Como uma sugestão de usuárias virou uma campanha do Metrô (Viatrolebus – 24/08/2015)

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A medida em que aumenta o número de usuários do Metrô de São Paulo, cresce também os casos de abusos nos trens. Para conter está pratica que coloca em risco as usuários e usuários, o Metrô lançou uma campanha que incentiva a denuncia de quem passar por esta situação.

Com a frase “Você não esta sozinha”, cartazes fixados nos trens incentivam a denuncia. O passageiro deve relatar os abusos a um dos funcionário do Metrô, ou usar o SMS-Denúncia, por meio do número 97333-2252.

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No relato a seguir, a usuária e uma das idealizadoras da campanha conta como foi o caminho entre a ideia e o lançamento da campanha:

Por Nana Soares

Quase um ano e meio atrás, eu estava preocupada com a possibilidade de São Paulo ter um ‘vagão rosa’, o trem exclusivo para mulheres usado em algumas cidades para diminuir o assédio sexual no transporte. Na época, pipocavam denúncias de assédio no metrô e a sociedade pedia uma resposta.

Foi aí que um belo dia minha amiga incrível chamada Ana Carolina Nunes, um ser humano inquieto por natureza, me jogou a ideia de sugerirmos ações para o Metrô combater o problema do abuso e assédio sexual. A Ana tinha o conhecimento técnico de como lidar com comunicação pública, crises e outros aspectos de gestão. Eu só tinha a boa vontade e algum conhecimento em violências de gênero. Mas bastou: logo elaboramos uma série de medidas a serem tomadas pela Companhia para prevenir, combater e punir esse crime. Com a ajuda de um amigo trabalhando na empresa, enviamos o documento para a Diretoria de Relacionamento com o Usuário.

Nossa sugestão era um plano de ação transversal do Metrô para enfrentar o problema, baseado em três diretrizes: prevenção, responsabilização e foco na vítima. Dentre as medidas estão a sensibilização e reciclagem dos funcionários (de todas as áreas, mas principalmente aqueles que lidam com as usuárias e usuários), pesquisas para avaliar a dimensão do problema, peças de comunicação, criação e melhoria dos mecanismos de denúncia e promoção do debate sobre assédio sexual e desigualdade de gênero. Alguns meses depois fomos convidadas a apresentar nossa proposta pessoalmente a diretores do Metrô.

Na primeira reunião, eles pacientemente nos ouviram explicar porque era importante falar de assédio e porque era imperativo que algo fosse feito. Enfatizamos que falávamos da proteção de 58% das pessoas que utilizam o serviço. Também explicamos que agir iria sim trazer efeitos colaterais como o aumento do número de denúncias (que podem ser interpretados erroneamente pela imprensa) e que, por isso, tudo precisaria ser feito com cautela e planejamento.

Saímos desacreditadas da reunião porque tomamos alguns banhos de água fria e/ou choques de realidade, mas pelo menos conseguimos expor nosso ponto e plantar a semente da discussão. Aí fomos nos reunindo com outros setores, como a Segurança. O diretor me trouxe um dado inesperado: 89% das denúncias de assédio têm sucesso. Isto é, o Metrô consegue encaminhar o agressor até a Delegacia. Eu nem imaginava isso e então percebi que precisávamos aumentar as denúncias, porque o Metrô indica ter estrutura para responder a elas.

Nesse vaivém de reuniões, com as sugestões sendo acatadas pouco a pouco (obviamente com algumas mudanças), ainda enfrentamos alguns obstáculos de política e burocracia: eleições estaduais, mudanças de diretoria (incluindo algumas que já tinham sido sensibilizadas), festas de fim de ano. E isso atrasou bastante o andar das coisas. Fomos retomar o assunto de verdade só em fevereiro, já revendo e alinhando estratégias e contatando pessoas que pudessem ajudar nos treinamentos.

Só que política pública demora. Eu e Ana Carol sempre fomos informadas do andamento do processo, mas nós estamos do lado de fora. Havia pouco a fazer, a não ser torcer para a ideia ser aceita nas diferentes instâncias e reescrever mudanças necessárias.

