Direitos da mulher em reduto masculino (TJPA – 18/08/2016)

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Palestra sobre o tema iniciou dia de trabalho em obra de construção civil

Logo cedo, antes de pegar no trabalho, cerca de 100 operários da obra do edifício Sunset Boulevard, na Doca de Souza Franco, no centro de Belém, se reuniram para ouvir a palestra do projeto piloto “Mãos à obra: trabalhadores no combate à violência contra a mulher”, ministrada por uma equipe do Tribunal de Justiça do Pará (TJPA), como parte da programação alusiva à 5ª etapa da campanha nacional “Paz Nossa Justa Causa”.

Acomodados em um auditório improvisado no prédio em construção, os operários – entre eles, oito mulheres – ouviram atentos a pedagoga Riane Freitas falar sobre o que exatamente pode configurar casos de violência doméstica e familiar e o que prevê a Lei Maria da Penha, que está completando 10 anos de vigência.

Servidoras do TJPA posam para foto com operários e a coordenadora do projeto Educar após a palestra (Foto: null / Ricardo Lima/TJPA)

Servidoras do TJPA posam para foto com operários e a coordenadora do projeto Educar após a palestra (Foto: null / Ricardo Lima/TJPA)

“Além da violência física, por exemplo, existe a violência moral, que machuca a mulher da mesma maneira, e se ocorrer no âmbito da família, pode ser punida com a Lei Maria da Penha”, explicou a pedagoga. Segundo ela, o principal objetivo do encontro com esses trabalhadores é envolvê-los como colaboradores e multiplicadores da cultura da paz e da conscientização sobre os direitos da mulher.

O público da construção civil, além de essencialmente masculino, também foi escolhido devido aos índices verificados nos boletins de ocorrência, sobretudo nos dias seguintes ao pagamento da quinzena, associado ao consumo de álcool. Riane observou que, às quartas-feiras, dias de jogos de futebol e de consumo de bebidas alcoólicas também cresce o número de ocorrências de violência contra a mulher. “O álcool está envolvido, mas não justifica a violência”, alertou a pedagoga, que conduziu a palestra ao lado da assistente social Isabela Peracchi.

Durante o evento, foram distribuídos exemplares da cartilha Viver Sem Violência, sobre a Lei Maria da Penha.

Uma das operárias, que também é dona de casa e mãe de dois filhos, admite que já teve problemas de violência em casa, mas a situação mudou depois que deu parte do marido. Ela e outras sete operárias trabalham na parte de acabamento da obra e garante que não há problemas de relacionamento com os colegas.

Para viabilizar as palestras nos canteiros de obras, o projeto contou com a a parceria e a intermediação do Sindicato das Indústrias da Construção do Estado do Pará (Sinduscon-Pará). O resultado da primeira experiência numa obra de construção civil foi bem avaliado. “Achei muito interessante porque ensina a gente a lidar com a mulher com o respeito e a dignidade que ela merece. A construção civil é um setor que tem muito machismo, mas, aos poucos, vamos transformar essa situação com atitudes como essa que estão trazendo aqui. O que precisa, fundamentalmente, é o diálogo para poder mudar essa situação”, avaliou o trabalhador Marcelo Ramos Alves.

Aos 58 anos e pai de oito filhos, Carlos Alberto Ferreira de Souza acredita que todos vão compartilhar com as companheiras e os filhos a experiência da palestra. “Uma palavra dessa é muito importante. Vivo há 32 anos com a minha mulher. Minha esposa é muito querida na minha vida, agradeço a ela por estar aqui, trabalhando”.

Para Riane Freitas, a estrutura oferecida pela construtora e o bom números de funcionários favoreceu o resultado positivo do encontro. “Essa experiência, no local de trabalho deles, é importante porque dificilmente a gente atingiria esse público. É fundamental ter a parceria com as construtoras. Os trabalhadores interagiram bem. Teve uma boa receptividade. Isso nos impulsiona a levar o projeto a mais obras”, animou-se.

ARTE – Outro fator importante para o sucesso da ação do TJPA, na manhã desta quinta-feira, 18, foi o “Projeto Educar”, desenvolvido pela Quadra Engenharia, construtora responsável pela obra. Coordenado há 15 anos pela professora aposentada Maria Elisa Guimarães Couceiro, o projeto cultural mobiliza trabalhadores em torno de atividades como pintura, leitura e outras atividades que ajudam a humanizar o trabalho e as relações no ambiente da construção civil.
Aos 70 anos de idade, a professora Maria Elisa também se reúne com seus alunos na obra para falar de temas relacionados à violência doméstica. “Mas quando a gente fala com o conhecimento da lei é bem diferente. Não estamos colocando culpa ou julgando alguém. Os operários são agentes transformadores nesse evento. Vamos conversar sobre isso nas próximas reuniões. Precisamos educar os filhos para essa cultura, e eu estou educando os meus, que são esses daqui”, disse, satisfeita, apontando os trabalhadores sentados na sala de aula repleta de quadros e esculturas produzidas por eles.

PROGRAMAÇÃO – Nesta sexta-feira, 19, o projeto do TJPA irá à obra Conjunto Residencial Viver Primavera, na Estrada do Ranário, no bairro do Tapanã, para nova palestra com trabalhadores. No mesmo dia também será realizada, a partir das 9h, visitação dos alunos do 7º e 8º ano da Escola Estadual General Gurjão, no prédio do Fórum Criminal, seguida da palestra “Violência de gênero e os 10 anos da Lei Maria da Penha”.

A ação, referente a 5ª etapa da campanha nacional “Paz Nossa Justa Causa”, teve início no último dia 16 e seguirá até o próximo sábado, 20. Até o dia 19, haverá mutirão em todas as Comarcas do Estado para dar andamento aos processos que envolvem a Lei Maria da Penha. A estimativa é que cerca de 6 mil processos sejam analisados durante a força-tarefa.

No sábado, dia 20, a partir das 8h, haverá ação de cidadania na Aldeia de Cultura Amazônica Davi Miguel (Aldeia Cabana), no bairro da Pedreira, em Belém, com atendimento jurídico, orientação sobre os direitos da mulher, emissão de documentos, consultas com clínico geral e pediatra, além de testes rápidos de HIV e sífilis. A 5ª etapa da campanha “Paz Nossa Justa Causa” comemora os 10 anos da Lei Maria da Penha.

Fonte: Coordenadoria de Imprensa
Texto: João Vital

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