Da vingança ao arrependimento: um dia em um grupo de reflexão para acusados de violência doméstica (R7 – 08/08/2016)

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R7 acompanhou reunião em São Paulo que ocorre desde a promulgação da Lei Maria da Penha

Pouco antes de revelar que gostaria de se vingar da promotora que o denunciou por violência doméstica, um dos integrantes do grupo de reflexão para homens acusados de agressão contra mulheres afirma: “Essa sociedade para mim já foi, já era. É hipócrita. Aqui estou aprendendo alguma coisa, mas não sei de que isso adianta. A sociedade não muda. Quando volto para o trabalho, é tudo igual.”

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Assim teve início um dos momentos mais tensos da reunião do grupo de reflexão da última segunda-feira (1º), que acompanhei, identificando-me como repórter do R7 e tendo recebido a autorização da equipe de psicólogos e dos participantes.

Impulsionado pela Lei Maria da Penha, que prevê acompanhamento do tipo para agressores, o grupo Masculinidades foi criado há dez anos em São Caetano do Sul e funciona hoje na capital paulista como um braço do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. Como toda semana, o encontro está marcado para as 18h. Cerca de 20 minutos antes, os primeiros suspeitos de agressão começam a chegar ao local: uma sala nos fundos de uma discreta casa em Pinheiros, zona oeste da capital paulista. O lugar não é muito grande — tem algo entre 20 e 30 metros quadrados —, mas é suficiente para acomodar a todos.

‘Esmurrei uma pessoa’

O grupo é composto por cinco psicólogos (um deles, na verdade, é ainda estudante de psicologia: fez estágio no grupo e, faltando pouco tempo para se formar, decidiu seguir atuando) e 20 acusados de violência doméstica.

Entre os acusados, alguns admitem terem sido autores da agressão. Outros negam. O participante mais exaltado, que se referiu à hipocrisia da sociedade e externou um certo desejo de vingança, é um dos que afirma ser injustiçado. “Eu não fiz nada. Virei de costas e fui embora. Dias depois, ela [a vítima] apareceu machucada na delegacia.”

Forte, ele contesta o fato de o laudo de sua mulher ter apontado lesão corporal leve. “Acham que, se fosse eu o agressor, seria uma lesão corporal leve? Absurdo! Seria grave, gravíssima.” Um dos participantes mais calados, porém, o questiona: “Você sabe mesmo a diferença entre lesão corporal leve, grave e gravíssima?” E prossegue: “Eu, por exemplo, esmurrei uma pessoa. E o laudo apontou lesão corporal leve.”

Mega-audiência

Os participantes conhecem o grupo, via de regra, por meio da Justiça. De três em três meses, a juíza Elaine Cristina Cavalcante, do Foro Central Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, na Barra Funda, convoca uma audiência com homens que foram de alguma forma acusados de agressão. Ela apresenta o grupo e, em seguida, os psicólogos que organizam o círculo também falam.

Apesar de não durar mais de uma hora, a audiência convocada pela juíza é chamada de “mega-audiência”. O superlativo refere-se ao total de homens convocados: cerca de 100. No final, os interessados em participar dos encontros se alistam. Não há nenhuma garantia de que a participação reduzirá suas penas em caso de condenação. Muitos deles, porém, ainda estão na fase inicial do processo. E têm esperança de serem inocentados.

Os homens que manifestam desejo de participar do grupo formam um conjunto bastante heterogêneo. Há suspeitos de agressão verbal, de ameaça e de agressão física. Há gente mais abastada e gente mais simples. As profissões também são muitas. Um dos participantes, por exemplo, chegou a me perguntar se conhecia uma antiga funcionária da Record. Ele também é jornalista e ela era sua amiga.

Grupo lotado

Atualmente já com 20 inscritos, o grupo tem lista de espera. Nem sempre, no entanto, todos comparecem. Nesta última segunda-feira, além de mim e da equipe de psicólogos, chegaram a estar na sala 11 pessoas.

