‘Agressão na face é para desfigurar identidade da mulher’, diz cirurgiã plástica (Bahia Notícias – 14/01/2014)

A cirurgiã Ana Rita avalia que a reconstrução das faces das pacientes que passaram por agressão ajuda a superar os traumas gerados pela violência (Foto: Marília Moreira)

A cirurgiã Ana Rita avalia que a reconstrução das faces das pacientes que passaram por agressão ajuda a superar os traumas gerados pela violência (Foto: Marília Moreira)

Acima de 60% das mulheres que se expõem ao trauma facial são vítimas de violência doméstica, segundo estimativa da cirurgiã plástica Ana Rita de Luna Freire, que integra a equipe médica dos Hospitais Ernesto Simões e Dois de Julho. As unidades dispõem, às quartas-feiras, atendimento através do Sistema Único de Saúde (SUS) a pacientes com necessidade de cirurgia crânio-facial. Mulheres vítimas de violência doméstica têm oportunidade de contar com o serviço de maneira especializada, com acolhimento individual. A cirurgiã Ana Rita avalia que a reconstrução das faces das pacientes que passaram por agressão ajuda a superar os traumas gerados pela violência. “Nossa função no serviço é acolher e oferecer o melhor tratamento possível no sentido de minimizar as sequelas”, explica. O lugar mais frequente das lesões são o olho e o nariz, seja com edema facial ou olho roxo. A cirurgiã conta que os hospitais já chegaram a receber novamente mulheres que haviam passado por cirurgias para recuperar traumas causados por agressão doméstica. “Elas têm muita resistência de fazer uma denúncia à polícia e, neste caso, a gente tem que respeitar a liberdade da paciente e tentar acolher dentro daquilo que elas nos oferecem como oportunidade de trabalho”, considera.

Bahia Notícias – Como surgiu a iniciativa do atendimento às mulheres vítimas de violência?
Ana Rita – Em 2003, fundamos o primeiro serviço de cirurgia craniofacial , feita por médicos na Bahia, no Hospital Ernesto Simões. A finalidade inicial desse serviço era tratar as deformidades da face adquiridas ou congênitas, adquiridas pelo trauma, na maioria das vezes, ou em decorrência do câncer. Inicialmente, nós começamos a trabalhar com um número maior de homens, porque eles se expõem mais à violência fora do domicílio. No público feminino, que era em menor proporção – entre quatro pacientes com trauma facial com causas externas, apenas um é mulher –, começou a chamar atenção do grupo de cirurgia plástica que atua por lá o fato recorrente de que acima de 60% das mulheres que se expõem ao trauma facial são vítimas da violência doméstica. E obviamente, embora não exista um núcleo específico governamental para as mulheres, a gente sempre procura dar um tratamento diferenciado, um acolhimento, e alguma orientação mediante a parceria com a assistência social do hospital.

BN – Fica disponível um dia da semana?
AR – São todas as quartas-feiras para os pacientes da cranio-facial. No caso das mulheres agredidas, em especial, fazemos o acolhimento de uma forma mais reservada, onde podemos colher a história no próprio ambulatório, evitando a exposição destas a uma situação constrangedora e tomando um cuidado voltado para o acolhimento das pacientes.

BN – E quando a mulher é agredida, precisa esperar um tempo para poder realizar a cirurgia?
AR – Não. Existem muitos casos, na maioria das vezes, em que elas aparecem para tirar dúvida a respeito se existe ou não uma fratura. O lugar mais frequente dessas lesões também é a parte do olho e do nariz, seja edema facial ou olho roxo. Então elas chegam muito desestabilizadas do ponto de vista emocional e psicológico, angustiadas, normalmente acompanhadas de uma filha, ou mãe, ou desacompanhadas e, neste caso, a gente investiga sempre a causa. Na maioria das vezes, quando elas notam a presença de outra mulher, elas ficam mais abertas para poder externar o verdadeiro motivo, que se tratou da agressão de um companheiro, de um ex-companheiro, de um vizinho, de um filho, do pai. Nós procedemos com a avaliação clínica e os exames de imagem para verificar se existe ou não uma fratura ou lesão que seja passível de uma necessidade cirúrgica. Depois dessa etapa, sendo necessária a cirurgia, seja qual for o tratamento, nós pedimos os exames e preparamos a paciente para a cirurgia. Obviamente, nos casos das fraturas, quanto mais cedo o reparo, melhor o resultado.

BN – No trabalho feito por você nesses anos, feito na rede privada e na rede pública, é possível perceber alguma diferença de perfil das mulheres atendidas?
AR – Na rede privada, acredito que existe uma dificuldade maior de as mulheres se exporem. Nas pacientes com nível socioeconômico um pouco mais alto, o trauma facial muitas vezes está relacionado a acidente automobilístico e também a quedas da altura, em pacientes mais idosas e com dificuldade de mobilidade, com hipertensão, que tiveram tontura e caíram; mulheres que não foram vítimas de agressão doméstica. Só que existe um percentual também da rede privada de mulheres que são vítimas de agressão. As lesões vão desde um simples olho roxo, que a gente vai conduzir de forma a não deixar a pele manchada, com uso de protetor solar, com cirurgias de maior porte. Eu tenho pacientes novas, uma delas com 23 anos, uma das mais novas que já operei, em que foram seis horas de cirurgia para reconstruir toda a face. Ela foi espancada por um ex-namorado, foi para a UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e, quando melhorou, nós passamos em uma cirurgia de seis horas, porque ela teve todos os ossos da face quebrados. Ela foi espancada porque o ex-namorado não aceitava a separação.

