Filhos do feminicídio em MS: A dor de crianças e adultos com famílias destruídas pela violência doméstica (G1 – 17/06/2019)

Em MS, 37 filhos, entre maiores e menores de idade, tiveram suas mães assassinadas em 2019 por homens em quem confiavam. O G1 reuniu depoimentos de pessoas que tiveram suas vidas mudadas radicalmente pelo trauma do feminicídio.

O sofrimento de perder um ente querido alcança proporções incalculáveis quando isso acontece em um contexto extremo de violência doméstica: a mãe assassinada pelo pai, ou por seu companheiro. Até junho deste ano, 37 filhos conheceram essa dor em Mato Grosso do Sul. Destes, 21 são menores de idade. São os filhos de 14 das 17 mulheres vítimas de feminicídio no estado segundo a Secretaria de Justiça e Segurança Pública de MS (Sejusp) em menos de 6 meses, número alto para uma população de menos de 3 milhões de habitantes.

Os crimes aconteceram em 14 dos 79 municípios de MS. Só em Campo Grande foram quatro feminicídios de 1º de janeiro a 13 de junho. Também foi na capital o caso mais recente, no último dia 11. De acordo com dados da Polícia Civil, dos 17 suspeitos, 13 estão presos, 2 cometeram suicídio e 2 estão foragidos.

Em 2019, 21 crianças e adolescentes dormiram em suas casas com suas rotinas e acordaram em abrigos ou na casa de parentes. Sem a mãe e o pai, muitas vezes essas famílias não têm condições financeiras de arcar com a chegada inesperada de um novo integrante. Além da mudança no orçamento familiar, uma criança enlutada e marcada pela violência no seio familiar precisa de acompanhamento psicológico, atenção e amor redobrados, como afirma o psicólogo Guilherme Fagundes.

O destino imediato dos filhos menores após o crime é responsabilidade do município. De acordo com a Secretaria Municipal de Assistência Social de Campo Grande, em caso de morte da mãe e ausência do pai as crianças vão, primeiro, para uma casa de acolhida onde sob a coordenação do Conselho Tutelar, uma equipe verifica a disponibilidade de parentes que tenham condições de assumir a tutela.

Caso não haja interesse de familiares, as crianças podem ser encaminhadas para adoção. Segundo a Secretaria Especial de Cidadania, a maior parte das crianças filhas de vítimas de feminicídio acaba ficando no seio familiar com avós, irmãos e tios, mas há registros de menores que foram recolhidos a lares para adoção, afirma a secretária Luciana Azambuja. Em caso de indígenas (2 vítimas este ano, 4 crianças), segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), elas devem crescer na comunidade indígena, com sua própria cultura. Caso não existam parentes em condições de criá-las, vão para os lares e devem ser, preferencialmente, adotadas por índios.

Entre os 16 adultos, agravantes como depressão e outras doenças de ordem psicológica transformam a soma de indignação e dor em uma rotina insustentável de pura angústia, com consequências na vida profissional e pessoal. É o caso de Luciana de 31 anos que perdeu a mãe há 2 meses, morta pelo pai.

Vazio que não tem nome

Luciana Cabral é filha de Nilce Elias da Rocha Bento, de 56 anos, assassinada pelo marido idoso no dia 3 de abril em Naviraí. Sozinha após a morte da mãe e a prisão do pai, a vida de Luciana tornou-se, em suas palavras, um filme de terror. Desempregada e dormindo à base de sedativos por conta dos constantes pesadelos, ela hoje toma 5 medicamentos diferentes para depressão e tenta, a cada manhã, vencer mais um dia.

“Ainda não acredito que ele fez isso, simplesmente não consigo, é impossível entender. Dói tanto, tanto, que nem consigo explicar.”

Marido e pai violento, Aderval Bento tinha um histórico de agressões dentro de casa, porém Nilce não registrou boletim de ocorrência. Após décadas de união, ela queria a separação. Alegando não aceitar o divórcio, ele esfaqueou a mulher na cama do casal na frente da outra filha, Susi, que é deficiente mental. Aderval não trabalhava, era Nilce que mantinha a casa com a renda de uma loja que havia montado há algum tempo.

Filha adotiva do casal, a única referência que Luciana tinha de família perdeu-se após a morte da mãe. “Todos os dias ela me esperava para almoçar, me dava colo quando eu me sentia perdida, quando precisava de apoio. É muito difícil entender que enfrento a maior dor da minha vida justamente porque não posso mais abraçar minha mãe, ela foi tirada de mim. É um vazio que não tem nome”, declara, emocionada.

