Casas de apoio ajudam mulheres vítimas de violência doméstica (Correio Braziliense – 07/05/2016)

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Na sétima reportagem da série Quando não mata, fere, histórias da Associação das Mulheres de Sobradinho 2. Lá, elas aprendem que não é culpa delas serem vítimas. Também recebem apoio para viverem por conta própria

Geralda Florisbela Gonçalves Soares compara a história dela e a de tantas mulheres com a de Medusa. A personagem da mitologia grega nasceu estonteantemente linda, a ponto de despertar os mais, e também os menos, nobres desejos masculinos. Com o impulso descontrolado, o deus Poseidon a violentou dentro do templo de Atenas. Enfurecida, a deusa da guerra não pune o agressor, mas sim a vítima e transforma a bela Medusa em um monstro. Na última matéria da série Quanto não mata, fere, o Correio mostra a transformação na vida dela e de outras que participam da Associação das Mulheres de Sobradinho 2.

Geralda também é conhecida por Bela. Vem do segundo nome, Florisbela. Também já foi punida por ter sido fisicamente agredida pelo ex-marido. Alguém disse que a culpa só poderia ser dela. A agressão é por parte da sociedade, inclusive das próprias mulheres, que acreditam que a vítima de um contexto de violência possa ter uma parcela de culpa nessa relação doentia. Quando faz a comparação, uma moça ouve a conversa. Ela reforça o discurso que Bela acabou de criticar: “A mulher que apanha é porque não faz nada para mudar. Eu já apanhei e saí de casa, arrumei a minha vida”, comentou a ouvinte. Uma das diretoras da Associação, Bela escutou tamanho disparate não sem indignação. “Você acha que eu queria apanhar?”, ela pergunta à outra.

Não! Bela nunca quis ser ferida pelo homem que amava profundamente. Nem ela nem as mulheres que acolhe há 16 anos, quando decidiu reunir, nos fundos da própria casa, um grupo de 12 amigas. Todas eram vítimas de agressão masculina. Nascia, assim, uma associação para mulheres, que hoje funciona um prédio antes abandonado — que inclusive está com dias contados para ser retomado pelo governo. Era local usado por usuários de droga. Bela chegou ali com a polícia, mandou drogados embora e se instalou com poucos móveis, os companheiros voluntários e muita vontade de ajudar.

Ferida na alma

Mas a voz altiva de Florisbela calou-se durante três anos de agressão dentro de casa. Era 1986 quando ela se casou com um delegado. Foram cinco ou seis anos de união tranquila. Até que ele começou a ser agressivo com os filhos dele, criados pelo casal. Bela foi intervir em uma das brigas e, pela primeira vez, conheceu a nova face do homem que tinha como seu amor. Ele feriu a alma, a autoestima ao deixar marcas de uma mangueira nas costas dela.

Ficou fácil para ele, a partir de então, espancá-la e ofendê-la. A mesma voz que se calou diante daquele absurdo quase 20 anos depois ainda embarga e gagueja ao relembrar dos episódios. “A gente tem mesmo que mexer nisso?”, pergunta, emocionada. Não havia uma razão para os tapas, os murros, os xingamentos. Bela cuidava da casa, da comida e nunca deixava faltar o chinelo dele ao lado da cama. Ele dizia que era culpa do estresse ou da aposentadoria. Exibia a arma, que só hoje ela entende que podia ser forma de intimidação.

A surra sempre vinha acompanhada de um posterior pedido de desculpas, rosas ou perfumes. Ela achava que ele mudaria. Até que o olho ficou roxo. Ninguém acreditava que o marido era um agressor. Ela temia perder a garantia da vida financeira. Até que teve coragem e se separou. Saiu de casa com os três filhos. “Comi o pão que o diabo amassou.” Ganhou a vida cozinhando congelados. Refez a vida, mas nunca esqueceu. Para tornar a dor menos pesada de carregar, decidiu compartilhá-la. Quando se reuniu com as amigas naquela despretensiosa terapia em grupo, queria ouvir e ser ouvida. Não parou mais. Na associação que dirige, a proposta é, inicialmente, dar conforto a quem tem vergonha de se olhar no espelho por ser espancada. A ideia é mostrar que não são as únicas a enfrentar a dor de uma mão pesada no rosto ou um chute pelo corpo.

Flávia Duarte

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