Capacitação, permanência e integração: as chaves para um atendimento humanizado

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterEmail this to someone
Claudia-Araujo_facebook

Professora Cláudia Araújo
(Foto: arquivo pessoal)

A reportagem do Portal Compromisso e Atitude conversou com a professora Cláudia Araújo, responsável pelo projeto de qualificação profissional da equipe que atua na Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande (MS).

Doutora em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (RJ), Cláudia foi gestora no Ministério da Saúde, atuando na assessoria técnica especializada em atenção a mulheres em situação de violência doméstica e sexual entre 1998 e 2014. Desde então, é professora adjunta do Programa de Pós-Graduação em Educação Social da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e vem orientando as ações de formação continuada com a equipe multiprofissional da Casa.

Nesta entrevista exclusiva, a professora destaca o empenho dos profissionais que atuam na primeira Casa da Mulher Brasileira do País em construir a integração e o acolhimento humanizado no dia a dia do atendimento: “Desde o começo, todos os profissionais estão muito envolvidos e buscando respostas rápidas para os casos, e é para isso que a Casa foi constituída”, frisa.

Quais são os elementos trabalhados na formação para atuação na Casa da Mulher Brasileira?

Temos adotado uma junção de vários conceitos e conteúdos neste momento, com o início da aplicação prática. São os conceitos de rede de atendimento, tecnologia, humanização, acolhimento e triagem, atendimento e escuta qualificada. Todos esses conceitos são fundamentais no processo de atenção à vítima de violência e estamos trabalhando para traduzi-los para a linguagem do serviço, aplicando-os em cada área da Casa.

Mas antes da capacitação a Casa passou por um processo de mobilização que envolveu representantes das várias secretarias municipais e estaduais, Judiciário, Ministério Público, Defensoria, profissionais com diferentes formações e níveis de conhecimento sobre teorias e práticas de atendimento a mulheres nessa situação. Então estamos trabalhando também no alinhamento técnico entre as pessoas e em cada serviço.

E como vem funcionando esse trabalho?

De 15 em 15 dias os profissionais passam por uma capacitação de quatro dias em que trabalhamos os temas da Casa da Mulher Brasileira, com menos ênfase na discussão teórica do que nos modelos, eventos, discussão de casos e alinhamento das questões internas. Estamos trabalhando para que o grupo desenvolva capacidade de coesão, resolução de problemas de forma coletiva e aproximação. Supervisionamos os atendimentos e, às vezes, ajudamos nas rotas, para que a abordagem seja cuidadosa e as mulheres recebam a atenção que cada caso exige, e também para que seja dada prioridade aos casos de maior gravidade.

Avalio que o grupo já está trabalhando bem, refinando as práticas. Desde o início todos os profissionais se mostraram muito envolvidos e buscando respostas rápidas para os casos, e é para isso que a Casa foi constituída.

E como funciona a dinâmica da capacitação?

Nosso trabalho se efetiva em quatro dias, quinzenalmente. Na sexta-feira à tarde trabalhamos com a equipe de gestão da Casa, que reúne representantes de todos os setores presentes, para que as diretrizes do projeto da Casa da Mulher Brasileira sejam adequadas à realidade local e às soluções locais. No sábado os servidores passam por oito horas de capacitação. No domingo realizamos o acompanhamento nos quatro horários de funcionamento da Casa, duas horas a cada período, inclusive nos períodos noturno e da madrugada. Isso é importante porque em cada horário há uma característica diferenciada de atendimento, de dificuldade dos casos, de tipos de situações que aparecem. E estar presente no atendimento favorece os ajustes para as próximas aulas. Então, na segunda-feira trabalhamos com a gestão na correção de obstáculos. São pontos como: quais são os horários mais críticos e nos quais é necessário reforçar a equipe; ou uma redução no tempo de atendimento na recepção, para que a mulher economize a fala para o atendimento com as psicólogas, assistentes sociais e delegadas, entre outros.

O trabalho, então, é contínuo?

