isso [reprodução de valores machistas]. Percebo como uma materialização dessa cultura que vivemos. Vejo o feminismo como algo libertador dessa opressão. É quando, demore ou não, uma mulher passa a entender o quanto essa opressão delimita a sua vida e a vida das demais mulheres. Por isso a desconstrução é importante, principalmente quando vemos mulheres reproduzindo o machismo. Quando uma mulher oprime outra mulher, ela também está se oprimindo, mesmo sem perceber. E é esta percepção que precisamos ter e desconstruir isso em nós”, argumenta.

VÍTIMAS DO PATRIARCADO

É preciso compreender historicamente a relação de dominação machista na sociedade para que se possa superá-la. Em linhas gerais, esse é o centro da análise da socióloga Solange Resende. Professora do Instituto Federal de Alagoas, ela argumenta que o fim do machismo na sociedade passa pela construção de condições de igualdade entre os gêneros.

“Nós mulheres ainda somos vítimas de uma cultura machista que remonta desde os princípios da sociedade patriarcal. Nesse tipo de sociedade, são definidos papéis tanto para homens e mulheres. Neles, tanto homens quanto mulheres sofrem no intuito de seguir essas condições. Ou seja, não vivemos em uma sociedade livre onde podemos desenvolver nossas potencialidades de forma harmônica. Mas acredito que nós mulheres sofremos mais por ainda estarmos numa condição inferior nessa liberdade”, diz.

Segundo a socióloga, as mulheres são julgadas por padrões morais que impedem sua liberdade, mas também que nem todos os homens são potencialmente estupradores.

“A sociedade não tolera, por exemplo, o adultério. Mas é sabido que no imaginário popular as pedras são jogadas principalmente quando é a mulher quem trai. A violência também é um exemplo. Ela afeta homens e mulheres, mas somos nós que sentimos mais medo de circular em determinados lugares por que, além do medo do assalto, temos receio de sermos estupradas. E isso não significa dizer que todos os homens são potencialmente estupradores”, argumenta.

Entretanto, Solange afirma que não há como negar o medo que as mulheres sentem dos homens em determinadas situações e que há uma proteção por parte da sociedade a quem comete violência contra as mulheres.

“Quantas e quantas mulheres devem relatar casos de assédio que sofreram desde a infância? Não só os mais efetivos, mas o simples passar numa rua e encontrar um homem que lhe olhe com os olhos de potencial agressor sexual. Esse medo que a mulheres sentem não é algo do nada. Objetivamente sabemos, e pesquisas afirmam, que muitas mulheres são estupradas cotidianamente. E nem todos os casos chegam a virar estatística. Por medo, vergonha e, principalmente, por saber que ao falarem que foram estupradas, a sociedade passa a colocar a culpa na vítima”, diz.

Para ela, todo o movimento iniciado a partir da revelação do estupro coletivo que a jovem fluminense sofreu deve primeiramente pôr fim a culpabilização das mulheres.

“É necessário entender os limites de uma relação quando consensual e quando violenta. Quantas e quantas prostitutas foram alvos de violência por homens que entendem possuir poder sobre elas só pelo fato de elas estarem ali a ‘seu serviço’. Mas defendo um debate sobre nossa condição de opressão no entendimento de que as mulheres também assimilam essa cultura machista, e que tire da pauta posições como castração, por que isso só reforça ainda mais a violência”, afirma Solange.

Carlos Amaral

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