Delegacias da Mulher no Piauí realizaram quase 6 mil atendimentos em um ano e meio (Portal O Dia – 24/07/2017)

Em Teresina, mulher tem quatro vezes mais chances de sofrer violência doméstica do que no trânsito.

Representantes de órgãos públicos e de entidades voltadas para o combate à violência de gênero reuniram-se na manhã desta segunda-feira (24) no Palácio de Karnak para tratar sobre a rearticulação da Câmara Técnica Estadual de Monitoramento do Pacto de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres.

Durante o encontro foram divulgados dados preocupantes sobre esse tipo de crime, mas que devem contribuir para melhorar as ações de enfrentamento ao problema. 

No ano de 2016 e neste primeiro semestre de 2017 foram realizados quase 6 mil atendimentos nas delegacias especializadas da capital. O montante equivale a uma média superior a dez atendimentos por dia. 

A Delegacia da Mulher situada na zona norte foi a que realizou mais atendimentos – 30% do total. Logo em seguida aparece a da zona sudeste, com 29% dos atendimentos. A delegacia do centro de Teresina realizou 27% dos atendimentos, enquanto a da zona sul fez 14%.

Os números foram expostos pelo delegado João Marcelo Brasileiro, que é coordenador do Núcleo Central de Estatística e Análise Criminal (Nuceac) da Secretaria de Segurança Pública do Piauí (SSP-PI).

A faixa etária dos 30 aos 34 anos reúne o maior número de mulheres vítimas de violência, correspondendo a 21% do total. E o domingo à noite é o período em que acontecem mais registros de ocorrências nas delegacias especializadas, chegando a 9%.

O domingo também é o dia da semana em que são registrados mais crimes contra a mulher, chegando a 21,1% do total. E é no turno da noite que as vítimas mais procuram ajuda nas delegacias, totalizando 36% dos atendimentos.

Os bairros Itararé (zona sudeste), Angelim (zona sul) e Santa Maria da Codipi (zona norte) são os que concentram mais casos de violência contra a mulher.

Segundo o delegado João Marcelo, o risco de uma mulher ser agredida em Teresina é quatro vezes maior que o risco de uma mulher sofrer um acidente de trânsito. A Secretaria de Segurança chegou a esta conclusão a partir do cruzamento de dados das Delegacias da Mulher e da Delegacia de Repressão aos Crimes de Trânsito.

Articulada pela Coordenadoria Estadual de Políticas para Mulheres, a reunião realizada nesta segunda-feira contou com a presença da delegada Eugênia Villa, diretora de Gestão Interna da SSP-PI, e de gestores de diversos órgãos estaduais envolvidos diretamente na rede de proteção à mulher.

“A intersetorialidade diz respeito à promoção do diálogo entre as instituições. Não é possível deixar de traçar políticas de forma integrada, porque a segurança pública é o final da reta, ou seja, ela sempre é acionada quando outras políticas públicas não funcionaram […] A mulher vítima procura a Polícia, o Ministério Público e a Justiça, mas é preciso visualizar quais são as causas dessa violência, porque em muitos casos a Polícia só toma conhecimento das agressões quando a mulher já está morta. É preciso entender o percurso dessa morte, o que não foi proporcionado a essa mulher e por que ela foi assassinada”, afirma Eugênia.

Ouvir as vítimas pode ajudar a coibir novos crimes, defende delegada

A delegada acredita que um dos caminhos para combater o problema é reforçar o diálogo com as vítimas, o que deve permitir que a Polícia entenda a “dinâmica” da violência de gênero, e, desta forma, consiga evitar novos feminicídios. “Eu e a delegada Anamelka Cadena estamos acompanhando, por exemplo, as investigações do caso de uma moça que sobreviveu a um ataque e o agressor ceifou a própria vida, acreditando que ela já estivesse morta. Nós ouvimos a sobrevivente para que ela nos ajude a entender o que pode ser feito para prevenir o assassinato de outras mulheres. É preciso entender essa dinâmica. Por isso, mesmo nesse caso em que o agressor se matou nós não vamos cessar nossa investigação. Se na Justiça o caso será arquivado, para nós da Polícia ele só começou”, acrescenta a diretora de Gestão Interna da SSP-PI.

A vice-governadora Margarete Coelho (PP), também presente à reunião, reforçou que a intenção do Governo do Estado é reforçar as políticas voltadas para fortalecimento da rede de proteção às mulheres e ao público LGBT. “A mulher ainda está muito submetida à violência doméstica. Os dados que foram apresentados aqui [no Karnak] são chocantes. Sobretudo esse dado de que as mulheres estão mais sujeitas a sofrer violência em casa do que no trânsito”, opina.

Casos de violência psicológica estão vindo à tona, diz Margarete

Segundo Margarete, uma boa notícia é que a população tem utilizado com bastante frequência o aplicativo “Salve Maria”, destinado a realizar denúncias de casos de violências contra mulheres e crianças. 

A vice-governadora afirma que o aplicativo tem possibilitado ao poder público tomar conhecimento não apenas dos casos de abuso sexual ou de agressões físicas, mas também dos casos de violência psicológica, que são muito comuns, apesar de serem mais dificilmente percebidos pela sociedade.

Lançado em março deste ano pela SSP, em parceria com a Agência de Tecnologia da Informação (ATI), o aplicativo “Salve Maria” já recebeu denúncias até de outros estados, o que, para a vice-governadora, comprova a eficácia da ferramenta tecnológica.

Uma das propostas defendidas por Margarete é fazer com que todos os distritos do Piauí possam oferecer um atendimento especializado às mulheres vítimas de violência. “Não seria possível instalar delegacias da Mulher nos 224 municípios piauienses e em todos os bairros de Teresina, até porque nem teríamos delegadas suficientes para titularizar essas delegacias. Nesse sentido, nós queremos que todas as delegacias sejam delegacias da Mulher. E podemos fazer isso treinando os serventuários para executar adequadamente o protocolo voltado para o atendimento a essas vítimas”, conclui a vice-governadora.

Cícero Portela e Ithyara Borges

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