Crime de estupro cresce no Estado de São Paulo há mais de um ano (CBN – 11/06/2016)

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Levantamento da CBN foi feito com dados da Secretaria de Segurança Pública. São Paulo responde por um quarto de todos os 48 mil boletins de ocorrência registrados no Brasil em 2015 para esse tipo de crime.

O Estado de São Paulo registrou 3.242 ocorrências de estupro nos quatro primeiros meses deste ano, uma média de um estupro por hora. Se os números são alarmantes, imagine então que esse é um crime que cresce no Estado, sem parar, há mais de um ano? É o que revela um levantamento feito pela CBN a partir de dados trimestrais da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.

Os crimes de estupro estão em crescimento no território paulista desde o segundo trimestre de 2015, quando foram registrados 2.110 casos. Desde então, os próximos levantamentos trimestrais registrariam altas que fizeram o ano passado fechar com mais de 9.200 casos.

Para a diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, o aumento pode revelar não só maior ocorrência desse tipo de crime, como uma diminuição das subnotificações – já que muitas vítimas ainda se sentem intimidadas em expor a violência sexual em ambientes como uma delegacia de polícia.

“Pode estar vinculado desde a uma maior conscientização das vítimas, no sentido de terem campanhas informativas, ao fato de acontecerem mais casos, mesmo, assim como uma redução pode indicar algum problema nas delegacias de polícia, que passaram a registrar em outra categoria. Mas o número de estupros no território paulista é muito alto: chega a quase 25% do total de estupros no país. É um número alto sob qualquer ponto de vista, sob qualquer análise.”

Samira, que também é socióloga, lembrou que o último relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, de 2014, e a pesquisa nacional de vitimização, de 2013, apontaram mais de meio milhão de casos de estupros no Brasil por ano – mas só 48 mil deles, ou 9%, viraram boletim de ocorrência. É o que indicou, no ano seguinte, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Um quarto desses boletins de ocorrência estão no Estado de São Paulo.

Na Universidade de São Paulo, há pouco mais de um ano uma rede formada por pesquisadoras e professoras presta atendimento a vítimas de violência sexual na Cidade Universitária. O grupo foi criado em meio às denúncias das alunas de medicina sobre colegas que as estupraram e acompanha atualmente 15 mulheres entre alunas, professoras e funcionárias.

A antropóloga Márcia Couto, uma das coordenadoras dessa rede, falou das sequelas emocionais enfrentadas pelas vítimas.

“A maior sequela muitas vezes é ela ter que conviver com o agressor dentro da sala de aula, nos laboratórios, convivendo no mesmo ambiente escolar e sendo muitas vezes desacreditada pelo outros colegas, se, de fato, ela não foi culpada por aquilo que ela sofreu.”

Há dois anos, a advogada Débora, de 25 anos, denunciou um homem que tentou estuprá-la quando ela voltava à noite da escola de inglês para casa – um trajeto a pé de pouco mais de 300 metros.

“Ele tirou um saquinho do bolso dele e estendeu no chão e disse: ‘Pode deitar aí’. A todo momento eu dizia que não precisava fazer aquilo, que, se ele quisesse, eu sacava dinheiro no banco… Mas ele disse que não era aquilo que ele queria. Quando eu levantei pra tirar o shorts, não pensei duas vezes e saí correndo.”

O agressor de Débora acabou preso porque bateu com a moto em um carro ao persegui-la. A advogada levou o caso à polícia logo em seguida – e foi graças a isso que uma mulher estuprada pelo mesmo homem, horas antes, conseguiu identificá-lo.

“- Você registrou a queixa?
– Fui na hora para a delagacia. Me disseram: ‘Você pode ir amanhã’, eu disse: ‘De jeito nenhum’. E aí descobri que na terça-feira de manhã uma menina que tinha sido vítima dele, no dia anterior, às duas da tarde – ele a estuprou, e às 9 da noite ele me atacou. Mas ela não teve coragem de ir na delegacia. Quando foi no dia seguinte e contou toda a história, disseram que havia um caso muito parecido. Se eu não tivesse denunciado, ela provavelmente não teria achado o autor do estupro dela.”

Dos mais de meio milhão de vítimas de estupros por ano no Brasil, pela pesquisa mais recente do Ipea, quase 90% são mulheres e 70% são crianças e adolescentes. Em geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados, amigos e conhecidos da vítima, o que revela que o principal inimigo está dentro de casa.

Por Janaina Garcia

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