Após ato contra estupros, UFRRJ assume insegurança e pede desculpa (G1/Rio de Janeiro – 05/04/2016)

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Mulheres que estudam na Rural, em Seropédica, cobram mais segurança. Página virtual reúne mais de 600 relatos de abuso sexual no campus

Depois de ter o prédio ocupado por alunas cobrando providências contra crimes sexuais cometidos contra mulheres em seu campus em Seropédica, na Baixada Fluminense, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) divulgou nota pública reconhecendo falhas na segurança. No comunicado, a instituição ainda pede desculpas pelo “inadequado acompanhamento” de um dos casos de estupro ocorrido em suas dependências.

O protesto, realizado na tarde desta segunda-feira (3), mobilizou dezenas de estudantes, que se vestiram com roupas pretas e usaram batom vermelho simbolizando, respectivamente, o luto e a defesa da liberdade feminina. “Não nos calaremos”, gritavam as estudantes no prédio principal da universidade.

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De acordo com uma estudante de história, de 18 anos, a mobilização foi motivada pela condição insegura das alunas da Rural, que convivem com constantes casos de abusos sexuais. Dados oficiais do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ) apontam que em 2015 foram registrados 28 casos de estupro na 48ª DP (Seropédica). Os dois primeiros meses de 2016 somam dois casos.

As estatísticas de março ainda não foram divulgadas pelo ISP, mês em que ocorreu o caso de estupro mais recente e com maior repercussão dentro do campus da Rural.

Alunas da Rural ocuparam o prédio da Reitoria para cobrar mais segurança para as mulheres que estudam em Seropédica (Foto: Mariana Vieira/Arquivo Pessoal)

Alunas da Rural ocuparam o prédio da Reitoria para cobrar mais segurança para as mulheres que estudam em Seropédica (Foto: Mariana Vieira/Arquivo Pessoal)

“Uma menina foi estuprada dentro do campus por um aluno da educação física. Ele foi visto desfilando pela Rural com a calcinha da menina na cabeça, a exibindo como se fosse um troféu. A reitoria fez de tudo para abafar o caso. Foi extremamente grave. A menina abandonou a universidade, voltou para a cidade dela, enquanto o agressor continua caminhando por lá impunemente”, contou a aluna de história.

Na nota pública divulgada pela universidade, horas depois do protesto, a Reitoria afirma que tão logo tomou conhecimento do estupro ocorrido em março, o vice-reitor da instituição, Eduardo Mendes Callado, “prestou todo o apoio necessário à vítima, tendo acompanhado a mesma até a 48ª DP (Seropédica), onde foi feito o Registro de Ocorrência. Ele também a acompanhou ao Instituto Médico-Legal (IML) para a realização de exame de corpo de delito”. Destacou ainda que foi instaurado um Processo Administrativo e Disciplinar para apurar o caso e que a comissão formada para apuração dos fatos “adotará todas as providências previstas no Regimento Geral e no Código Disciplinar desta Universidade, com a aplicação integral das sanções recomendadas”.

Rotina de medo

Em um ano de curso, a estudante de história, relata já ter sido vítima de agressão dentro do campus. “Eu fui parada por um cara, puxada pelo braço e quando eu empurrei ele, me puxou, me agarrou. Ele só parou porque um amigo viu e interveio. E isso foi à luz do dia”, contou.

Ao relato da aluna, somam-se outros mais de 600, registrados por meio da página “Abusos cotidianos – UFRRJ”, criada no Facebook por uma das muitas vítimas com o objetivo de denunciar a violência sofrida pelas mulheres na universidade. Há relatos de casos ocorridos desde 1970.

Página no Facebook criada em 2013 reúne relatos de mulheres sobre abusos sexuais sofridos nas dependências do campus em Seropédica. (Foto: Reprodução/Facebook)

Página no Facebook criada em 2013 reúne relatos de mulheres sobre abusos sexuais sofridos nas dependências do campus em Seropédica. (Foto: Reprodução/Facebook)

Na nota publicada após o protesto desta terça-feira, a UFRRJ disse reconhecer “que existem problemas de segurança no campus Seropédica” e pediu “apoio de toda a comunidade acadêmica para ajudarmos uns aos outros”. Destacou que “aumento da ocorrência de casos de violência contra a mulher no interior das universidades brasileiras é uma dura realidade” e ressaltou que “devemos considerar as dificuldades e as limitações da nossa realidade institucional” para o atendimento propostas discutidas no Fórum para a Construção de Políticas Institucionais de Acolhimento às Vítimas de Violência Contra a Mulher, realizado entre 7 e 9 de dezembro do ano passado.

No mesmo comunicado, a UFRRJ disse ser “solidária às vítimas” e registrou “um pedido de desculpas em relação a outro caso de violência, ocorrido em 2015, ao inadequado acompanhamento do mesmo”.

“Eles deram uma resposta, finalmente, mas ainda é muito raso. Não é de hoje que cobramos uma solução. A gente briga por mais iluminação, por mais segurança. A gente não tem segurança para andar e as distâncias dentro do campus são muito longas. E não é só dentro do campus não. A maioria de nós, alunas, mora em Seropédica e a gente não sair sozinha, nem para ir ao supermercado de manhã, com medo de assalto e de ser estuprada. É um problema da cidade”, enfatizou uma estudante.

Daniel Silveira
Do G1 Rio

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