O processo de reflexão dura 16 sessões — ou quatro meses. Assim, quem falta em uma reunião, participa de um encontro a mais no final. Os que se ausentam em duas, comparecem em mais duas após os quatro meses. E assim por diante. Com isso, os novos vão entrando aos poucos no grupo, conforme os antigos vão saindo. Leandro Feitosa Andrade, fundador do círculo, diz que isso ajuda. “Os mais velhos acolhem quem entra”, diz.

Mesa no centro?

Antes de a reunião começar, José Luiz Querido, um dos psicólogos mais experientes, pergunta o que fazer com a grande mesa retangular que está no centro da sala. Ao redor dela, há cerca de dez cadeiras de escritório e outras tantas encostadas em uma das paredes. Em um canto, há ainda banquinhos de plástico empilhados. Próximo a eles, um ventilador de pé e um bebedouro de galão. Mais nada.

Com exceção da mesa, a sala parece perfeita para o encontro. Após um curto debate, o grupo decide encostá-la ao fundo, para que ela não atrapalhe o círculo. “Precisamos dar um jeito de tirar essa mesa daqui definitivamente”, diz José Luiz.

No início, um texto

Às 18h10, há sete participantes na sala. A reunião começa como de costume: Mateus Amaral, um dos psicólogos da equipe, lê um texto. Por vezes, o texto é substituído por um vídeo. No semestre passado, por exemplo, as imagens do homem que invadiu o Fórum do Butantã e ameaçou atear fogo em uma juíza deu início há um debate.

O formato não importa muito. O fundamental é que seja um tema atual. Antes do vídeo da invasão ao fórum, o grupo debateu o estupro coletivo ocorrido no Morro da Barão, no Rio. Na reunião acompanhada pelo R7, Mateus lê um texto que andou circulando recentemente por redes sociais. O título: “Eu não ajudo a minha mulher, nós somos sócios!”

Tarefas domésticas

A tese central do texto é que o homem não deve considerar sua participação nas tarefas domésticas como uma ajuda à mulher, mas como algo que ele deve assumir. Ao fim da leitura, o primeiro a falar é um dos participantes, o mais extrovertido deles: “É por aí mesmo. É uma parceria.” Mateus, que acabou de ler o texto, tenta tornar a discussão mais concreta: “Mas como é na casa de vocês?”

“Para mim, não há problema”, responde outro participante. “Mas acho que quem não está trabalhando que deve cuidar da casa.” Um terceiro cita a empregada: o primeiro a falar, o mais extrovertido, retoma então a palavra e cita o irmão, que mora com a mãe doente. “Ele não faz nada.” Um dos participantes, até então quieto, em um canto da sala, próximo da mesa, define: “É obrigação. Trabalhar em casa é obrigação.”

José Luiz, então, afirma que a ideia de que é a mulher é responsável pela casa é fruto de uma formação mais antiga. O grupo volta-se para Davi Miranda, o mais novo da equipe de psicólogos. “Agora minha mãe está me cobrando mais para que eu arrume o quarto”, diz ele, admitindo que não limpa o banheiro.

O trabalho dos presos

A conversa então tem um desvio repentino. “É como na cadeia”, diz um dos participantes. “O preso também tem que trabalhar.” O mais extrovertido, então, conta sua experiência na cadeia. Critica o ócio. Mas é cortado por outro participante, que veste uma camisa do Corinthians: “Mas pensar em trabalho forçado também está errado.”

Aos poucos, outros participantes vão chegando. Um homem de terno chega e senta. É um advogado que participa do grupo. A discussão esquenta. Começa-se a discutir a redução da maioridade penal. Mateus, o integrante da equipe que leu o texto, levanta a questão do estigma que sofrem os presos e infratores menores de idade.

