Caso Bruno: sentença do caso deve sair na quarta-feira (O Globo Online – 04/03/2013)

Com uma Bíblia na mão, Bruno chora no primeiro dia de seu julgamento, próximo a seus advogados (Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo)

Cabeça baixa, Bíblia nas mãos e aparentando abatimento. O jeito contido com que o goleiro Bruno Fernandes entrou nesta segunda-feira no Salão do Júri de Contagem sinalizava que a estratégia de sua defesa já não era mais a mesma do primeiro julgamento do caso Eliza Samudio, em novembro, quando ele se manteve de cabeça erguida, sorrindo em alguns momentos. E não foi só a postura de Bruno que mudou: se seus advogados antes queriam adiar seu julgamento, agora parecem querer acelerá-lo. O júri deve terminar na quarta-feira.

Em novembro, numa manobra jurídica, Bruno teve o julgamento adiado. Nesta segunda, seus advogados, que haviam escolhido cinco testemunhas de defesa, dispensaram todas. Para o promotor Henry Vasconcelos, trata-se de uma tentativa de acelerar o julgamento e evitar que os jurados tenham mais contato com o processo:

— Está clara a dissimulação dele, como se estivesse arrasado. Da outra vez, ingressou altivo. Mas essa estratégia não colou para Fernanda (ex-namorada de Bruno, já condenada no processo) e não vai colar pra ele.

Dessa vez, a postura confiante foi a de Dayanne Rodrigues, ex-mulher de Bruno, que também começou na segunda-feira a ser julgada. Cabeça erguida, ela demonstrou segurança. Já o ex-atleta chegou a chorar em alguns momentos, e uma das vezes na qual levantou a cabeça foi para acenar para sua mulher, Ingrid Calheiros, que estava na plateia.

Neste primeiro dia, foi ouvida a testemunha de acusação Ana Maria dos Santos, delegada que comandou o inquérito sobre o desaparecimento de Eliza. O promotor fez com que ela recontasse o depoimento do primo de Bruno, Jorge Luiz Lisboa, principal testemunha do caso. Ouvido pela delegada na época das investigações, quando ainda era menor, Jorge confirmou a morte da modelo e disse como ela teria ocorrido. No entanto, convocado na condição de informante, Jorge Luiz, que daria o depoimento mais aguardado do dia, não apareceu.

Já a defesa de Bruno fez questionamentos sobre as investigações e tentou desmoralizar Jorge Luiz, alegando que ele faz uso de drogas e é “mentiroso”.

— Não discutimos a morte de Eliza, mas como aconteceu. Não há provas suficientes contra Bruno. E não há como dar credibilidade a esse adolescente — argumentou Thiago Lenoir, um dos advogados do goleiro.
— As provas são robustas, sérias e respaldadas. Vamos conseguir provar a participação de cada um nessa trama — rebateu o promotor Henry.

A mãe de Eliza, Sônia de Fátima Moura, que acompanhou o júri, disse esperar que Bruno assuma o crime e “quebre o silêncio”. Ela chorou diversas vezes, inclusive ao atestar a semelhança entre Bruno e seu neto (filho de um romance do ex-goleiro com Eliza).

— Eu não o perdoo — disse Sônia.

O promotor negou qualquer tentativa de acordo em troca de atenuar a pena:

— Não existe acordo. Se ele (Bruno) confessar, será beneficiado automaticamente. Isso não depende de acordo. Não estamos com expectativa de confissão. A confissão não é importante porque temos provas robustas.

Já Lúcio Adolfo, um dos advogados de Bruno, disse não descartar a possibilidade de acordo, desde que seja a vontade do seu cliente:

— Tudo que for benéfico para o meu cliente será levado em consideração. Se ele quiser confessar, é critério pessoal.

Num recente pedido de habeas corpus, a defesa de Bruno alegou que ele recebera proposta de jogar no Boa Futebol Clube, de Varginha, Sul de Minas. A análise do pedido de liberdade, porém, foi adiada por três desembargadores do Tribunal de Justiça de Minas na última quarta-feira.