Ela conta que a mãe estava feliz por finalmente ter tomado coragem para libertar-se do relacionamento abusivo. Diante da recusa do marido em sair da casa, Nilce disse a ele que ela mesma sairia. Ao perceber que o pai parecia aceitar de bom grado algo que jamais tolerou, Luciana diz que alertou a mãe que isso poderia indicar um perigo maior:

“Eu disse a ela, ‘Ele tá muito calmo, isso não é normal’ e ela dizia que ele não teria coragem de matar. Alguns dias antes me pediu que fizesse sua sobrancelha, suas unhas e pintasse seu cabelo porque ‘no caixão seria mais difícil’, parecia que ela sentia que algo ia acontecer.”

No dia do crime ela passou mais cedo na casa da mãe: “Encontrei ela chorando no quarto e perguntei se ele tinha batido nela, ela só chorava. Depois disse que ia levantar e fazer salgado, eu tinha que ir para o trabalho e pedi para a vizinha ficar de olho, mas em um minuto que ela saiu da casa, quando voltou ele já estava na frente, dentro do carro dizendo ‘chame a polícia que eu matei a Nicinha'”, relata.

Luciana vive sozinha com as três cachorrinhas da mãe e as plantas que ela tanto gostava. O pai fugiu em seguida ao crime mas apresentou-se dias depois e segue preso. A irmã deficiente mora com a avó em uma cidade da região leste.

“Ele pede perdão para mim através do advogado mas eu não consigo falar nada. Ele não queria ficar sozinho e acabou sem ninguém dentro de uma cela. Ele está sozinho lá, não tem ninguém pra visitar. De que adiantou tudo isso? De que adiantou matar minha mãe?” declara.

A filha da vítima forma-se em educação física no próximo mês de agosto. Em fevereiro, a mãe já havia comprado uma roupa para a solenidade e combinado com o fotógrafo para participar das fotos da formatura, contando os dias para finalmente ver a filha concluindo o ensino superior. Luciana não sabe se participará da cerimônia.

Assim como Luciana, outros 35 filhos carregam o mesmo trauma. Alguns, ainda crianças, assistiram ao assassinato da mãe ou chamaram o socorro. No caso de uma das vítimas, Adriana, que é indígena, as 4 crianças estavam desorientadas e sentadas ao lado do corpo da mãe quando a polícia chegou.

Pai que cuida de duas meninas fala sobre como age em momentos de crise

Glauco Rondon é pai de duas meninas, uma de 16 e outra de 9 anos. Elas são filhas de Nádia Sol, a professora morta pelo ex-namorado em Corumbá, que passaram a morar com o pai. A mais velha estava em casa na hora do crime e viu a mãe morrer na calçada. Ele conta que as meninas fazem acompanhamento psicológico, mas mesmo assim, é preciso administrar as crises de choro e tristeza especialmente da mais nova.

“Ela faz perguntas que eu não tenho como responder, não se conforma de terem tirado a mãe dela. Às vezes ela acorda no meio da noite dizendo que só queria poder dar um abraço na mãe, questionando por que tudo isso aconteceu. Eu não tenho o que dizer, só abraço forte minha filha e espero o choro acalmar.”

A menina completa 10 anos em agosto e planejava o aniversário com a mãe. A mais velha, já adolescente, tem a própria maneira de lidar com a dor, segundo o pai, que tenta fazer com que ela não leve consigo a impressão de que todo homem é violento. Ele conta que às vezes, quando sentam na varanda de casa para conversar, a sensação é de que a qualquer momento a mãe pode chegar para buscar as meninas, como era o costume quando saía do trabalho. Diante do vazio da ausência, eles choram juntos.

Glauco conta que quando a menina menor pergunta por que sua mãe foi embora, ele sempre dá a mesma explicação, lembrando da profissão que a ex-esposa tanto amava. Nádia lecionava português e inglês em duas escolas da cidade.

“Eu digo pra ela ‘Deus levou sua mãe para ensinar as crianças no céu’ e ela me pergunta ‘mas por que entre tantas professoras tinha que ser ela?’. Eu sempre respondo ‘porque sua mãe era a melhor professora do mundo'” relata, emocionado.

Nas crises das filhas, Glauco fala de amor e ensina as meninas a apegarem-se à fé para que o trauma da violência que conheceram não lhes afete a vida adulta. Ele não faz tratamento psicológico, mas acompanha as duas e evita falar sobre o autor do crime. O foco é sempre a memória de Nádia, batalhadora e forte, sendo enaltecida com carinho.

“Agora eu preciso dar a elas um amor em dobro porque esse vazio jamais será preenchido. Só Deus para nos dar forças nessa caminhada.”

