Delegacia da Mulher de Sorocaba/SP registra mais de 900 casos de violência doméstica este ano (Jornal Cruzeiro do Sul – 03/11/2018)

No total dos casos que se enquadram na Lei Maria da Penha, neste ano foram distribuídos 714 inquéritos

Entre janeiro e setembro deste ano foram registrados 904 boletins de ocorrência de violência doméstica na Delegacia da Mulher de Sorocaba (DDM). Esse número, segundo a delegada titular Ana Luiza Job de Carvalho Salomone, é inferior ao total registrado na cidade, pois os crimes cometidos aos finais de semana e após às 18h de segunda a sexta são registrados nos demais plantões policiais. Sobre o projeto “A Marca na Rosa”, a delegada destaca a necessidade que abordar o assunto com as adolescentes, pois é justamente quando são iniciadas as relações.

Ana Luiza conta que há casos de mulheres com menos de 18 anos que procuram a DDM, mas são raros. “É preferível que uma menina, ao denunciar, faça o boletim acompanhada de um responsável legal e muitas vezes a jovem acaba não se abrindo com os pais e por isso não registra a ocorrência”, explica. Entre os boletins contabilizados nos nove primeiros meses deste ano há lesão corporal, ameaça, violência sexual, entre outros.

Na Vara do Juizado Especial Criminal (Jecrim) e da Violência Doméstica e Familiar contra Mulher de Sorocaba, também não há dados específicos sobre vítimas adolescentes. No total dos casos que se enquadram na Lei Maria da Penha, neste ano foram distribuídos 714 inquéritos e desses, 298 também tiveram concessão de medida protetiva. Para solicitar a medida protetiva, a vítima deve fazer essa solicitação primeiramente ao delegado, no momento do registro da ocorrência. Dessa forma o pedido chega ao Fórum e no dia seguinte já é realizada audiência para definir se a medida protetiva será ou não concedida, se baseando no risco que a vítima corre.

Botão do Pânico

Uma das ferramentas existentes em Sorocaba para garantir o cumprimento da medida protetiva é o Botão do Pânico e segundo a Secretaria de Igualdade e Assistência Social (Sias), entre fevereiro e setembro foram registrados 50 atendimentos às vítimas que acionaram a ferramenta. Até o momento, 142 mulheres estão cadastradas no aplicativo. Toda sorocabana que obter uma medida protetiva pelo poder judiciário terá o direito de se cadastrar gratuitamente.

Cerem atendeu 383 vítimas neste ano

No Centro de Referência da Mulher (Cerem), que presta gratuitamente atendimento interdisciplinar especializado e contínuo às mulheres em vulnerabilidade, 42 jovens, com idade entre 14 e 24 anos, relataram serem vítimas de violência doméstica ao longo de 2018. A faixa etária que compreende mais vítimas é a de 25 a 39 anos, com 172 casos. De acordo com dados da Vigilância Social de Sorocaba, de janeiro até agora o Cerem recebeu 383 casos, gerando o total de 2.117 atendimentos, entre acompanhamento psicológico e de assistente social. No ano passado todo, 552 mulheres procuraram pelo serviço.

De acordo com Luciana More, chefe de seção de proteção especial da Secretaria de Igualdade e Assistência Social (Sisas), 40,72% das mulheres atendidas no Cerem são da região sul e leste de Sorocaba, 37,13% pertencem área de abrangência da zona norte e 22,15% à oeste. “Trabalhando diretamente com essas vítimas e como mãe, eu também posso falar que o trabalho de prevenção é essencial, mas infelizmente ainda há muito machismo impregnado na nossa sociedade e muitas mulheres não conseguem notar o risco que estão correndo em suas relações afetivas”, afirma.

Ainda conforme os dados da Vigilância Social, 34,9% das vítimas que procuram atendimento no Cerem relatam agressões psicológicas e 20,7% denunciam agressão física. Das mulheres atendidas, 23,4% também sofreram violência moral; 16,4% violência patrimonial e 4,7% foram vítimas de violência sexual. Luciana conta que é crescente o número de mulheres com mais de 50 anos que procuram ajuda. Neste ano foram 82. “Creio que essas vítimas agora se sentem mais seguras para pedir ajuda. Atendemos mulheres que vivem em relações violentas por muitos anos”, relata.