Mais três suspeitos
A divulgação oficial de novas revelações sobre o caso também marcou a primeira sessão do julgamento. Por solicitação do Ministério Público, um novo inquérito policial foi instaurado para apurar o suposto envolvimento do policial Gilson Costa, do ex-policial José Lauriano de Assis Filho (conhecido como Zezé) e do advogado Ércio Quaresma com a morte e o sumiço de Eliza, em 2010. Ainda em fase de instrução, a investigação foi desmembrada do atual processo pela juíza Marixa Fabiane. Informações provenientes de quebras de sigilos telefônicos e bancários dos envolvidos, incluindo Bruno, como noticiou O GLOBO em janeiro, também foram incluídas na nova linha de investigação.

A intenção do MP é rastrear o dinheiro que foi usado para bancar o crime. Réu acusado de ser o mentor do crime, o ex-goleiro responde por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver de Eliza, além de sequestro e cárcere privado de Bruninho, filho do relacionamento de Bruno com a modelo. Ele pode ser condenado a mais de 40 anos de cadeia, na avaliação de especialistas, caso não colabore com a Justiça. Já Dayanne responde por sequestro e cárcere privado de Bruninho. No caso dela, a pena prevista vai de dois a cinco anos de reclusão.

Primo de Bruno disse que Bruninho quase morreu
Em entrevista ao “Fantástico”, da TV Globo, há duas semanas, o primo do goleiro Bruno e primeira pessoa a confirmar à polícia a morte de Eliza, Jorge Luiz Rosa acusou Luiz Henrique Ferreira Romão, o Macarrão, de ser o principal culpado pelo assassinato da modelo. Ele foi, no entanto, contraditório em relação à participação do ex-goleiro: primeiro, afirmou que o primo não sabia de nada, depois disse ser impossível ele não ter ideia dos planos de Macarrão — condenado há três meses pela morte de Eliza.

Jorge contou ainda que recebeu uma proposta de Macarrão para matar a atual mulher do ex-goleiro, Ingrid Calheiros, em troca de R$ 15 mil. Segundo Jorge, isso ocorreu antes da morte de Eliza, assim que ele passou a morar na casa de Bruno, no Recreio dos Bandeirantes, onde Macarrão também vivia. O rapaz foi para lá por ter contraído uma dívida com a compra de drogas. Ele afirmou que se negou a fazer o que Macarrão tinha sugerido, porque percebeu que Ingrid fazia bem a Bruno.

Jorge, que mudou o depoimento quatro vezes durante a investigação, também revelou ao “Fantástico” detalhes sobre o sequestro e a morte de Eliza, em junho de 2010. Ele e Macarrão teriam ido, a pedido de Bruno, ao hotel onde ela estava com o filho, Bruninho, sob o pretexto de levar a criança ao médico. Depois que Eliza entrou no carro, começou uma discussão entre ela e Macarrão, que teria dado socos na jovem, com a ajuda de Jorge, como ele mesmo confessa.

Com Eliza machucada, Macarrão decidiu levá-la à casa de Bruno, para fazer curativos, de acordo com Jorge. Ele contou que o goleiro ficou espantado ao ver a amante. Em depoimento à Justiça, no entanto, Bruno negou que ela estivesse machucada naquela noite. Segundo Jorge, na mesma ocasião, todos viajaram para Minas. Quanto ao motivo da viagem, ele tem a mesma versão de Bruno: Eliza teria ido por vontade própria para receber R$ 30 mil, que Bruno entregaria a ela em Belo Horizonte. Lá, Macarrão teria levado Jorge, Eliza e o filho até uma casa isolada.

— Eu fiquei esperando do lado de fora enquanto o Macarrão entrou com a Eliza e o filho. Depois de uns 40 minutos, veio o Macarrão só com a criança. Ele só disse que o problema dele estava resolvido, mas que teríamos que dar um jeito de explicar ao Bruno.

Jorge revela que o plano era Bruninho também morrer:

— Macarrão me disse que o menino só não morreu porque quem matou a Eliza não quis fazer nada com a criança — afirmou, sem citar o nome de Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, com julgamento marcado para 22 de abril e acusado de ter matado a jovem.

Jorge, que hoje tem 19 anos, foi solto após cumprir dois anos de medida socioeducativa. Ele era menor de idade na época do crime.

Após a entrevista, o advogado Eliézer Jônatas de Almeida Lima deixou a defesa de Jroge. Segundo informações do jornal “Extra”, o advogado não aprovou a entrevista dada pelo seu ex-cliente.
— Ele (Jorge) não me consultou e não gostei da postura dele comigo. Estou deixando de ser o advogado dele — disse Eliézer.

Ezequiel Fagundes
Carolina Heringer, do Extra

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