O acordo entre a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, a Casa da Mulher Brasileira – composta pelo Estado e o Município – e a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República prevê que esse processo de capacitação continue até o final do ano, quando será possível ter uma equipe e um fluxo de atendimento consolidados. Pelos anos de experiência nessa área, avalio que a perspectiva é que em cinco anos seja possível ter uma equipe estabilizada e formada. Nesse sentido, estamos fazendo uma parceria com a UFMS e a SPM-PR para oferecer, a partir do ano que vem, um curso formal de pós-graduação semipresencial sobre os conhecimentos exigidos para atuar nas Casas da Mulher Brasileira.

profissionais na frente da Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande

Profissionais que colocaram em prática o atendimento integrado na primeira Casa da Mulher Brasileira
(Foto: Leca / Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Assistência Social e Trabalho do MS)

E como esse trabalho tem sido recebido pelos profissionais?

O que tenho percebido é que gradualmente as pessoas estão incorporando o significado do trabalho coletivo. Discutimos muito essa questão nas aulas, fazemos reuniões paralelas para ir desatando os nós. Realizamos visitas a todos os setores para ouvir os profissionais, quais são suas dúvidas, saber se há questões que podem interferir no processo. O aprendizado mais importante para o grupo está sendo entender que o processo na Casa da Mulher Brasileira é único e muito diferente de quando cada serviço atuava de forma isolada. Agora, a rede está dentro de um mesmo equipamento, no mesmo espaço físico. Os setores satélites, como saúde, assistência psicossocial, perícia e outros serviços estão fora da Casa, mas o núcleo está em um lugar só. Nos primeiros dois meses, fevereiro e março, já foi observado um avanço muito interessante na compreensão do trabalho conjunto.

Como a Casa atua para a eliminação da “rota crítica” e para não reproduzir uma “mini rota crítica” no interior dela?

Quando surge um caso que requer orientações diversas ou atendimento por equipes diferenciadas, a mulher é acompanhada por toda a Casa, o que garante que não saia de lá sem todas as informações necessárias. E isso só acontece se houver um alinhamento entre os setores, uma compreensão global do processo.”

A expectativa do trabalho é que a Casa se transforme de fato em uma referência para a mulher vítima de violência. Um espaço que não se fecha para ela após o encerramento do atendimento aqui, mas para onde ela pode voltar se quiser um aconselhamento psicossocial ou se precisar de mais alguma orientação jurídica, informações sobre o acompanhamento do caso na Delegacia etc. E já temos observado esse movimento de algumas mulheres, de entrada e saída, e posterior retorno para acompanhamento.

Quais são as principais questões e os maiores desafios desse processo de consolidação da formação e humanização do atendimento?

O principal foco é a educação permanente para manter o grupo trabalhando com o mesmo objetivo de atendimento humanizado. O maior desafio é a manutenção da equipe, os profissionais precisam sentir que o trabalho deles não será desmobilizado, é preciso ter política de permanência. E o nosso desafio imediato é o de transformar, ainda em 2015, a Casa da Mulher Brasileira em um exemplo para as outras Casas.

Nas capacitações estamos desenvolvendo uma metodologia que está sendo documentada para servir de modelo para quem atua nos processos das outras Casas. Discutimos coletivamente o protocolo e o fluxo de atendimento. É um aprendizado para todo mundo. Para nós, da Universidade, está sendo fantástico fazer essa troca com quem lida com a violência real, no dia a dia. Há profissionais com boa vontade e disposição em todos os setores, estão lá porque gostam do que fazem, são militantes da não violência.

E como está sendo a construção do protocolo conjunto da Casa?

Começamos desenhando o primeiro esqueleto do protocolo, a partir do qual todos os setores tiveram que refletir e descrever suas práticas. Agora todos estão entregando suas contribuições, que estão sendo discutidas e incorporadas ao protocolo, que será revisado pelo grupo inteiro. A intenção é ter o trabalho finalizado em junho.

Por dentro da Casa da Mulher Brasileira: acesse o Informativo Compromisso e Atitude nº 9 na íntegra