Campanha lançada em Porto Alegre ressalta relação entre estupro e o vírus HIV (Jornal do Comércio – 25/04/2012)

A campanha Mulheres e Direitos no Brasil – Eixo Violência e HIV, criada através de parceria entre o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), a União Europeia, o Fundo de População das Nações Unidas, e a ONU Mulheres, foi lançada ontem na Capital. Partindo da premissa de que 80% das agressões contra a mulher são cometidas pelo marido, companheiro ou namorado, e que 42% dos casos de violência sexual envolvem agressores que mantêm relações afetivas há mais de dez anos com as vítimas, a campanha quer alertar para o fato de que, mesmo nestas situações, contrair HIV é uma consequência frequente. Somente no ano passado, Porto Alegre registrou 485 denúncias de estupro.

“Entre adultos, e mesmo dentro do casamento, entre marido e mulher, a relação imposta pela força também caracteriza estupro”, informa a cartilha. A ferramenta principal de alerta da campanha é um vídeo que traz depoimentos de mulheres e homens que foram vítimas de violência física, sexual e psicológica, além da fala de alguns agressores. O mais chocante nos relatos é a constatação de que no núcleo familiar os abusos são velados e, por isso, duram anos. Outro ponto destacado é que o ciclo da agressão se propaga de pais para filhos, sendo os exemplos de abusos cometidos dentro de casa seguidos por outras gerações.

“Assim como a violência homofóbica, a violência contra a mulher é inaceitável e deve ser coibida. Além de violar direitos humanos básicos, é fator de vulnerabilidade a infecção pelo HIV”, afirma o Pedro Chequer, coordenador do Unaids no Brasil. De acordo com ele, a campanha surgiu na Amazônia, na tribo tikuna, na qual é desenvolvido um projeto de combate à Aids. Todos os materiais desenvolvidos, entre áudio, vídeo e texto, são dublados para o idioma tikuna, falado por mais de 30 mil pessoas no Brasil, e também para o espanhol e o inglês. “As indígenas estão se emancipando e denunciando as agressões”, conta.

Chequer explica que a ligação entre violência e HIV foi estabelecida por meio de pesquisas científicas que mostram que a violência contra a mulher é um fator importante na disseminação da Aids. De acordo com o coordenador, os homens são fundamentais no combate à violência, pois eles são os autores dos abusos e, se não estiverem mobilizados, o panorama não se reverterá.

A cartilha traz explicações sobre todos os tipos de violência, juntamente com estatísticas, motivos para a busca de uma medida protetiva, formas da transmissão do HIV e instruções para a gravidez resultante de estupro, inclusive sobre o direito de aborto nestes casos. “Nesse momento, precisamos lembrar que o Estado é laico e que interferências não devem ser aceitas”, ressalta Chequer.

Dirceu Greco, diretor do Departamento Nacional de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, enfatizou a importância de desenvolver o trabalho nas escolas. “O ciclo de violência só é interrompido quando se pune o agressor, porém, para a prevenção é preciso conscientizar os jovens”, argumenta. Ele sugeriu que a campanha se torne uma das bandeiras da Jornada da Juventude e da Copa das Confederações, que atrairão um grande público para o País neste ano.

A parceria entre Unaids, ONU e o município resultou na construção de um plano integrado, chamado Aids Tchê, que buscará a prevenção da doença entre jovens, com ênfase no programa Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE). Outro foco será o combate à epidemia entre mulheres, gays e homens que fazem sexo com outros homens, além do fortalecimento dos movimentos sociais e das ações preventivas junto à população negra.

Jessica Gustafson

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