Por não entender muito de gestão, não sei explicar com detalhes toda a tramitação da ideia. O que consigo dizer é que, das pessoas com quem cruzei, a maioria foi receptiva e entendeu depois de um tempo porque era importante um olhar de gênero aí. O Metrô (assim como a CPTM) é uma empresa super masculina e com uma reputação péssima no que diz respeito a abuso sexual e segurança de mulheres, mas mesmo assim tivemos sucesso em implantar a discussão. Até porque a sociedade estava exigindo uma resposta para isso, o que pressiona as autoridades e facilita MUITO o processo.

Mas tudo o que sugerimos custa tempo e dinheiro, e ambos recursos são escassos. Contamos aí com a “sorte” (entre muitas aspas) de o Metrô ter sido obrigado pela Justiça a dar uma resposta a um spot de rádio muito infeliz que circulou ano passado (em que um personagem diz que uma das vantagens de andar de metrô é a paquera), tornando assim possível que a Campanha se materializasse. Tudo se resolveria com uma multa, mas eles optaram por fazer uma campanha. E assim, em junho, fizemos as fotos que agora circulam nos trens. Não opinamos na concepção das peças, isso ficou a cargo do Metrô e da agência responsável. Nosso trabalho sempre foi de bastidores: plantamos a semente e sugerimos abordagens desejáveis, mas cabe ao Metrô operacionalizar. Nós ajudamos onde há espaço.

Dois meses depois e voilà: a campanha chegou nas ruas. Acaba por aí? De jeito nenhum. Nossa maior preocupação desde o início é enfatizar que não basta estimular a denúncia se não mudar todo o resto. É bonito estampar nos trens que o Metrô está olhando para a questão, mas isso tem que ser verdade. Há ações internas nesse sentido, principalmente no treinamento de agentes. Presenciei algumas e, até onde pude ver, a Empresa está sim comprometida com a causa. Mas precisamos fiscalizar o quanto disso será colocado em prática e mudará o que acontece na ponta. É essencial haver mudança institucional, mas ela precisa chegar em todos os cantos da Companhia (e acreditem, se tem algo que descobri nesse um ano e meio é que a as coisas funcionam um departamento por vez).

Os desafios agora são muitos: para começar, por mais que o Metrô esteja preparado, os casos não vão parar de acontecer. Simplesmente porque o problema é maior que a empresa. É uma cultura machista, e qualquer mudança cultural leva tempo. Um tempo que não aparece nas pesquisas que medem a efetividade da Campanha. Depois, ainda pode haver trocas de diretoria ou outras coisas que façam com que a causa perca força internamente. Honestamente, é meu maior medo, e por isso temos que fiscalizar para que essa política faça mesmo parte da cultura permanente da Empresa.

Não dá para esquecer também que, por mais bem intencionada que esteja a Companhia, o tempo dela e do usuário são completamente diferentes. Passamos um ano elaborando isso tudo, mas o assédio não nos esperou. Crimes exigem resposta imediata. E ainda tem um detalhe importante: em termos de procedimento, operação, estratégia e afins, o Metrô, a CPTM e a SPTrans são órgãos completamente diferentes. Isto quer dizer que tudo isso que nós falamos só vale, a priori, para o perímetro do Metrô. Mas para a usuária não tem essa diferenciação. E aí, como lidar com isso?

Os quase 18 meses de gestação e maturação da ideia me fizeram entender que as coisas são bem mais espinhosas do que parecem. A nós, usuários, cabe denunciar, cobrar e incentivar outros a fazerem o mesmo. O resto vem de dentro. Nada é simples, mas a complexidade do problema não pode ser desculpa para não arregaçar as mangas e fazer o que é preciso: tornar o Metrô e o transporte público um ambiente mais seguro para as mulheres. Já passou da hora.

Peças da campanha, extraída do site do Metrô:

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Renato Lobo

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