Ato em Bauru revela drama de um estupro (JC Net – 02/06/2016)

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Relato de jovem estuprada pelo namorado foi um dos momentos mais intensos do ato ‘Por Todas Elas’, realizado nessa quarta (1) à noite, na Unesp
Evento debateu temas como violência sexual, machismo e luta por igualdade de gêneros

Para onde se olhava, havia mulheres com os rostos cobertos de lágrimas após o emocionado depoimento de uma jovem, estuprada pelo ex-namorado durante três anos de relacionamento. Foi, certamente, o momento mais intenso do ato “Por Todas Elas”, realizado nessa quarta-feira (1) à noite na central de salas de aula da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Durante o evento, que contou com a participação de representantes de cinco comissões da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Bauru, da psiquiatra Adélia Ferraz Daher Miranda e do Coletivo Feminista Abre Alas, da Unesp, ficou evidente o quanto as mulheres ainda têm medo de denunciar seus agressores e o quanto elas ainda são alvo de repressão e preconceito.

A jovem deu seu relato diante de mais de 150 pessoas e comoveu o público, certamente porque boa parte compartilha da mesma dor. A vítima, que não será identificada pela reportagem, contou que permaneceu em silêncio por vergonha.

Mas, em meio ao debate sobre o quanto a cultura do estupro causa dor às mulheres, decidiu expor seus traumas. “Olhar no espelho todos os dias, saber o que eu sofri e que ele continua na rua é doloroso. Mas não quero mais ficar quieta. Eu quero que todo mundo saiba o que ele fez comigo, que ele é um estuprador e deve pagar pelo que fez”, desabafou.

Organizadora do evento, a terapeuta e professora de dança Líliam Dib Marson reforça o quanto a formalização da denúncia ainda é uma realidade distante da maioria das mulheres vítimas de violência sexual. Ela mesma diz ter sido abusada por um homem, mas acabou optando pelo silêncio por recomendação de pessoas próximas.

“Elas pediram para eu não me expor e a dona do estabelecimento onde tudo aconteceu ameaçou me processar. A vítima é sempre questionada, muitos tentam culpá-la. Quando ela se cala, a impunidade acaba sendo uma certeza para o estuprador”, pontua. Segundo dados do Ministério da Saúde, apenas 10% dos casos de estupro chegam ao conhecimento da polícia.

Luta e resistência

Para Líliam, eventos como o organizado por ela, na noite dessa quarta (1), assim como a mobilização vista nas últimas semanas nas redes sociais e os movimentos feministas que se multiplicaram nos últimos anos são fundamentais para tentar combater estatísticas como esta. Estudante de jornalismo na Unesp, Érika Alfaro, 20 anos, acrescenta que a mudança de pensamento e comportamento passa, essencialmente, pela educação.

“Vivemos em uma sociedade extremamente machista, o que leva, inclusive, muitas mulheres a terem atitudes machistas. Cabe a cada um de nós propagar quais são os direitos da mulher, para que ela saiba que nada do que faça pode ser motivo para justificar qualquer violência. E as crianças, sejam meninos ou meninas, precisam começar a ser educadas desta forma”, pontua.

Membro do Coletivo Abre Alas, Thamires Motta também analisa que questões de gênero e sexualidade deveriam ser debatidas ainda na infância, inclusive dentro das escolas. Ela pondera, contudo, que uma conquista como esta continuará encontrando forte resistência dentro dos setores conservadores da sociedade.

“Toda vez que um movimento progressista dá dois passos, o movimento conservador dá três, na tentativa de conter novos avanços. Isso ocorre em âmbito nacional e dentro do câmpus da Unesp. É bem complicado, mas tentamos não desanimar”, completa.

Homem invade casa e tenta estuprar mulher

Mulheres correm o risco de serem estupradas se estiverem sozinhas na rua, se forem para bailes funk usando roupas curtas e também se estiverem dentro das próprias casas. Foi no quintal do imóvel onde mora, na Vila Independência, que uma mulher de 30 anos foi atacada por um desconhecido, em Bauru, na noite da última terça-feira (31).

Em boletim de ocorrência registrado na Central de Polícia Judiciária (CPJ), os policiais militares que atenderam a ocorrência relataram que a mulher informou ter sido surpreendida pelo agressor – um homem alto e magro – por volta das 22h20. A vítima contou que estava no quintal, quando o criminoso rasgou sua blusa, puxou seus cabelos e arranhou seu rosto, enquanto ela lutava para se desvencilhar.

A moradora disse, ainda, que começou a gritar e pediu socorro, quando conseguiu correr para dentro de casa, momento em que o agressor correu e fugiu. A mulher acionou a Polícia Militar e ressaltou que o homem tentou violentá-la sexualmente. O caso será investigado pela Polícia Civil.

Ato múltiplo

O ato “Por todas elas” foi realizado, nessa quarta-feira (1), simultaneamente em várias cidades para debater temas como violência sexual, machismo e luta por igualdade de gêneros. Em Bauru, além de roda de conversa, o encontro contou com orientação jurídica a vítimas de abusos e arrecadação de produtos de higiene pessoal, que serão encaminhados às meninas que vivem na Casa de Nazaré e ao abrigo de mulheres vítimas de violência de Bauru. Interessados que ainda quiserem contribuir com doações devem entrar em contato pelo e-mail floresaoventre@gmail.com ou pelos telefones (14) 99777-7751 e (17) 99777-0100.

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