BN – Você acredita que a reconstrução também ajuda a mulher a superar a agressão?
AR – Sim, porque se você notar, a face é a identidade da pessoa. Quando você olha a fotografia da mão, as pessoas perguntam: “de quem é essa mão?”, mas quando olha a fotografia de uma face, pergunta: “quem é essa pessoa?”. Então o que dá identidade ao ser humano é o rosto. Quando um ex-companheiro quer agredir, ele agride preferencialmente na face, para desfigurar a identidade da mulher. Isso gera um resultado emocional terrível, porque elas ficam inseguras na sua relação de autoimagem, muitas vezes com sequelas definitivas, quando não conseguem um atendimento adequado. Nossa função no serviço é acolher e oferecer o melhor tratamento possível no sentido de minimizar as sequelas.

BN – No hospital também há uma equipe psicológica especializada para o atendimento dessas vítimas?
AR – Temos psicólogos, mas ainda é muito incipiente, precisa ser fomentado. Vale ressaltar que no Ernesto Simões é a porta de entrada, mas o excedente, que o hospital não pode abarcar com disponibilidade de horário cirúrgico, nós também desenvolvemos através do SUS no Hospital Dois de Julho, que é o braço SUS do hospital São Rafael.

BN – Falando em demanda, aqui na Bahia temos muitos casos de violência contra a mulher. Uma mulher que chega com a solicitação da cirurgia demora muito tempo para conseguir fazer?
AR – Dependendo da gravidade do caso, se for mais grave, a gente procura passar na frente da fila, mas, normalmente, a fila é respeitada. Por exemplo, se uma paciente tem uma fratura de mandíbula, devido a um chute do companheiro, ela não está em condições de comer. Isso é mais grave e a gente tem que terminar antecipando do que uma paciente que já fez uma etapa da reconstrução de orelha, por exemplo. Então a gente tem muito critério. Não é do tempo, mas da gravidade da lesão.

BN – Como é feita a divulgação desse trabalho? É feita também nas delegacias em que as mulheres são atendidas?
AR – Existe uma lei que obriga o médico a fazer uma notificação. Só que essa própria lei não diz como fazer uma notificação. É uma lei nacional, que em caso de agressão, ligada à Lei Maria da Penha, os profissionais de saúde, sejam eles quais forem, são obrigados a notificar, assim como a agressão à criança, mas a própria lei não explica como. Não há um formulário específico criado pelo governo para fazer esse tipo de notificação. O que nós fazemos é chamar uma assistente social, além de nós mesmos orientarmos a procurar a delegacia da mulher e, muitas vezes, fazendo um relatório, encaminhado a paciente ao Instituto Médico Legal, a fim de fazer a perícia e constatar as lesões. Muitas vezes, recebemos um questionário do IML para respondermos o que avaliamos naquele momento.

BN – E também acontece o caminho inverso? De alguém que foi para a delegacia e soube que tinha o serviço no hospital?
AR – Eventualmente. É por isso que estamos também nesse trabalho de divulgação, para que isso seja mais amplamente de domínio público.

BN – A maioria das mulheres que chegam ao hospital ainda tem muita vergonha de ter sido agredida?
AR – Sim, sobretudo, angustiadas, porque muitas delas ainda dependem financeiramente do companheiro. Então elas têm muita resistência de fazer uma denúncia à polícia e, neste caso, a gente tem que respeitar a liberdade da paciente e tentar acolher dentro daquilo que elas nos oferecem como oportunidade de trabalho.

BN – Até porque podem ser reincidentes essas agressões. Já tiveram casos de pacientes que haviam se submetido à cirurgia e precisaram fazer novamente?
AR – Recentemente, em 2013, temos pelo menos quatro casos de mulheres que tiveram fratura de órbita, com olho roxo. Operamos uma delas que depois voltou com o outro olho roxo. Uma tinha uma fratura nasal no segundo trauma e com as outras duas não identificamos fraturas adicionais na segunda agressão.

BN – A cirurgia cranio-facial é muito mais delicada do que as do resto do corpo?
AR – Sim. A cirurgia cranio-facial é um braço de atuação da cirurgia plástica, que abriga desde a criança que nasce com lábio leporino, que é uma deformidade congênita, passa pelo trauma e também pelas sequelas de um câncer. Por exemplo, uma perda de mandíbula por conta de um câncer na boca de um paciente tabagista, que será reconstruída.

BN – Qual o tempo médio de recuperação?
AR – Depende da gravidade, no geral, a maioria das fraturas faciais tem um tempo de recuperação em torno de 30 dias. A fratura de órbita, por exemplo, que é uma das mais frequentes, em 20 dias a paciente já está recuperada, só com um edema residual, perfeitamente recuperada, de volta para o mercado de trabalho.

por Juliana Almirante | Fotos: Marília Moreira

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