É possível acabar com casos de abuso sexual no metrô? (Exame – 22/10/2015)

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Agressão física e psicológica, constrangimento público e ameaças. Pelo menos a cada três dias, uma mulher denuncia que foi importunada, apalpada, filmada ou agredida nos trens do metrô de São Paulo.

“Esses episódios refletem a ideia de que o lugar da mulher, afinal, não é na rua. Que só pelo fato de você estar na rua, está disponível”, diz Maria Fernanda Marcelino, da Sempreviva Organização Feminista (SOF).

Cada novo caso divulgado reacende uma velha discussão: é possível fazer algo para que o assédio sexual no transporte público diminua – e, por que não, acabe

Uma das propostas mais polêmicas para resolver o drama de milhares de mulheres é a criação do chamado Vagão Rosa. A iniciativa de separar homens de mulheres nos trens em horários de pico foi implantada em Brasília (DF) e no Rio de Janeiro (RJ), mas não saiu do papel em São Paulo.

A ideia é totalmente reprovada pela Companhia do Metropolitano (Metrô). “Primeiro tem uma questão lógica: 60% dos passageiros são mulheres. Não há como destinar um vagão só para elas. Outro ponto é que essa medida reforça uma visão machista de que se a mulher usar o vagão que não é rosa estará pedindo para ser importunada”, diz Rubens Menezes, chefe de segurança do Metrô.

Neste ano, o Metrô lançou uma campanha contra o abuso sexual de mulheres nas redes sociais e por meio de cartazes e panfletos. Sob o mote “Você não está sozinha”, a ideia saiu do papel a partir da mobilização de usuárias e rendeu resultados, como o aumento das denúncias feitas pelo SMS Denúncia da empresa (97333-2252).

No ano passado, foram registrados 61 casos de assédio sexual no Metrô, número que já foi ultrapassado nos oito primeiros meses de 2015. “Para nós, o aumento do número de denúncias não significa que o assédio se tornou mais frequente, mas que as mulheres e os demais usuários se sentem confortáveis para registrar os casos”, diz Menezes.

No Centro de Controle Operacional do Metrô há funcionários (um para cada linha do metrô) responsáveis por controlar a chegada das mensagens e o contato com os seguranças das estações. O atendimento não dura mais que três minutos.

De acordo com a empresa, 89% dos abusadores descritos pelas vítimas foram detidos pelos seguranças e encaminhados à polícia.

“Há, no entanto, muita gente que não denuncia por constrangimento, por vergonha, por acabar assumindo um papel de culpada por uma situação em que o único culpado é o assediador”, diz Cecília Guedes, chefe de relacionamento com usuários do Metrô.

Na mesma época em que a campanha começou a ser veiculada, os funcionários que trabalham na área da segurança e na operação dos trens e das estações passaram por uma reciclagem. “A ideia era mostrar como a vítima deve ser acolhida”, explica Cecília, uma das responsáveis pelo programa.

“Eles aprenderam que, em nenhum momento, deve pairar dúvidas sobre o relato da mulher, nem julgamentos sobre sua aparência, roupas, nada disso”, diz. Atualmente, o Metrô tem 3 mil funcionários que atuam na segurança e na operação das estações.

Mas isso é o suficiente?

No início do mês, militantes e simpatizantes do movimento Chega de Assédio fizeram uma manifestação na estação Barra Funda, na região central da cidade.

Com cartazes onde se lia “O metrô é público, meu corpo não!”, o grupo pedia pela implantação de uma delegacia da mulher em uma estação central do Metrô e o aumento do efetivo de seguranças mulheres.

A falta de delegacias especializadas no atendimento de mulheres também é apontado por Maria Fernanda Marcelino, da SOF, como outro ponto que deve ser solucionado. Hoje, apenas uma delegacia investiga crimes no sistema de trens e metrô do estado.

Para Maria Fernanda, cada estação deveria ter um posto de atendimento. Nesses locais, as vítimas poderiam construir relatos falados do agressor. “Com o sistema de imagens, seria mais fácil identificar quem é o abusador e quais são os seus hábitos”.

Outro ponto levantado por Maria Fernanda é que as campanhas não sejam pontuais. “Um cartaz rapidamente sai de cena”, diz ela “Se há anúncios diários e plaquinhas em cada vagão dizendo que sentar no piso do trem ou encostar as mãos nas portas pode causar acidentes, por que não fazer o mesmo com o abuso de mulheres?”, questiona em entrevista a EXAME.com.

Lá fora, há iniciativas que podem ser adaptadas para a realidade brasileira. No Egito, por exemplo, um aplicativo chamado Harassmap cria um mapa interativo dos locais onde foram registrados casos de assédio. As denúncias chegam por meio de redes como Facebook e Twitter e servem tanto como um alerta para as mulheres, como um subsídio para políticas públicas. A ideia foi destacada pelo Banco Mundial como uma maneira efetiva de enfrentar o problema.

Outro bom exemplo vem de Londres – uma cidade onde 15% das mulheres sofreram algum tipo de abuso, mas na qual 90% delas acreditam que a denúncia poderá trazer resultados.

Desde 2013, foi implantado o chamado Project Guardian, voltado para a preparação de cerca dos 2 mil policiais que atuam no metrô. Em menos de um ano, o número de casos registrados aumentou 32%.

O treinamento, nesse caso, tem como foco não apenas o atendimento de um caso, mas o convencimento de todos os usuários de que a denúncia é um bom caminho.

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