Assédio contra mulheres. A violência que é rotina nas noites (O Povo – 15/05/2016)

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Assédio sexual é rotina para mulheres nas festas. Denúncias trazem à luz situações cotidianas que eram mantidas ocultas. Mas, reação deve ir além das redes sociais

Olhares lascivos, contato com o corpo da mulher sem o consentimento, puxões no cabelo, tentativa de agarrar, beijos à força. Sair de casa para uma noite de diversão esbarra, muitas vezes e para muitas mulheres, em assédio sexual. Foi assim com a universitária Luiza Maropo que relatou em seu perfil no Facebook o beijo obrigado que sofreu numa boate há uma semana. A narrativa de Luiza sobre o episódio, ocorrido na boate Órbita, na Praia de Iracema, deu visibilidade a situações que são do cotidiano de mulheres que frequentam a noite.

“É o machismo que legitima o discurso de posse, a ideia de que a mulher tem de estar disponível. O homem não sente que está fazendo uma coisa errada, ele se sente no direito. Mas, não é por ser uma cultura, que o machismo é abstrato. Ele se materializa por meio de ações concretas como o assédio”, aponta Hayesca Costa, professora de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e pesquisadora do Observatório da Violência Contra a Mulher (Observem).

“Uma pessoa chegou até a mim e, acho que pelo fato de ser um conhecido, se sentiu no direito de ficar tentando me beijar à força, me segurando, eu não conseguia me soltar, pedia e não adiantava”, relembra a psicóloga e produtora de eventos Lia Pressler, 27. O relato vem com a constatação de que o episódio está em vias de acontecer todas as vezes em que sai. “O desrespeito já começa com o olhar, que a gente sente que é diferente. (E evolui para) alguém colocando a mão na sua bunda, segurando a sua cintura, puxando o seu cabelo”, conta.

A sensação de incômodo é compartilhada pela universitária Claudiana Rocha, 25. “Sempre me sinto encurralada. Às vezes, me pergunto se saí arrumada demais. Se não era melhor ter ficado em casa. Para os homens não é compreensível que você vai pra uma balada se divertir e não está disponível para eles. E como o assédio é natural para eles, acham que tem de ser natural para a gente. Mas não tem”, afirma.

A naturalização do assédio passa ainda pelo espaço em que ele acontece. Nos comentários da matéria no Facebook do O POVO sobre o caso Luiza, pessoas questionaram sobre bebida e, principalmente, afirmaram que estar em uma boate abriria precedente para que ocorresse o assédio. “As pessoas sacralizam os espaços onde o assedio é legitimado e onde não é. Mas não há espaço legítimo ou favorável para o assédio. Não é o espaço que indica o limite ou a gravidade, porque o assédio é uma violência direcionada a mulher em que não há consentimento”, afirmou Hayesca Costa.

Falar

Expor-se ao crivo da sociedade ao fazer a denúncia desestimula que outros relatos sejam conhecidos. “Isso e o sentimento de vulnerabilidade. Mas, ao mesmo tempo, quando a denúncia acontece, as mulheres veem que outra também passou pelo que você passou, gera empatia, um empoderamento coletivo”, explica Hayesca.

Como já havia ocorrido em proporção ainda maior com a hashtag “meuprimeiroassédio”, o relato de Luiza gerou uma série de comentários de meninas que também se sentiram assediadas em festas e haviam se calado. Na esteira da narrativa, outra internauta que contou ter sido ameaçada ao reagir ao assédio direcionado a sua namorada na saída de uma boate. “Homens pensam que somos objetos sem opinião e vontades, apenas à disposição deles”, lamenta a jovem.

SERVIÇO

Como denunciar o assédio sexual
Onde: Ligue 190 ou procure a delegacia distrital mais próxima. Em casos de assédio e abuso no âmbito familiar procure a Delegacia da Mulher (rua Manuelito Moreira, 12 – Benfica)

Domitila Andrade

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