Delegada da mulher fala sobre realidade da rede de proteção em Feira de Santana (Folha do Estado da Bahia – 06/03/2016)

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterEmail this to someone

A violência doméstica gera filhos traumatizados e homicídios. A gente não pode encarar isso como algo corriqueiro”

Há três anos à frente da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, a delegada Maria Clécia Vasconcelos acompanha de perto os casos de violência doméstica e familiar acometidas contra as mulheres feirenses. Em 2015 foram registradas mais de duas mil ocorrências nesse sentido e no início de 2016 esses números já são superiores a 400. Nessa entrevista exclusiva ao jornal FOLHA DO ESTADO, a delegada falou sobre a realidade da rede de proteção, sobre os dados e números da Delegacia apresentados durante a gestão dela e também argumentou sobre a incessante luta das mulheres por igualdade e respeito, se mostrando através do discurso ser uma representante feminista das causas de gênero na cidade.

A aliada das mulheres contra a violência  (Crédito: Mário Sepúlveda/FE)

A aliada das mulheres contra a violência (Crédito: Mário Sepúlveda/FE)

Jornal Folha do Estado – Delegada, com toda experiência e convivência próxima aos casos de violência contra as mulheres, como a Senhora avalia a realidade da rede de proteção e políticas públicas voltadas para a defesa do sexo feminino em Feira de Santana?

Maria Clécia Vasconcelos – Diferente do que ocorre na maioria das cidades do país, em Feira essa rede é ampla e realmente funciona, o exemplo disso é que nós contamos com a delegacia especializada, temos uma Vara Judicial especializada, a defensoria pública é uma aliada, temos casa abrigo, temos centro de referência, então, a estrutura como preconiza a lei, aqui no município é atuante e realmente presente.

FE – A violência contra mulher é uma realidade em todo o mundo e muitos motivos inclusive culturais e sociais, são barreiras para um combate mais efetivo desses crimes. Em Feira de Santana quais as principais dificuldades encontradas?

MCV – Os maiores obstáculos ainda são a falta de plantão, que é um grande entrave na atuação da DEAM, porque durante os feriados e a noite pode dizer, que a rede dorme. Outro problema é a falta de notificação das unidades de saúde, ainda não estão imbuídos nesse objetivo, eles não se sentem ainda parte da rede e a ausência de notificações é uma prova disso. As mulheres que são agredidas e atendidas nos prontos socorros e postos de saúdes, nós não temos consciência disso, essa mulher devido à pressão, às ameaças e o medo ela não vai à delegacia denunciar, então, eu acredito que essas são as maiores dificuldades. E também tem a questão que não é só o olhar técnico, existe uma questão cultural, pois, pairam mitos como “mulher gosta de apanhar”, “Ela não quer que ele vá preso”, “Haa, a mulher mente”, sempre puxam para minimizar o problema que é de uma importância gritante, já que, gera filhos traumatizados, gera homicídios e a gente não pode encarar isso como algo corriqueiro, não podemos nos valer do ditado “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, isso já está em desuso, temos que meter a colher sim!

FE – Como fazer então para combater esse mal silencioso que amordaça as mulheres e incentivá-las a procurar as autoridades?

MCV – A mulher já está sentindo este incentivo, ela sabe que conta com o aparato estatal para protegê-la e por isso, o número de ocorrências é cada vez maior para proteger essa mulher, o melhor caminho é realmente denunciar, tanto que no nosso comparativo, o número de homicídios de mulheres, acometidos pelos ‘Amores’ de suas vidas, maridos, companheiros, amantes e namorados, essas mulheres mortas não denunciaram, não há aqui na cidade nenhuma mulher que tenha denunciado ter sido morta por violência familiar. Então, isso só reforça a importância da denúncia.

FE – Como podemos comparar de acordo com os dados divulgados pela DEAM, os números de ocorrências em casos de violência contra as mulheres têm diminuído, em 2014 foram 2.626 e no ano passado foram 2.613 casos. A que a Senhora atribui a baixa desses números?

