Estupros coletivos são 12,3% do total de casos atendidos pelo Caism da Unicamp (Correio Popular – 11/06/2016)

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Em Campinas, uma em cada oito mulheres (12,3%) atendidas após sofrerem abuso sexual pelo Serviço de Atenção Especial à Mulheres Vítimas de Violência Sexual, do Centro de Atendimento Integral à Saúde da Mulher (Caism), da Unicamp, são vítimas de estupro coletivo, praticado por dois ou mais agressores.
Os dados revelam que casos como o da garota de 16 anos, que foi estuprada por diversos homens enquanto estava inconsciente, no Rio de Janeiro, podem estar acontecendo de forma rotineira e silenciosa em Campinas. Relatos de profissionais da área sobre atendimentos com mais de um agressor que não puderam ser divulgados por conta do sigilo dos pacientes confirmam essa triste realidade.

É para o Caism que segue boa parte das vítimas de estupro na região. As informações do estudo foram coletadas com base nos prontuários de 687 mulheres que deram entrada para atendimento pós-agressão entre os anos de 2006 e 2010. Trata-se do último levantamento formal da instituição, que serviu como maneira de avaliar o serviço.

Segundo a pesquisa, finalizada em 2014, um terço das vítimas atendidas no local não registrou boletim de ocorrência, optando por manter o caso longe de investigações policiais. Outro dado alarmante é que 25% das pacientes tiveram o estupro como a primeira experiência sexual de suas vidas. Elas eram, em geral, jovens ou até crianças ou adolescentes, virgens.

O registro contribui para mapear o perfil das mulheres que foram abusadas sexualmente na cidade e região. A maioria delas tem vida ativa, sendo que 41,6% estavam empregadas e 39,4% eram estudantes. A média de idade é de 23 anos, sendo a maioria branca (74,6%), solteira (76,1%) e que nunca tinha sido atacada anteriormente (90%). Grande parte relatou relações com alguma religião (84,9%) ou prática religiosa (74,7%).

Vergonha

A professora Arlete Fernandes, coordenadora do Serviço no Caism e uma das autoras do estudo, diz que, ainda que esses dados tenham sido coletados entre 2006 e 2010, não há mudança no cenário atual e as vítimas de estupro sentem vergonha, culpa e muito medo de serem vistas como mulheres que foram abusadas.

“O que elas nos contam, na hora do atendimento, é que se sentem sujas e que querem esquecer o que aconteceu. Outro receio de grande parte é de serem obrigadas a procurar por uma delegacia, só porque estão buscando cuidados no hospital. Porém, essa prática não é necessária e elas só podem denunciar se quiserem.”

Arlete destacou ainda a importância dessas mulheres em procurar pelo serviço de saúde o mais depressa possível após o ataque, pois, assim, será possível a prescrição de medicação, assim como vacinação, se necessário, e anticoncepção de emergência. Esta preocupação se justifica com o fato de apenas dois terços das vítimas chegarem ao Caism nas primeiras 24 horas depois da violência sexual.

“O atendimento é importante não só para prevenir de doenças ou de uma gravidez indesejada, mas também, para que essas mulheres recebam acompanhamento psicologico”, afirmou. O atendimento nas primeiras 72 horas aconteceu em 87,6% das mulheres, o que é visto como ponto positivo pela ginecologista.

Ainda segundo a médica, das pacientes que aderem ao programa de acompanhamento por mais tempo, 80% delas se recuperam após seis meses de atendimento. Porém, grande parte não dá continuidade, muitas vezes, por medo ou porque querem esquecer o fato.

“Esse atendimento de saúde precisa acontecer até 72 horas após a violência. Caso contrário, a anticoncepção de emergência e prevenção de doenças não serão efetivas. Além disso, a adesão aos seis primeiros meses de acompanhamento é importante, pois a maioria dessas mulheres desenvolvem transtorno de estresse pós-traumático, como depressão e até tentativa de suicídio”, destacou.

Registros são mais comuns à noite e com uso da força

Outro fato levantado pela pesquisa do Caism é que a violência sexual ocorre, principalmente, no período da noite, entre meia-noite e sete horas da manhã, e acontece, em sua maioria, com intimidação por meio de força física.

Para se ter ideia do perigo, em 24,4% dos casos, o agressor carregava arma de fogo, o que amplia a violência do crime e a exposição da vítima.

Para Lurdes Simões, da coordenação estadual da Marcha Mundial das Mulheres em Campinas, organização que existe em todo mundo para mobilizar e organizar ações com pautas feministas, as mulheres estão aprendendo a se cuidar e proteger, pois passaram a ter acesso e a se informar sobre seus direitos.

“Ainda que o índice seja muito baixo em relação à realidade, acredito que as mulheres estão denunciando mais. Elas têm construído redes de solidariedade e acompanham grupos físicos e nas redes sociais sobre o assunto e estão cada vez mais unidas pela causa”, declarou.

Onde e por quem

O levantamento do Caism indica ainda que, das mulheres atendidas pelo serviço, 41% foram violentadas em vias públicas e 69,2% foram vítimas de desconhecidos. A realidade do País, de acordo com mapeamento do Instituto de Pesquisas Aplicadas (IPEA), é de que ao menos 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil, sendo que apenas 10% dos casos são notificados. Além disso, 89% das vítimas destes atos violentos são mulheres e 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou conhecidos da vítima.

Para a advogada voluntária da organização não-governamental (ONG) SOS Ação Mulher e Família, Lúcia Helena Octaviano, que também trabalha com vítimas de violência em Campinas, o estudo do Caism reflete apenas um recorte da imensa realidade dos casos de estupro na região.

Ela concorda com o dado nacional, e na maior parte das vezes, o agressor é conhecido ou está dentro da casa da vítima, que tendem a deixar de fazer a notificação para a polícia por medo.

“As mulheres abusadas sexualmente por pessoas conhecidas ou da própria família sentem medo de estragar a relação familiar. Elas não compartilham a informação e nem procuram a polícia. Além disso, as vítimas têm dificuldade de encontrar ajuda, pois, em muitos casos, o familiar pode repreender e até não acreditar no que ela está relatando”, destacou.

No caso do estupro do Rio de Janeiro, as últimas informações divulgadas pela polícia indicam que a jovem foi violentada por pessoas que ela já conhecia, que a levaram para um local também conhecido.

Segundo a psicóloga Cristiane Paulino da Costa, que trabalha na mesma ONG que Lúcia Helena, a maior parte dos casos atendidos na entidade é de mulheres abusadas por pessoas próximas, como padastros, tios e amigos da família, e que aconteceram na infância, quando a pessoa tinha idade média de 8 anos, período em que o corpo da menina está se formando.

“Na rua, a ação precisa ser escondida e pode gerar alarde. Em casa, a vítima sofre ameaça a todo momento do autor, o que a induz esconder o fato. Além disso, a pessoa é forçada a acreditar que a culpa por aquilo estar acontecendo é dela”, destacou.

Ela ainda informa que o estupro acomete todas as classes sociais, independentemente do grau de formação da vítima, e que as crianças acabam sendo o alvo mais visado, pois quanto mais velha, mais difícil de aliciar a pessoa.

“O acompanhamento é importante porque é possível superar a situação. Ela nunca vai ser apagada, mas conseguimos dar um novo significado, deixando de ser o foco principal da vida dessas mulheres, não causando mais dor”, disse Cristiane.

Por Camila Ferreira

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