Cursos de capacitação ajudam vítimas de violência doméstica a se reinserirem na sociedade (Gov/DF – 26/09/2016)

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A emancipação econômica é um dos fatores mais importantes na recuperação delas. Em Ceilândia, cerca de 40 mulheres fazem os cursos de recepcionista e massagista

Chegar em casa pode ser uma tortura. É o caso para as mulheres vítimas de violência doméstica. Em Brasília, foram 37 ocorrências do crime por dia, em média, neste ano. Só de janeiro a julho, a Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social registrou 7.989 denúncias, um número menor do que no mesmo período de 2015 (8.041), mas que demanda um trabalho conjunto de vários órgãos do governo de Brasília com a sociedade para ser cada vez mais combatido. Uma das formas mais eficazes de enfrentar o problema é fazer o acompanhamento das vítimas para que superem o trauma e prepará-las para o mercado de trabalho.

Uma das formas mais eficazes de enfrentar o problema é fazer o acompanhamento das vítimas para que superem o trauma e prepará-las para o mercado de trabalho. Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília

Uma das formas mais eficazes de enfrentar o problema é fazer o acompanhamento das vítimas para que superem o trauma e prepará-las para o mercado de trabalho. Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília

Das 31 regiões administrativas do Distrito Federal, Ceilândia é a que teve mais ocorrências nos sete primeiros meses do ano: 1.350. Dos 12 casos de feminicídio no período, a região registrou dois. Por isso, é um dos focos de ação do governo com relação à violência doméstica. No Centro de Atendimento à Mulher de Ceilândia, cerca de 40 mulheres fazem cursos de recepcionista e de massagista. As aulas são oferecidas pela Secretaria de Educação em parceria com o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), do Ministério da Educação, e ofertadas pela Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos.

casos_de_violencia_domestica_agencia_brasiliaA assistente social da equipe multidisciplinar da Secretaria da Educação Jackeline Pedrosa explica que o objetivo é preparar as mulheres para o mercado de trabalho para que não precisem depender financeiramente de um companheiro. “É feita uma sensibilização com os professores para trabalhar com as mulheres em situação de vulnerabilidade.”

Essa é a primeira turma no Ceam de Ceilândia, que, em outubro, deverá ter mais vagas para os cursos de cuidador de idoso e de assistência administrativa. Para a coordenadora do centro, Erika Laurindo, as aulas tiveram boa aceitação entre as mulheres na região administrativa.

Ela conta que há preferência para vítimas de violência, mas que mulheres sem o histórico de agressão também podem participar. “Queremos evitar a violência com o acesso à renda e também com o viés de prevenção.” De acordo com ela, houve lista de espera para se inscrever nessas primeiras turmas dos cursos. “Elas entram aqui sem perspectiva, e as aulas as estimulam a continuar estudando.”

Os cursos também são fornecidos na Casa da Mulher Brasileira de Brasília e na Fábrica Social. São 24 professores que dão aulas de português, matemática, ética, informática, além das disciplinas específicas. Segundo Jackeline, os professores também orientam as alunas de acordo com as necessidades. “É feito o acompanhamento a programas como Brasil Alfabetizado e de educação para jovens e adultos (EJA).”

Quando o ‘lar doce lar’ é amargo
Esse é caso de Iracema Gomes da Silva, de 48 anos, que pretende voltar ao ensino médio após ter feito o curso de recepcionista no Ceam de Ceilândia. Ela é moradora do Sol Nascente e conta que sofria violência verbal do marido. “Ele dizia que eu não ia conseguir nada, mas era para que eu não fosse atrás. Ele só queria roupa limpa e comida pronta.”

Antes de se casar, Iracema foi campeã em uma maratona de 6 quilômetros. Depois do casamento, foi proibida de praticar qualquer tipo de esporte. Ela tem quatro filhos.

