Falta de dados sobre assédio reflete a leviandade com que o tema é tratado (Profissão Repórter – 15/10/2014)

“Você já sofreu assédio sexual no transporte público?” Experimente fazer essa pergunta para as mulheres do seu convívio. É bem provável que você se surpreenda com o resultado, como aconteceu conosco. Quase toda mulher tem uma história para contar. Um esbarrão nada inocente, uma palavra desrespeitosa ou até um contato mais íntimo sem disfarçar. Infelizmente não causa surpresa o número de relatos que ouvimos durante essa reportagem. Já imaginávamos isso. O que impressiona é o silêncio em relação a essa violência que nós, mulheres, sofremos todos os dias.

Primeiro, a passividade. A situação causa um constrangimento tão grande que muitas vítimas não abrem a boca para reclamar. Contribuem para isso o ônibus lotado, a pressa de chegar a casa, o medo de te acharem louca: “Como vão acreditar em mim se nesse ônibus lotado não dá pra ver nada da cintura pra baixo?” Segundo, a impotência. “Reclamar pra quê? Pra quem? Não tem pra que, pra quem. Vai adiantar? Não vai.” A frase que encerra a reportagem traz a triste constatação de que muitas mulheres sofrem caladas. Não há um número oficial de quantas brasileiras já foram vítimas de assédio sexual. O que existem são estudos esparsos feitos em uma ou outra cidade. Como atacar um problema se não há um diagnóstico? O silêncio complacente com a violência é institucionalizado.

trem (Foto: TV Globo)

Transporte público em São Paulo – SP em horário de pico (Foto: TV Globo)

A falta de números sobre casos de assédio reflete a leviandade com que esse tema é tratado. Parece ser um problema menor, mas não é. Ana Paula teve que deixar de usar as roupas de que gosta para não ser atacada no ônibus. Como encarar isso com normalidade? Enquanto ouvirmos pelas ruas “Quem mandou sair com roupa curta?” ou “Você está exagerando. Foi só uma passada de mão”, continuaremos a incentivar a violência contra nossas mães, irmãs e amigas. Continuaremos a ouvir histórias tristes, como a da Camila, que sofreu um abuso aos oito anos e é frequentemente assediada nos trens do Rio de Janeiro. Depois de mais um episódio de violência, ela diz “Me senti suja outra vez”.

Eliane Scardovelli

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