‘Ainda tenho medo’, diz vítima que recebeu botão do pânico no ES (G1/Espírito Santo – 08/03/2014)

Priscila foi uma das mulheres de Vitória beneficiadas, em abril de 2013. Ela foi agredida e ameaçada pelo ex-namorado

Aos 21 anos, Priscila Vieira foi agredida pelo ex-namorado. (Foto: Vitor Jubini/Jornal A Gazeta)

Aos 21 anos, Priscila Vieira foi agredida pelo ex-namorado. (Foto: Vitor Jubini/Jornal A Gazeta)

Aos 21 anos, a então estudante de direito Priscila Vieira Bahia não esperava integrar o índice de mulheres vítimas dos próprios parceiros. Em 2013, quase um ano após o fim de um relacionamento, Priscila foi agredida pelo ex-namorado, em uma das vezes em que o rapaz pediu para reatar. Hoje, com 22 anos e já formada, a jovem contou que superou a agressão, mas que ainda vive com medo.

Priscila foi uma das mulheres de Vitória beneficiadas com o botão do pânico, em abril de 2013. A ferramenta é um dispositivo eletrônico de segurança preventiva que possui GPS e também gravação de áudio. No momento em que o botão é pressionado, disponibiliza um processo de escuta e a central de monitoramento recebe um chamado. De acordo com o Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJ-ES), as beneficiadas estão sob medida protetiva, como as que determinam que o agressor saia de casa ou mantenha uma distância mínima das vítimas. Segundo o Mapa da Violência 2012, realizado pelo Instituto Sangari, o Espírito Santo é o estado com o maior número de homicídios de mulheres no Brasil. A taxa capixaba, de 9,4 mortes em cada 100 mil mulheres, é maior que o dobro da média nacional.

“Fui a um bloco e encontrei com ele. Já tinha recebido ameaças, mas não levei a sério, porque durante o namoro sempre foi tudo na boa. No bloco, ele quis conversar comigo, mas eu não quis voltar e ele me agrediu fisicamente e psicologicamente. Fui ao plantão, pedi a medida protetiva e na outra semana consegui. Com o processo caminhando, recebi o botão. Acho que isso inibiu um pouco a ação dele”, disse.

Priscila Vieira, em abril de 2013, quando recebeu o botão do pânico. (Foto: Vitor Jubini/Jornal A Gazeta)

Priscila Vieira, em abril de 2013, quando recebeu o botão do pânico. (Foto: Vitor Jubini/Jornal A Gazeta)

A sensação que Priscila compartilha com as demais mulheres agredidas é a mesma: humilhação. A jovem demorou a voltar à sua rotina. “A minha primeira reação foi de pânico mesmo. É desesperador. Eu tinha medo de sair e acontecer alguma coisa comigo. Saí do curso de inglês, fiquei um tempo fora da faculdade. Só comecei a sair depois que recebi o botão, mas nunca mais é a mesma coisa, a gente sempre tem receio de acontecer alguma coisa”.

Priscila contou que buscou ajuda justamente com a intenção de evitar que a situação se repetisse. “As mulheres têm que denunciar, têm que ter coragem e buscar os meios que nos proporcionam. São alguns mecanismos que estão fazendo valer a lei. Só assim é possível inibir a ação deles [agressores]. Acredito que muitas vítimas acabam se sentindo impotentes, mas é pior quando não denunciamos”, falou.

Após a entrega do botão do pânico, Priscila contou que conseguiu superar o ocorrido, mas ainda assim, não esconde o medo. “Agora estou feliz, superei. Ainda vivo com um pouco de medo, de receio, mas temos que ter cuidado mesmo”, finalizou.

Causas

A subsecretária de movimentos sociais da Casa Civil do governo do estado, Leonor Araújo, disse ao G1 que a principal causa das agressões ainda é o machismo. “São as causas gerais do Brasil inteiro: o machismo, essa mentalidade arraigada, a maneira como a mulher é vista pelo homem na relação, como propriedade, como objeto”, ressaltou.

Leonor também citou problemas sociais e econômicos. “Temos também a questão da qualificação educacional e econômica. A maior parte das vítimas do Espírito Santo é de mulheres jovens, que não estão na escola, nem no mercado de trabalho. Quando a mulher apanha e continua com o marido, tem diversas causas. Uma delas é não ter perspectiva, não saber para onde ir, como se sustentar, não saber como se portar diante da sociedade”, disse.

Com o objetivo de reduzir os altos índices de violência, Leonor afirmou que o governo tem realizado ações de conscientização em todo o estado, além de reforçar o serviço atendimento prestado às vítimas. “Até julho vamos inaugurar o Centro Estadual Especializado de Atendimento à Mulher, que será o primeiro do país. Ele vai funcionar na capital, 24 horas por dia e terá um serviço integrado, com delegacia de plantão e defensoria pública”, afirmou.

Mariana Perim

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