Acusado de perfurar olhos da ex vai responder por tentativa de homicído (G1/Goiás – 21/11/2013)

Wilson Bicudo é acusado de perfurar os olhos da ex-companheira (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

Wilson Bicudo é acusado de perfurar os olhos da ex-companheira (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

Após impasse jurídico, MP entendeu que ele tentou matar a ex-mulher, em GO. Mara Rúbia foi torturada e agredida em agosto; acusado está preso

O procurador-geral de Justiça de Goiás, Lauro Machado Nogueira, decidiu na quarta-feira (20) que Wilson Bicudo, acusado pela polícia de torturar e perfurar os olhos da ex-mulher, a operadora de caixa Mara Rúbia Guimarães, 27 anos, deve responder por tentativa de homicídio. A medida ocorre após um impasse jurídico que discutia qual crime configurava a agressão.

De acordo com o Ministério Público Estadual (MP-GO), Lauro Machado acompanhou o parecer de sua assessoria jurídica de que houve a tentativa de homicídio. Agora, o processo será encaminhado ao promotor Paulo Pereira dos Santos, com atribuição no Tribunal do Júri de Goiânia, para que ele faça a denúncia à Justiça.

Mara Rúbia foi torturada pelo ex-marido no dia 29 de agosto deste ano. Segundo a polícia, após ser agredida e imobilizada, quando já estava inconsciente, ela teve os dois olhos perfurados com uma faca. De acordo com o inquérito, o suspeito usou o celular da ex-companheira para avisar a família e amigos que havia matado a vítima. A mulher foi socorrida com vida. Após 21 dias foragido, Bicudo se entregou à Polícia Civil.

O inquérito foi concluído em outubro deste ano e indiciou o agressor por tentativa de homicídio triplamente qualificada. Mas o promotor de Justiça João Teles Neto discordou do relatório policial. Para ele, o crime não foi uma tentativa de homicídio, mas sim um caso de lesão corporal grave. Com a decisão, iniciou o impasse sobre qual crime o acusado responderia.

Com a mudança na tipificação do crime, o processo seguiu para uma nova vara. Por isso, o juiz Jesseir Coelho, que tinha decretado a prisão do suspeito, teve de revogar o pedido, mesmo não concordando com o posicionamento do promotor. O juiz, então, devolveu o caso para a Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ) para manifestação. No mesmo dia a Justiça acatou um novo pedido do MP-GO e decretou uma nova prisão preventiva para o acusado, que não chegou a ser solto.

Mara Rúbia se recupera das lesões e já consegue ver vultos (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

Mara Rúbia se recupera das lesões e já consegue ver vultos (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

O processo foi, então, encaminhado ao Juizado da Violência Doméstica Familiar contra a Mulher, que discordou mais uma vez da tese de lesão corporal e entendeu que o caso se trata de uma tentativa de homicídio. Com isso, Lauro Machado seguiu a mesma decisão e destacou que ficou evidente nos depoimentos que Bicudo tinha a pretensão de matar a vítima.

Medo
Ao saber sobre a possibilidade de libertação do agressor, Mara Rúbia chegou a passar mal e foi levada para um local desconhecido, como medida de segurança. Em entrevista à TV Anhanguera por telefone, ela disse que quer ele responda por tentativa de homicídio: “Que ele pague pelo fez”.

“Peço, imploro, é o meu direito. Que a Justiça seja feita. O que acontece com essas outras mulheres que [o agressor] vai preso, abaixa a poeira, ele volta e mata, é o que vai acontecer comigo. Eu não quero isso”, diz a operadora de caixa, que perdeu boa parte da visão dos dois olhos após ser torturada pelo ex-companheiro.

Projeto de lei
No início do mês, Mara Rúbia foi a Brasília e visitou o plenário da Câmara de Deputados e o gabinete do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Sensibilizadas, as deputadas da Câmara propuseram um Projeto de Lei para que o processo penal contra agressores caminhe mesmo que a mulher não represente contra ele ou retire a denúncia por medo. Se aprovada, a lei deve ser batizada de Mara Rúbia.

Operadora de caixa Mara Rúbia Guimarães teve os olhos perfurados pelo ex-marido, em Goiânia, Goiás (Foto: Arquivo pessoal)

Operadora de caixa Mara Rúbia Guimarães teve os olhos perfurados pelo ex-marido, em Goiânia, Goiás (Foto: Arquivo pessoal)

“É isso que nós estamos querendo: o rigor maior da lei, para que nós não possamos chegar em uma situação quase patética de dificuldades para que o criminoso seja punido”, explicou a deputada federal Jô Moraes.

Para a deputada federal Marina Santana (PT), o processo representa a luta de todas as mulheres contra a agressão doméstica. “É necessário que haja uma agilidade no andamento do processo para que de fato Mara Rúbia tenha justiça e nós mulheres de todo o Brasil tenhamos justiça”, disse.

Lesão
Desde a agressão, Mara Rúbia já passou por uma operação no olho esquerdo e duas no olho direito. Em seis meses, deverá passar por uma nova cirurgia. O médico Eduardo Eustáquio explica que as cirurgias são feitas por etapa por causa da gravidade das lesões, mas é positivo com a recuperação da paciente: “A chance dela ter uma recuperação visual é muito boa”, afirmou na época da terceira cirurgia.

Segundo familiares, o casal se separou há dois anos. Desde então, a mulher, que morava em Corumbá de Goiás, se mudou para a capital. Esta não foi a primeira vez que o homem agrediu a ex-mulher, pois não aceitava o fim do relacionamento. Ela informou que procurou a polícia por quatro vezes para denunciar o agressor, mas que não obteve ajuda.

Fernanda Borges

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