Já o agressor, segundo os dados, em 36,4% dos casos é desempregado e com ensino médio completo (25,1%); 14,7% dos homens denunciados possuem ensino técnico ou superior. “A violência doméstica pode acontecer dentro dos lares menos prováveis e classe social não isenta ninguém”, afirma Luciana. Em 52,1% dos casos, o agressor é o ex-marido ou ex-namorado. 25,4% das vítimas que buscaram ajuda ainda estão casadas com o agressor. Do total de casos, 13,9% são de filhos que agridem as mães. Irmãos, pais ou outros familiares somam 5,4% do total de registros.

Projeto ‘A Marca da Rosa’ nasce de um relacionamento abusivo

O que já foi dor e insegurança, hoje é força para falar sem medo sobre um problema recorrente, que não escolhe cor, classe social ou idade: a violência doméstica. Com 17 anos, a estudante Maria* é autora do projeto “A Marca na Rosa”, que vai, através de fotos, música e dança, debater relacionamentos abusivos. O lançamento da ação será no dia 6 de novembro (veja matéria na página 2). Com apoio de Ana Cristina de Miranda Reis Miragaia, da Coordenadoria da Mulher da Secretaria da Cidadania e Participação Popular, também serão promovidas rodas de conversa em 53 escolas com alunos do ensino médio e em outras nove escolas com alunos do 9º ano do ensino fundamental.

“Vivi um relacionamento, aos 16 anos, que não era saudável”, conta Maria, que namorou por sete meses até conseguir colocar um ponto final na relação. Controlar horários, roupas e até com quem conversa. Ações como essa, na adolescência, podem ser encaradas pelas jovens como cuidado e carinho, mas Maria relata que são esses os indícios de um sentimento de posse de um homem sobre a mulher. “Eu comecei a me sentir mal. Sentia que não era mais dona de mim e sim que pertencia a ele e aquilo era errado”, relembra.

Hoje, prestes a completar 18 anos, ela conta que o abuso chegou a ser físico e que não sabia a quem recorrer. “Desconhecia a rede de apoio existente em Sorocaba e acho que falta essa abordagem focada nas adolescentes, porque a violência, mesmo de forma sutil, começa nos namoros, muito cedo”, destaca. Maria conta que na época não registrou boletim de ocorrência contra o ex-companheiro, mas hoje faria isso. Em seu projeto, para conscientizar e ajudar as jovens a identificar esse tipo de relação, ela também informa, junto com profissionais da rede, a quem recorrer e como pedir ajuda.

Com apoio da mãe, uma coordenadora pedagógica de 38 anos, a estudante sentiu que falar sobre o assunto era o jeito mais eficaz de curar as feridas que essa experiência ruim lhe causou. “Eu quero que pela minha fala as meninas consigam, no momento mais difícil, quando estiverem se sentindo coagidas, identificar o problema e sair dele.” A mãe relembra que começou a notar a mudança de comportamento da filha após o início do namoro. “Ela sempre foi segura e independente e depois ficou mais passiva, submissa. Comecei a conversar bastante, mas nunca proibi nada, porque esse não é o caminho”, relata.

Embora Maria não falasse abertamente com Joana sobre as dificuldades que estava enfrentando, a mãe sentia o distanciamento. Após colocar fim ao relacionamento, a jovem começou a escrever poemas e dessa forma externou a dor que a relação havia causado. “Eu vi minha filha voltando. Senti que novamente ela era a menina forte e determinada que eu criei.” Sobre o projeto, a mãe conta que a iniciativa é motivo de muito orgulho, mas no início, embora tenha incentivado a filha, ficou temerosa com uma nova frustração. “Queria que ela andasse com as próprias pernas e agora, que tudo está se concretizando, o mérito é todo dela. Eu fico muito feliz pela coragem que ela teve e um orgulho enorme pela mulher que ela está se tornando”, conta.