MCV – A presença realmente e atuação da rede, se vocês observarem a medida, esse número de ocorrências começou a diminuir quando o número de flagrantes, de inquéritos registrados triplicaram e de inquéritos enviados também triplicaram. Então, a leitura do agressor é que está havendo uma reprimenda, que a rede, que a DEAM e a Polícia Civil, que todos estão atuando conjuntamente e aquela conduta antes consentida pela sociedade é realmente uma conduta criminosa. Porque o grande desafio do agressor é entender aquilo como crime, ele acha que é legitimá-lo a fazê-lo, por isso, quando ele vê que o presídio está cheio de homens que infringiram a famosa Lei Maria da Penha, ele pensa duas vezes antes de agir.

FE – Em contrapartida a essa baixa, podemos observar um aumento vertiginoso nos casos de estupros, em 2014 foram 43 e no ano passado foram 59 registrados. A Senhora acredita que esses números subiram porque as mulheres estão se sentindo mais seguras ou estão realmente acontecendo mais crimes desse tipo na cidade?

MCV – Estão ocorrendo mais estupros. Porque o indivíduo que sai para delinquir, praticar crimes contra o patrimônio, que vai a rua para assaltar, roubar bolsa das mulheres, roubar celulares e caso ele encontre a oportunidade, encontre ambientes propícios, ele também perpetua o delito de estupro, tanto é que nós conseguimos traçar o perfil já desses criminosos. Existem três indivíduos que tem o perfil e o intuito de cometer crime sexual, estuprar ou violentar mulheres, desses três, um foi preso essa semana, o outro já é réu confesso, tem prisão preventiva e está foragido e o outro está segregado no presídio. Então, é preocupante a medida que sabemos que a mulher ainda é vista como um objeto, como um alvo mais fácil, como uma vítima em potencial. É na verdade aquela questão de gênero, a mulher vista como coisa, aquela que eu quero e posso, é a violência em si.

FE – Como fazer para solucionar esse problema, para mudar essa visão da sociedade e acabar com esses crimes bárbaros?

MCV – Eu fico muito satisfeita com essa pergunta! Porque geralmente o que me questionam é, “Qual a dica que a senhora dá para a mulher não ser estuprada?” e isso não existe, não existe dica para a mulher não ser estuprada! Vamos reavaliar as condutas para que o homem não seja o estuprador, as condutas têm que ser revistas. Quando a gente fala do estuprador contumaz, do desvio da conduta em si, quem forma o homem é a mulher, a mãe que educa e essas condutas a família já vêm percebendo, vendo o problema de frente e muitas vezes se coloca um turbante para esconder, a prova disso é que quando a gente prende um estuprador, a família vem defendê-lo, a família não se sensibiliza, não para refletir, sempre acoberta, dizendo: “Estuprar não é como matar”, porém, o estupro é um dos crimes mais aviltantes, mais revoltantes contra a dignidade da mulher.

FE – Infelizmente as mulheres convivem diariamente com diversas injustiças e desrespeitos, como a Senhora na posição de mulher vê essa desigualdade tão latente em nossa sociedade?

MCV – A gente vê a violência contra mulher em todos os locais, acontece no trabalho o assédio, a mulher que tem a mesma carga horária do homem, mas ganha menos, a mulher é usada nos funks, nas músicas com sentido pejorativo e ela não sente que está sendo exposta como produto de consumo e isso incentiva a cultura machista. Tem mulher que volta a delegacia querendo retirar a queixa e nós não temos a sensibilidade de entender que ela está vindo retirar, porque ela está sendo mais uma vez pressionada, quando não pelo agressor, ela está sendo pressionada pela questão financeira, pelos filhos que acusam como responsável pela prisão do pai, pelos familiares que se posicionam de forma contrária, dizendo: “Mas ele é um homem tão bom, isso foi só porque ele bebeu” e infelizmente mais uma vez voltamos ao ponto inicial, “a mulher é sempre a culpada”.

FONTE: Da Redação

Acesse no site de origem: A aliada das mulheres contra a violência (Folha do Estado da Bahia – 06/03/2016)