Defensora pública de Mato Grosso: educação pode reduzir violência contra mulher (Mídia News – 15/07/2018)

Em Mato Grosso 38 mulheres já foram mortas nos primeiros meses deste ano, segundo a Sesp

Coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher em Mato Grosso, a defensora pública Rosana Leite Antunes de Barros defende a adoção de políticas públicas voltadas para educação como medida para reduzir a violência contra mulher.

Segundo dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp-MT), 38 mulheres foram assassinadas no Estado nos cinco primeiros meses deste ano.

Comparado com o mesmo período do ano passado, houve um aumento de cerca de 10%. Dentre os homicídios, 60% deles teve motivação passional.

“O aumento do crime é uma realidade. A Lei Maria da Penha traz no artigo 8º, sobre políticas públicas importantes, a inclusão nos currículos escolares do estudo da não violência contra mulher. Seria importante que esse estudo fosse aplicado como matéria, pois os filhos acabariam trazendo esse aprendizado para os pais e teríamos uma geração diferente”, explicou defensora.

Em Mato Grosso, nenhum dos 141 municípios tem escola que oferece esse tipo de ensino.

“As gerações futuras são as que podem mudar esses números a favor das mulheres. Trabalhar as crianças e os adolescentes, a meu ver, é a única maneira de mudar esse quadro”, disse.

O Brasil ainda é uma sociedade machista, em que muitas famílias criam os filhos, de certa forma, menosprezando e ensinando que a mulher é inferior ao homem. Outro dado apontado por Rosana Leite é o fato de que em sua maioria os futuros agressores sofreram algum tipo de violência na infância ou até mesmo presenciaram episódios no âmbito familiar.

“Temos que ter muito cuidado com o que ensinamos aos nossos filhos e ao que eles são expostos na infância, pois eles acabam repetindo futuramente tudo isso”, completou.

Sinais de relacionamento abusivo 

Segundo a defensora, quando as mulheres entram em um relacionamento, muitas vezes não conseguem identificar um comportamento abusivo dos seus companheiros. A defensora explica que o amor pode confundir abuso com zelo.

“A mulher tem essa possibilidade de diagnosticar um relacionamento abusivo desde o início. Quando o homem apresenta comportamento agressivo, força o sexo, coloca a mulher para baixo, desrespeita outras mulheres e manipula são alguns sinais de que você está dentro de um relacionamento abusivo”, explicou.

Segundo Rosana, os casos de agressão que muitas vezes levam à morte nunca acontecem na primeira briga, mas eles precedem de crimes menores.

“Geralmente a morte das mulheres precedem de crimes menores, como ameaças, lesões corporais, empurrões, xingamentos, constrangimentos e até mesmo um ciúme excessivo. E isso tudo são características visíveis de um relacionamento abusivo”, afirmou.

A defensora ainda lembra que os familiares têm um papel importante na identificação desses casos.

“Hoje em dia segredo de casa não é só barata que conhece. Os familiares e amigos podem ajudar essa mulher. É importantíssimo que os familiares estejam presentes quando a mulher decide se separar até para evitar novas agressões do parceiro”, completou.

Casos de repercussão

Entre os casos que mais chamaram a atenção na Capital este ano está o da grávida Viviane da Silva Ângelo, de 18 anos, cujo corpo foi encontrado na região da Ponte de Ferro, no dia 18 de fevereiro.

Ela estava no 7º mês de gestação e o crime teria sido cometido pelo ex-namorado, segundo a Polícia Civil. Ele está preso.

Outro crime de repercussão foi o assassinato da jovem Vanessa Tito Poquiviqui Ramos, de 21 anos, encontrada morta dentro de casa, no Bairro Três Barras, no dia 31 de janeiro.

O suspeito do feminicídio seria o companheiro da vítima. No dia do crime ele chegou até a gravar um vídeo de Vanessa agonizando antes de morrer.

Em Várzea Grande, uma das vítimas foi Célia Cristina Ferreira, de 41 anos, assassinada pelo marido, um servidor público que não aceitava a separação. Ele se matou após cometer o crime na casa da família.

“O ano de 2018 está sendo sangrento para as mulher. Eu já estou assustada com os casos. Alguns são com requintes de crueldade e bárbaros, chocam toda a população”, destacou Rosana Leite.

Motivações

Conforme dados da Secretaria de Segurança, 60% dos casos de homicídio contra mulheres no Estado foram classificados como motivação passional.

Uma pesquisa realizada pela Secretaria Nacional de Polícia para as Mulheres de 2015 aponta as principais motivações para os crimes de feminicídio no Brasil.

“Um apanhado foi feito dos casos registrados no País e o que ficou em primeiro lugar foi o não aceitamento do término do relacionamento. Em segundo lugar a quebra da virilidade masculina, ou seja, se a mulher traiu, ela tem que morrer pois o homem ainda acha que deve lavar a honra com sangue. E em terceiro lugar, a quebra da expectativa do ser mulher. É chegar em casa e a janta não estar pronta, a casa não estar limpa…”, declarou defensora.

Alair Ribeiro

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