Primeiro Maria, através do Instagram, relatou o que havia ocorrido com ela e depois de contar sobre os abusos muitas adolescentes a procuraram para falar de situações parecidas. “A gente fica muito fragilizada e não sabe com quem desabafar. Quando eu me abri, muitas meninas se identificaram. Mais de 30 garotas me procuraram para narrar problemas semelhantes ou até piores”, relembra.

Diante da repercussão, a estudante começou a imaginar como dar destaque ao tema com foco nas adolescentes e procurou ajuda na Coordenadoria da Mulher de Sorocaba. Ana Cristina, responsável pelo setor, conta que junto com Maria, projetou a ação e fez os contatos necessários para que “A Marca na Rosa” seja oficialmente inaugurada no dia 6 de novembro, com uma exposição de fotos e apresentações artísticas. A partir de março do ano que vem, Ana Cristina, junto com uma equipe da rede de apoio à mulher de Sorocaba, percorrerão escolas para abordar os relacionamentos abusivos.

* Maria é nome fictício. Como a jovem ainda não completou 18 anos, o Cruzeiro do Sul preservará sua identidade, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Prevenção é meta de ‘A Marca da Rosa’

A responsável pela Coordenadoria da Mulher de Sorocaba, Ana Cristina de Miranda Reis Miragaia, relembra que quando foi procurada por Maria*, estimulou a jovem a ampliar o projeto, que a princípio seria focado apenas nas redes sociais. “Eu quis levar para as escolas porque é justamente nesse ambiente que as relações amorosas começam e muitas vezes as meninas e os meninos, por não terem experiência, não sabem o que é um relacionamento saudável.”

Ana Cristina destaca que o principal objetivo do projeto “A Marca na Rosa” é a prevenção. “Sorocaba possui uma rede de proteção específica para mulheres vítimas de violência, mas pouco se faz para prevenir que os abusos ocorram. A gente só apaga incêndio, mas não evita que eles ocorram”, afirma. A coordenadora destaca que os alunos do ensino médio são o foco da ação por ser justamente na escola que as relações amorosas tendem a se iniciar. As escolas também possuem forte influência na construção de opiniões e falar aos meninos, aponta Ana Cristina, é extremamente necessário, pois muitas vezes a violência é naturalizada.

No dia 6 de novembro, próxima terça-feira, às 19h, no Barracão Cultural, conta Ana Cristina, será lançado oficialmente uma exposição de fotos com adolescentes chamando atenção para as consequências de relacionamentos abusivos. A mostra ocorrerá até janeiro do ano que vem, de forma itinerante.

Do dia 7 a 20 de novembro as fotos ficarão expostas no Shopping Pátio Cianê, no Centro de Sorocaba. Entre os dias 27 e 30 do mesmo mês as imagens poderão ser apreciadas no Pátio do Paço Municipal, no Alto da Boa Vista. Já no mês de dezembro, a Fundec recebe o projeto, dos dias 3 a 14. Em dois domingos de dezembro, nos dias 16 e 23, as fotos ficarão expostas no Parque Carlos Alberto de Souza, no Campolim. Por fim, entre os dias 2 a 11 de janeiro, a Biblioteca Municipal sediará a exposição. Ana Cristina conta que a agenda do projeto ainda não está fechada e novos locais podem entrar na programação do projeto itinerante.

Nas escolas o trabalho será iniciado em março do ano que vem e já no início do ano letivo será realizada uma formação para os professores mediadores de cada unidade educacional. Além das rodas de conversa, dias antes do evento será disponibilizada uma “caixa de segredos”, que ficará em um local acessível aos alunos. “De forma anônima, eles poderão falar sobre suas relações nessa caixa e eu poderei ler esses bilhetes antes do encontro”, conta Ana Cristina. Os debates nas escolas estão programados ao longo do ano que vem e podem ser ampliados.

Por Larissa Pessoa

* Maria é nome fictício. Como a jovem ainda não completou 18 anos, o Cruzeiro do Sul preservará sua identidade, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

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