Crianças tendem a sentir culpa pela violência dos pais

O psicólogo Guilherme Fagundes afirma que o tratamento para crianças que presenciaram a violência de forma extrema precisa ser minucioso e paciente. A possibilidade desse trauma trazer consequências até a vida adulta é muito grande:

“Uma criança ou adolescente que vem dessa realidade precisa criar um propósito para conseguir lidar com as adversidades no futuro. Jovens que conheceram um ambiente hostil têm grandes chances de crescer com crenças limitantes e isso impacta em dois pontos: primeiro, eles tendem a não acreditar que sua história pode ser melhor que a da própria família, e segundo, jovens costumam repetir o comportamento violento dos pais em momentos de pressão ao longo da vida.”

Guilherme explica que a culpa é outro fator que pesa no psicológico de crianças que vivem situações de violência doméstica.

“Como dependem dos pais na primeira infância, as crianças os vêem como heróis. Quando o pai é violento, essa imagem é arranhada e por não entender a razão dele agir assim, a criança traz a culpa para si, sente que sua presença atrapalha. Imagine a proporção desse sentimento quando a briga termina com a morte da mãe.”

Segundo o psicólogo, a postura de Glauco com as filhas está correta. Tanto para meninas quanto meninos, a necessidade de encontrar segurança após uma ruptura dessa magnitude é constante para que possam, dentro do possível, minimizar o trauma na vida adulta.

“Essa criança vai precisar encontrar novos padrões, como um modelo de homem que não seja violento e um contexto positivo de família, para que no futuro ela sinta confiança na construção de sua própria família”, conclui.

Juíza explica os motivos que levam a violência doméstica

A juíza titular da 3ª Vara da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Jacqueline Machado, afirma que o homem que agride uma mulher por ser contrariado ou sentir-se rejeitado, quando mata, além de punir, ele quer ter sua vontade satisfeita:

“Quando um homem comete feminicídio, na verdade o desejo dele não é simplesmente matar a mulher, é matar a liberdade dela, sua autonomia, sua voz. Ele acredita que tem o direito de controlar essa mulher e se não consegue, ele destrói, ele mata. Esses crimes não são passionais, são punições”, declara.

Para Jacqueline, o feminicídio é o extremo de uma escalada de violência física e psicológica que precisa ser levado o quanto antes às autoridades:

“A grande maioria das mulheres que foram mortas não tinha medida protetiva. É uma falácia dizer que medida protetiva não protege, só em Campo Grande atualmente são 5 mil em vigor. Entre as vítimas de feminicídio, apenas uma tinha pedido de medida protetiva, muitas delas não tinham sequer um boletim de ocorrência. A denúncia é sim importante porque isso pode impedir que a agressão termine em morte.”

Vítimas como Nilce, que suportou anos de agressões verbais e físicas, têm dificuldade em libertar-se do relacionamento abusivo por uma série de questões, segundo a juíza:

“Existe aí uma ligação afetiva. Ela tem esperança de que aquele homem mude, tem receio de prejudicá-lo socialmente, tem a tendência de se culpar e se sentir responsável por aquela agressão, dependência emocional e econômica, então, é um longo processo para que ela consiga entender o relacionamento abusivo, e geralmente, ela precisa de uma ajuda externa para isso”, declara.

OG1 fez um levantamento juntos às delegacias das cidades onde aconteceram os crimes sobre quem são as 17 vítimas e quantas deixaram filhos, entre maiores e menores de idade. Para proteger a identidade e a localização destes menores, não será revelado nesta reportagem onde estão vivendo nem qual o parentesco dos familiares responsáveis atualmente.

Nilce Rocha com o marido Aderval, que após décadas de um relacionamento abusivo, assassinou a esposa a facadas — Foto: Arquivo pessoal

Quem são as 17 vítimas de feminicídio em MS este ano

Os crimes estão elencados do mais recente, em 11 de junho, até o primeiro deste ano, em 9 de janeiro. Um caso, o da indígena Eronilda Gabriel, foi registrado como feminicídio na delegacia, mas a denúncia foi oferecida pelo Ministério Público como homicídio, por isso, ele não consta nos números da Sejusp.

Suspeito foragido, dor multiplicada

A filha de Maria das Graças Hora, Elisângela Hora, usa as redes sociais em apelos frequentes para encontrar o ex-marido e assassino da mãe. Malrilho foi casado com Maria por 10 anos, completos em novembro do ano passado. Elisângela conta que há muito tempo a mãe havia decidido se separar:

“Ela comentava com os filhos, comigo, que não estava feliz. Ele vivia jogando baralho, sumia por dois, três dias, ela não queria mais viver com ele. Já estavam separados há muito tempo, vivendo na mesma casa. Uma semana antes dela ser assassinada, meu irmão fez a mudança dela para outra casa”, relata.