A referência à forma pejorativa como a sociedade julga presidiários e infratores parece zangar o participante que deu início ao momento mais tenso da reunião. “Essa sociedade para mim já foi, já era.”

O início da tensão

Ele, o mais exaltado, afirma então participar do grupo por obrigação. “Aqui estou aprendendo alguma coisa, mas não sei de que isso adianta. A sociedade não muda.”

Quem primeiro tenta contornar a situação não é um dos psicólogos, mas outro participante. “Aqui você não vê ninguém melhorando?”, pergunta o corintiano. “Eu não estou me ressocializando, não quero me reintegrar a essa sociedade”, responde o homem que havia levantado a questão.

“E você então tem alguma sugestão para melhorar a sociedade”, questiona José Luiz. “Não sei”, responde, mais calmo, o participante que havia se enervado. “Nos lugares onde andei, nunca encontrei uma sociedade boa.” Ele hesita. “Talvez inserir o estudo na cadeia seja um jeito de melhorar.”

“Mas o Estado não dá estudo, não dá nada”, diz outro. “E isso é injusto.” O clima segue tenso. Leandro concorda com o participante: “A pena é a privação de liberdade. Qualquer coisa além disso, não está na pena. E é visto por quem está preso como injustiça.”

O desejo de vingança

“Eu fiquei uma semana preso”, volta a falar o mais extrovertido. “Se permanecesse lá mais uma semana, ficaria louco. Imagino a reação dele se fosse para cadeia”, diz, apontando para o participante mais exaltado. “Ah, eu viraria a cadeia. Pendurava todo mundo e tacava fogo”, diz.

Por dois ou três segundos, o silêncio toma a sala. O exaltado fala então em vingar-se de quem o denunciou. Fala em memorizar o nome das autoridades envolvidas. E volta a dizer que, apesar de aprender alguma coisa, está no grupo apenas por obrigação. “Que coisa você aprende?”, pergunta Mateus. A resposta é imediata: “Que outras pessoas também têm problemas.”

“É que essa coisa de bater em mulher vem de anos”, fala um participante que estava quieto até então. “Não é culpa só nossa. E cadeia não resolve.” Ele revela: “A gente também sofre com isso. Quando aconteceu comigo, eu tinha tomado todas e nem lembrava. Quando vi as fotos dela, de como ela tinha se machucado, fiquei muito mal.”

O corintiano volta-se, então, novamente para o mais exaltado. “Sua raiva contra a promotora não faz sentido. A função dela é essa: acusar”. Ele olha rapidamente para o advogado, buscando aprovação. E prossegue: “Ela faz parte de um sistema. Não é ela que está errada. É o sistema todo.”

Sem desfecho

Não há exatamente um desfecho para o debate. A conversa segue. Por ao menos mais uma vez, o mais exaltado volta a externar sua angústia. Quase no fim do encontro, um último participante chega. Diz ter acabado de sair de uma audiência. Os participantes querem saber sobre o que o juiz perguntou a ele.

Às 20h15, já passado o horário previsto para a reunião acabar, o grupo ainda está na sala. Segue conversando. No final, Leandro pede ao repórter do R7 que se manifeste. Volto a me apresentar, pois alguns participantes que chegaram durante a sessão não sabiam exatamente o que eu fazia ali, quieto e escrevendo exaustivamente. Peço autorização para descrever o que se passou na reunião.

Antes de me autorizarem, querem saber o que eu achei. Digo que considerei muito pertinente a discussão a respeito de ajudar a mulher. E tento responder a uma questão posta por Leandro pouco antes que havia ficado sem resposta: o que havia feito a conversa se desviar gradativamente ao longo do encontro? Procuro em minhas anotações e digo que a mudança de tema parece ter ocorrido a partir do debate a respeito do trabalho de presos. “E você vai escrever isso?”, pergunta o advogado. “Sim”, respondo.

Ele e os outros, então, concordam com a publicação da reportagem.

Alvaro Magalhães, do R7*

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