Agressores que se suicidaram após matar mulheres são prova da ausência de políticas públicas

Somente neste ano, 49 mulheres foram assassinadas por homens em Mato Grosso. Os dados de feminicídio são assustadores: dos 207 homicídios registrados no Estado no primeiro trimestre deste ano, 24 envolvem vítimas femininas e 12 foram identificados como feminicídios.

Nesta semana chamou a atenção o fato que dos quatro homicídios registrados contra mulheres em Mato Grosso, em dois deles os assassinos também se mataram após os crimes.

Na tentativa de fortalecer a conscientização sobre o tema, o Ministério Público de Mato Grosso iniciou uma campanha para estimular as denúncias de violência doméstica.

A promotora de Justiça Sasenazy Soares Rocha Daufenbach, que atua no Núcleo de Violência contra a Mulher do órgão, se dispôs a ser maquiada e a emprestar sua imagem para a campanha, com o objetivo de conscientizar de que esse tipo de violência não escolhe suas vítimas por posição social ou intelectual.


Promotora Sasenazy Daufenbach se dispôs a ser maquiada e a emprestar sua imagem para a campanha

Ela defende a construção de uma política pública da amparo tanto para as vítimas, quanto para os agressores, como forma de colocar fim à cultura da violência. Segundo ela, é necessário que o Poder Executivo, tanto estadual como os municipais, voltem às atenções para as relações conturbadas, que podem desencadear em aumento desse tipo de homicídio.

“Precisamos de uma política socioassistencial e sóciopsicológica, de amparo a essas famílias. Dar atendimento a esse agressor. Porque as vezes ele sai dessa mulher e vai para outra. Se houvesse uma situação de amparo, de chamar esse agressor, chamar essa mulher, e tivesse um grupo reflexivo para homens e mulheres e pudéssemos arrefecer esses ânimos, eu penso que teríamos mais efetividade da lei. Não é invenção. A lei preconiza isso. Deve haver uma ação integrada e está faltando esse entendimento”, defende ela.

“Estamos estudando como esses crimes acontecem de forma tão violenta, com muitos golpes no rosto, face, genitálias, seios, sempre muito machucados. São crimes de ódio mesmo”
A Lei Maria da Penha completa 13 anos, mas precisamos de políticas públicas de assistência e prevenção à violência doméstica. Estamos em um patamar que as pessoas conhecem a lei, mas me parece certo que falta o mecanismo de cuidado dessas pessoas. Atualmente, há câmaras temáticas na Assembleia Legislativa, na Secretaria Estadual de Segurança Pública, tudo visando a articulação dessa rede.

“Mas falta acolhimento, falta escutar essas pessoas”. Segundo ela, em Mato Grosso apenas duas cidades possuem grupos de apoio a homens agressores, Várzea Grande e Barra do Garças.

“Em Cuiabá nós não conseguimos ainda formatar esse grupo reflexivo. Esse tratamento poderia ter uma inserção dentro da própria medida protetiva, sendo uma determinação judicial”.

VIOLÊNCIA IMPREVISTA

A promotora observou ainda que a maioria dos agressores são pessoas tidas como “normais”, que trabalham, não possuem passagens pela polícia e estão acima de qualquer suspeitas, até mesmo pela própria vítima e pelas famílias.

“Estamos estudando como esses crimes acontecem de forma tão violenta, com muitos golpes no rosto, face, genitálias, seios, sempre muito machucados. São crimes de ódio mesmo. O agressor é, na maioria das vezes, socialmente uma pessoa boa, tanto que as testemunhas indicadas as vezes relatam que jamais imaginavam que ele seria capaz de fazer aquilo. A maioria é socialmente benquista”, disse ela.

A promotora observou que os crimes de feminicídio são mais violentos justamente por existir uma relação íntima de afeto com a vítima. Além de envolver outros atores, como filhos, sogras, tios e familiares em geral, o que dificulta o corte total de vínculo entre a vítima e o agressor.

UM CRIME SEGUIDO DO OUTRO

“O agressor é, na maioria das vezes, socialmente uma pessoa boa, tanto que as testemunhas indicadas as vezes relatam que jamais imaginavam que ele seria capaz de fazer aquilo. A maioria é socialmente benquista”
Em 7 de julho, Uelton Rodrigues de Jesus, 42 anos, assassinou Maria Domingas Elias de Anunciação, 35 anos, na zona rural de Primavera do Leste. Além de matar a companheira, o homem tentou tirar a vida do filho do casal, de 15 anos. A vítima foi morta a facadas e já havia três boletins de ocorrência contra o agressor.

No dia 9 de julho, Marcos Rogério Lima, de 33 anos, se matou com um tiro na cabeça após assassinar a ex-mulher, Débora de Oliveira Silva, 27 anos, no distrito industrial de Caravágio, próximo da cidade de Sorrido-MT. Marcos fez um disparo de espingarda, calibre 20, no rosto da vítima. O casal conviveu por 14 anos e tinha 3 filhos, se separou em junho.

Débora já tinha registrado uma ocorrência de ameaça contra o ex-marido, pedindo medidas protetivas. Mas este fato não impediu que Marcos planejasse o assassinato dela. Na manhã de domingo ele fez uma postagem nas redes sociais, quando deu a entender que ia tirar a própria vida.

O terceiro feminicídio aconteceu em Várzea Grande, no dia 10 de julho. Luciana Aparecida da Silveira, 32 anos, foi encontrada morta asfixiada em um quarto de hotel. Daniel Domingos Mendes, 39 anos, morreu após se enforcar com uma corda um dia após cometer o crime. Ele teria atraído a vítima com mensagens amorosas e ilusórias.

O casal viveu junto dois anos. Espancada até a morte, Bruna Francisca da Silva, 23 anos, foi encontrada pela mãe, nos fundos da residência, na zona rural do município de Campo Verde (a 134 km de Cuiabá). O rosto da vítima ficou desfigurado. Paulo André, de 36 anos, fugiu, mas acabou preso pela Polícia Militar, que encontrou o homem tentando sair da cidade. Paulo foi preso ainda em flagrante.

Por: Ana Adélia Jácomo

Acesse no site de origem: Agressores que se suicidaram após matar mulheres são prova da ausência de políticas públicas (O Bom da Notícia – 14/07/2019)