Alunas da Rural relatam casos de estupro na universidade (O Dia – 04/04/2016)

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Durante ato, nesta segunda-feira, jovens pediram mais segurança no campus de Seropédica

Aluna do curso de Agronomia, X., de 19 anos, costuma andar perto de grupos quando sai das salas de aula da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ), no campus de Seropédica, na Região Metropolitana. Assim como ela, outras mulheres têm medo de andar sozinhas pela faculdade por causa dos frequentes casos de estupros no local. O mais recente caso teria ocorrido em fevereiro, durante uma festa na própria universidade.

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De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), a 48ª DP (Seropédica) registrou 19 casos deste crime em um ano. Para chamar atenção para o problema, as jovens fizeram um ato no prédio principal, nesta segunda-feira. Em vídeo enviado para o WhatsApp O DIA (98762-8248), as alunas aparecem vestidas de preto e gritam “não nos calaremos”. No protesto, elas pediram por mais segurança no campus e punição aos agressores.

Alunas protestam contra casos de estupros na Rural (Foto: Reprodução Facebook)

Alunas protestam contra casos de estupros na Rural (Foto: Reprodução Facebook)

Estudante de Letras, Y, de 21 anos, afirmou que sofreu abuso sexual duas vezes dentro da Rural, em 2014. Em uma das ocasiões, ela estava em uma festa na universidade. A jovem contou que os agressores chegaram a dopá-la, além de fotografar e filmar o ato, mas desistiram de divulgar as imagens já que um deles tinha namorada. Com medo, a aluna explica que não fez um registro de ocorrência na época porque acreditava não ter provas contra eles.

“Os estupros acontecem por vários motivos. Minhas roupas e o fato de eu estar em uma festa não dão abertura para ninguém encostar em mim e fizer o que fizeram. Sempre ando com medo agora”, destacou a jovem, que estuda na Rural há três anos.

Outra reclamação é sobre a falta de iluminação no campus. Segundo as alunas, elas precisam percorrer longos caminhos no escuro, o que aumenta o medo de sofrer algum tipo de assédio ou até mesmo um assalto. A preocupação é maior ainda para quem sai das aulas no turno da noite, por volta das 22h. Alguns estudantes precisam chegar até os alojamentos e outros vão para bairros próximos.

“A faculdade disponibiliza dois ônibus gratuitos para nos levar a esses bairros, mas o campus é muito mal iluminado e enorme. A via que liga o meu prédio até o alojamento, por exemplo, é no meio do mato e sem luz. Atravessamos com lanternas e celulares”, acrescentou Z, de 23 anos, estudante do curso de Relações Internacionais.

Além do ato que fizeram nesta segunda-feira, as mulheres também já picharam diversos muros, ruas e orelhões da faculdade para relatar os casos de abuso, com as frases “Universidade omissa”, “Machistas não passarão”, “Mulheres em luta”. Elas ainda fazem mobilizações na internet por meio de páginas que reúnem relatos de meninas que sofreram abusos sexuais, como a “Abusos Cotidianos – UFRRJ”, e pela hashtag “#meavisaquandochegar”. Nas páginas pessoais do Facebook, as jovens colocaram a frase “Quantas terão que sofrer abusos para a reitoria tomar uma atitude?”.

Nesta quarta-feira, as universitárias vão organizar uma roda de conversa, chamada “Acolhimento das Calouras”, a partir das 17h30, para discutir sobre os problemas da Rural. Além de alunas, elas convidaram professoras e profissionais do lugar, mas deixaram claro que homens não vão entrar no auditório.

Em nota divulgada no site, nesta segunda-feira, a universidade admitiu que existem problemas de segurança no campus de Seropédica. Em relação às denúncias de violência contra mulheres, a faculdade afirmou que os integrantes da Administração Central da UFRRJ repudiam “qualquer ato de violência ou preconceito contra integrantes ou não integrantes da comunidade universitária nos espaços institucionais”. A universidade disse ainda que a violência sexual não pode ser tolerada e deve “ser apurada com todo o rigor necessário, no âmbito das esferas policiais e administrativas”.

“O aumento da ocorrência de casos de violência contra a mulher no interior das universidades brasileiras é uma dura realidade que precisa ser enfrentada pelo conjunto das instituições e pela UFRRJ. O ponto de partida passa, primeiramente, pelo reconhecimento do problema e, posteriormente, pela discussão e proposição de políticas institucionais para a sua solução”, disse em nota.

Além disso, os representantes da direção da Rural afirmaram que “consideram legítimas todas as manifestações de indignação da comunidade universitária, em especial a estudantil, sobre quaisquer atos de violência contra a mulher em seus campus e se colocam à disposição para o diálogo em busca de soluções conjuntas”.

A universidade destacou anda que o vice-reitor, Eduardo Mendes Callado, “prestou todo apoio necessário à vítima” que sofreu o abuso em fevereiro, acompanhou até a delegacia e o Instituto Médico Legal (IML) para exame de corpo de delito. “A Administração Central se mostra solidária às vítimas e registra um pedido de desculpas em relação a outro caso de violência, ocorrido em 2015, ao inadequado acompanhamento do mesmo”, completou.

Gabriela Mattos 

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