Campinas registra 60 assassinatos de mulheres em três anos; 65% foram feminicídio (G1 – 13/05/2018)

De acordo com balanço feito pela polícia a pedido do G1, 39 casos de mortes violentas de mulheres em três anos foram tipificados como feminicídio. Pesquisadora da Unicamp analisou os registros.

Desde março de 2015, quando a lei que tipificou o feminicídio no código penal entrou em vigor, Campinas (SP) teve 60 assassinatos de mulheres, dos quais 65% foram registrados como feminicídio, de acordo com levantamento feito pela Polícia Civil pedido com exclusividade pelo G1. O balanço apontou que 39 do total de mortes violentas de mulheres na cidade em três anos foram enquadradas no crime. Os números foram levantados até abril deste ano.

De acordo com os dados enviados pelo Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior 2 (Deinter 2), nos quatro primeiros meses deste ano aconteceram cinco assassinatos de mulheres – média de 1,25 por mês – sendo que três já foram tipificados como feminicídio.

O ano com maior número de crimes foi 2017, por conta da chacina do réveillon que matou 12 pessoas, entre elas nove mulheres. Segundo a Polícia Civil, foram 30 registros de mortes violentas, com 13 feminicídios. [veja todos os números no gráfico abaixo].

De acordo com o Deinter, todos os casos de mulheres assassinadas desde 2015 que foram esclarecidos tiveram a tipificação de feminicídio. O crime se enquadra quando existe violência doméstica familiar, além de discriminação e menosprezo à condição da mulher.

Cultura machista

A pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Ana Cláudia Martins acompanha os casos de feminicídio em Campinas desde 2015 e afirmou que o crime, muitas vezes, é a última etapa depois de constantes ameaças e violência doméstica. Segundo ela, a mulher busca suporte na polícia, registrando boletins de ocorrência, ou até mesmo na família, e não é levada a sério por conta da cultura da sociedade.

“Quando se fala da cultura machista, cultura patriarcal, ela é em toda a sociedade, inclusive para as mulheres. Elas muitas vezes acham que o homem vai mudar, ou ficam com medo por conta de alguma dependência financeira. Isso é muito duro. Elas precisam de respaldo, de apoio, de encaminhamento para algum abrigo, para que o final não sejam essas mortes violentas”, explicou.

A especialista ainda afirmou que os feminicídios têm uma característica em comum. Eles são crimes que acontecem pela mulher não cumprir o papel social que as pessoas pensam que ela deveria cumprir. Além disso, os assassinatos são mais violentos que os de homens, que na maioria acontecem com uso de arma de fogo.

“Os crimes contra a mulher são crimes muito mais violentos do que contra os homens. Mulheres são mortas por agressão física, apanham, são mutiladas com facas, estranguladas, queimadas. Os crimes podem ser subnotificados pela falta de preparo da polícia. O homem podem cometer um assassinato de uma mulher porque acha que ela está ocupando um lugar que deveria ser dele. Esses casos, como ultrapassam a barreira do relacionamento, podem ser mais difíceis de classificar”, completou Ana Cláudia.

Alteração de registro

No dia 16 de dezembro de 2017, o Setor de Homicídio de Proteção à Pessoa de Campinas (SHPP) alterou a tipificação da chacina que matou 12 pessoas no revéillon e incluiu o crime de feminicídio no inquérito. Antes, o boletim de ocorrência havia sido registrado como homicídio simples, mas integrantes de coletivos de mulheres e a delegada da Delegacia de Defesa da Mulher do município já haviam se manifestado a favor da mudança.

Entre a noite de 31 de dezembro e a madrugada de 1º de janeiro, Sidnei Ramis de Araújo pulou o muro de uma casa na Vila Proost de Souza, assassinou a ex-mulher, Isamara Filier, o filho de 8 anos, outras dez pessoas e se matou. A polícia encerrou o inquérito sem identificar quem vendeu a arma ao autor.

Marcello Carvalho

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