Grávidas agredidas têm 4 vezes mais chances de sofrer depressão, diz USP (G1 – 18/04/2015)

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Em Ribeirão Preto (SP), 17% das gestantes relatam agressões pelo parceiro. Falta sensibilização das equipes de saúde para identificar casos, diz estudo.

“Ele já me xingou, me bateu, me deixou em um hospital roxa dos pés à cabeça. Ele já me prendeu dentro de casa e passou vários dias fora. Ele sempre foi violento comigo.” O depoimento é de uma moradora de Ribeirão Preto (SP) que diz ser agredida pelo marido há 22 anos. Ela contou que só procurou a polícia depois de ser violentada durante a gestação do terceiro filho, o caçula da família. “Ele me machucou. Eu cheguei a correr dele.”

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O caso relatado pela moradora parece ser mais comum do que se imagina. Uma pesquisa realizada pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP) aponta que 17% das gestantes atendidas no Centro de Referência da Saúde da Mulher, em Ribeirão, já foram agredidas pelo parceiro.

O levantamento foi realizado entre 2012 e 2013, mas a enfermeira-obstetra Mariana Fonseca-Machado, autora do estudo, afirma que a situação se repete ao longo dos anos e pode ser estendida a outras cidades brasileiras. “Foi uma amostragem local, mas que reflete a realidade do Brasil. A violência contra mulher é uma questão cultural e ainda muito velada”, diz.

Mariana explica que 358 gestantes foram entrevistadas durante a pesquisa. Cada uma respondeu sete questionários: um para traçar o perfil sócio demográfico da pesquisada, como idade, escolaridade e renda, um segundo para identificar o tipo de violência sofrida, e outros cinco sobre os tipos de transtornos que enfrentavam, como depressão, estresse, pânico, etc.

Depressão e suicídio
Os resultados apontaram que 70% das gestantes que participaram do estudo eram solteiras, apesar de 80% delas morarem com os parceiros, pais dos bebês. Além disso, 55% das entrevistas já tinham outros filhos e 62% não havia planejado a gestação.

O levantamento mostrou ainda que as grávidas violentadas pelo parceiro – fisicamente, psicologicamente ou sexualmente – têm quatro vezes mais chances de apresentar sintomas depressivos. Já a prevalência de pensamentos suicidas durante a gestação foi relatada por quase 8% das entrevistadas.

Mariana afirma que os dados comprovam que a violência praticada pelo parceiro deixa marcas na vida da mulher, principalmente psicológicas. Além disso, ainda de acordo com a pesquisadora, a gestante agredida acaba desenvolvendo problemas de saúde como dores crônicas, insônia, tontura e infecções, em decorrência da própria violência sofrida.

“Elas chegam ao serviço de saúde com queixas vagas, mas que são reflexo da violência. Por isso, cabe ao profissional que vai atendê-la ter sensibilidade para identificar a agressão por trás do problema”, afirma a pesquisadora, destacando que a maioria das vítimas não fala abertamente sobre o caso.

Rede de apoio
Mariana explica que durante o período de gravidez a mulher tem um contato maior e mais próximo com profissionais da saúde e, por isso, fica mais propensa a revelar as agressões sofridas dentro de casa. Por esse motivo, as equipes precisam estar aptas e, principalmente, dispostas a identificar esses casos nesse momento.

“O que a gente percebe é que ainda falta sensibilização. Os profissionais de saúde não perguntam. São poucos os que se propõe a investigar, seja por falta de formação adequada, por medo do agressor, por achar que não conseguir solucionar o problema ou por falta de uma rede de apoio para encaminhar essa mulher”, diz.

Problema cultural
A enfermeira destaca ainda que a violência praticada pelo parceiro é um problema cultural e mais recorrente em países em desenvolvimento, como o Brasil, onde os valores socioculturais, como a desigualdade entre gêneros, são muito fortes. Por isso, mais do que investir no combate, por meio de leis mais severas, e em serviços de apoio e assistência às vítimas, é preciso investir em educação.

“É um problema cultural considerar que a violência contra mulher é aceitável. É aquela velha história de que ’em briga de marido e mulher não se mete a colher’. Isso não pode se perpetuar. As crianças têm que saber e entender que isso não é uma coisa normal, que a violência não pode ser aceita dessa forma”, conclui.

Adriano Oliveira

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