Eunice Rodrigues, de 52 anos, também sofreu muito tempo com ameaças do companheiro. Por 21 anos, não podia sair de casa, apenas se fosse acompanhada do ex-marido. Em fevereiro deste ano, ela teria o desobedecido e visitado a filha. O descumprimento da ordem deu origem a ameaças de morte. Foi então que decidiu procurar ajuda em uma delegacia e acabou encaminhada à Subsecretaria de Proteção às Vítimas de Violência (Pró-vítima).

Por causa das restrições, Eunice nunca trabalhou, não tem experiência no mercado de trabalho nem carteira assinada ou contribuição para a aposentadoria. Ela mora no Sol Nascente, e, após se livrar da sombra do marido, passou a fazer crochês e divulgar o produto em uma página no Facebook chamada “Divas do crochê”. O curso profissionalizante de recepcionista no Ceam foi indicado pelo Pró-Vítima. “O mais difícil é se manter financeiramente. Sentia-me inútil e agora quero começar a trabalhar.”

Outra história de violência doméstica que levou uma mulher a procurar os cursos do Ceam é a de Alice (nome fictício), de 41 anos. Não foi por imposição que ela deixou de trabalhar. O ex-marido ganhava o suficiente para manter a família de três filhos. Ele trabalha como segurança, o que o permite ter porte de arma. Segundo Alice, as ameaças eram rotineiras, e a dependência financeira servia como chantagem. “Eu vivia às custas dele e hoje procuro me emancipar.”

Mulheres na Casa Abrigo recebem oficinas
Outro local em Brasília que capacita mulheres para o mercado é a Casa Abrigo, um local sigiloso que acolhe vítimas de violência sob grave risco de vida. Duas vezes por semana, ocorrem oficinas com o objetivo de capacitá-las, como de bordado, bijuteria e leitura. No local, também existe uma horta que elas cuidam.

Até agosto, havia 38 pessoas abrigadas na casa. As vítimas de violência podem levar os filhos, desde que os meninos tenham até 12 anos. Atendimentos jurídico, pedagógico, psicológico e de serviço social também são oferecidos a essas mulheres. O ideal é que uma vítima fique até 3 meses no ambiente, mas, a depender do caso, o tempo pode ser estendido.

Doações de roupas, brinquedos e de produtos para higiene para a Casa Abrigo podem ser feitas na Casa da Mulher Brasileira de Brasília, na quadra 601 do Setor de Grandes Áreas Norte. O horário de funcionamento é das 8 às 22 horas, de segunda a sexta-feira, e das 8 às 20 horas aos sábados e domingos.

Maioria das vítimas de violência doméstica tem de 18 a 30 anos
A Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social faz um levantamento semestral sobre os casos de violência doméstica no DF. De janeiro a julho de 2016, foram identificadas 9.471 vítimas, sendo que em 90% dos casos são mulheres. Delas, 552 já haviam sido agredidas antes. A violência se concentra principalmente em pessoas de 18 a 30 anos. Nessa faixa etária, são 3.516 vítimas.

A secretaria identificou 8.789 autores da violência – há casos de a mesma pessoa agredir mais de uma vítima. Deles, 90% são homens e 566 são reincidentes. A principal faixa etária é de 25 a 35 anos (3.182 agressores).

As regiões administrativas com mais casos são Ceilândia, Planaltina, Samambaia, Gama, Taguatinga, Plano Piloto, Recanto das Emas, Santa Maria, Sobradinho e Guará. As localidades concentram 67% das 7.989 ocorrências registradas pela secretaria.

Onde denunciar violência doméstica
As denúncias podem ser feitas nas delegacias do Distrito Federal. Na 204/205 Sul, há a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam). Denúncias também podem ser feitas nas Centrais de Atendimento à Mulher e ao discar o número 180, que é o telefone do Centro de Atendimento à Mulher.

Casos de violência doméstica em Brasília em 2016

Jade Abreu, da Agência Brasília

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