Maria das Graças e Malrilho viveram juntos por 10 anos. Ele matou a ex-esposa por não aceitar a separação — Foto: Elisângela da Hora/Arquivo pessoal

Segundo a polícia, Malrilho matou Maria na casa do novo namorado, assassinando-o em seguida. Ele está foragido e a filha de Maria não se conforma com a impunidade:

“É uma dor multiplicada! Uma pessoa que dizia amar a minha mãe, que fazia tudo por ela! Nós confiávamos nele, eu até deixava minhas crianças passarem as férias lá! Como poderíamos imaginar que ele seria capaz de uma barbaridade dessas?”, desabafa.

O filho mais velho de Elisângela, adolescente, faz tratamento psicológico para lidar com a revolta pela perda brutal da avó. Ela diz que não perde as esperanças de que Malrilho seja encontrado.

“O que machuca é o vazio da saudade da minha mãe somado e essa sensação de mãos atadas. Ele não pode simplesmente ter sumido, sem ninguém saber onde está. Não podemos desistir, esse assunto não pode ser esquecido, nossa dor não pode ficar sem resposta.”

Políticas públicas de combate ao feminicídio

A Subsecretaria de Políticas Públicas para as Mulheres hoje pertence à pasta da Secretária Especial de Cidadania de MS, sob responsabilidade de Luciana Azambuja Roca. Em entrevista ao G1, ela afirma que os números preocupam o governo (de 1° a 8 de junho aconteceu a semana estadual de combate ao feminicídio) e a principal ação da Subsecretaria é ajudar a encorajar mulheres a denunciarem as agressões, mesmo que não sejam físicas, e pedir à Justiça a proteção a quem têm direito:

“O primeiro passo para o enfrentamento é falar sobre o assunto, provocar a sensibilização da sociedade, de prefeituras para que criem Coordenadorias da Mulher em seus municípios, de vereadoras e vereadores para que formulem leis que protejam direitos das mulheres, para que realizem audiências públicas, discutindo com a população o que pode ser feito.”

O estado tem um centro de apoio a parentes enlutados de vítimas de feminicídio e também para mulheres que sobreviveram às tentativas de assassinato por parte de seus companheiros. Veja as políticas públicas que estão em vigor:

  • CEAM: O Centro Especializado de Atendimento à Mulher em situação de Violência oferece atendimento psicossocial gratuito e continuado, atendendo mulheres sobreviventes de tentativas de feminicídios e mulheres que perderam familiares de forma cruel (mães, tias, avós, filhas maiores de idade). Atualmente, estão sendo atendidas no CEAM 3 mulheres sobreviventes e 3 mulheres familiares de vítimas do feminicídio.
  • PROMUSE: A Polícia Militar tem o Programa Mulher Segura que fiscaliza, acompanha e monitora mulheres vítimas de violência com medidas protetivas, realiza visitas técnicas e faz encaminhamentos para a rede de atendimento.
  • POP Feminicídio: O Procedimento Operacional Padrão existe desde março de 2018 e envolve todos os profissionais da segurança pública que atuam em casos de feminicídio e tentativas, para padronizar os atendimentos, aprimorar processos e rotinas e dar maior visibilidade aos crimes de feminicídios para estimular a discussão. No segundo semestre de 2019 terá início um programa de capacitação para atendimento humanizado e especializado de profissionais que atuam em órgãos da rede de atendimento às mulheres em situação de violência.

Na capital, sob a coordenação da Subsecretaria de Políticas Para a Mulher, a Casa da Mulher Brasileira funciona 24 horas e conta com um centro de apoio às vítimas, com alojamento e brinquedoteca para as que precisam sair de casa com os filhos. Lá é onde fica a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam). Na Casa há uma equipe multidisciplinar de psicólogas e assistentes sociais, Promotoria e Defensoria Pública e a 1ª Vara de Medidas Protetivas do país.

Quem são os foragidos

A polícia procura pelo ex-marido e suspeito de esfaquear Maria das Graças da Hora, Malrilho Francisco da Silva. Ele fugiu logo após o crime. A família da vítima divulga esta foto de Malrilho para tentar encontrá-lo. Quem tiver informações sobre seu paradeiro pode entrar em contato com a delegacia de Terenos no telefone (67) 3246-1601.

O suspeito do caso mais recente, que aconteceu em Campo Grande, também é considerado foragido. Fábio Amaral, suspeito de matar Erica Aguillar Pereira teve sua foto divulgada pela polícia na manhã de sexta-feira (14).

Informações sobre os suspeitos podem ser direcionadas ao Disque Denúncia no número 181, anonimamente. Denúncias de violência contra a mulher podem ser feitas também por terceiros através do telefone 180.

Jaqueline Naujorks