Maceió é a terceira cidade com mais violência psicológica contra as mulheres (Cada Minuto – 04/12/2017)

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Após seis anos, a alagoana Ágata Nunes*, de 31 anos, percebeu que o relacionamento que ela vivia com Arnaldo* foi marcado por um tipo de violência, que até então, ela desconhecia: a psicológica. Frases como “eu te amo”, “você é linda”, foram trocadas por “você é gorda”, “eu casei com você apenas pelo sexo”. Segundo o relato de Ágata, o ex-marido a humilhou diversas vezes fazendo com que ela se sentisse um “lixo”, como a própria definiu.

“Ele me traía sempre. No sexo, por exemplo, ele dizia que não estava a fim de fazer porque eu era flácida e gorda. Ele me chamava de louca e na nossa lua de mel, ele me deixou na casa da mãe dele e foi para a farra”, contou.

Para ela, era difícil entender que esse tipo de relacionamento não era saudável e que o que ele praticava era um tipo de violência, conforme Ágata relatou, ela conheceu o que era violência psicológica quando uma amiga conversou com ela explicando do que se tratava.

Sentindo-se culpada, Ágata tentou tirar a própria vida para “aliviar o sofrimento”. “Perdi um bebê um dia dias antes de me separar após uma briga, tive depressão, mas hoje em dia sei que fui fraca por tentar o suicídio, mas fui forte porque venci”.

Ágata disse à reportagem do Cada Minuto que, hoje em dia, após o divórcio, sente-se feliz, mas confessa que carrega, dentro de si, várias marcas e dores devido ao relacionamento e que é um desafio recuperar a autoestima que foi perdida. “Tenho medo de me relacionar com outra pessoa, odeio me olhar no espelho e meu corpo, mas estou em um processo de terapia que tem me ajudado”.

Nordeste lidera ranking

Um estudo divulgado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) mostrou que Natal, João Pessoa e Maceió têm prevalência de violência emocional, de 34,8%, 32,5% e 30,2%, respectivamente.

Nos últimos meses, 11% das mulheres nordestinas foram vítimas de violência psicológica, enquanto 5% sofreram agressões físicas e 2% violência sexual no contexto doméstico e familiar.

“Pensei que ele mudaria”

A maceioense Beatriz Almeida*, de 20 anos, contou que viveu em um relacionamento repleto de ameaças e chantagens. “Tentei terminar várias vezes com ele, mas ele fazia chantagem dizendo que ia se matar”, disse Beatriz.

De acordo ela, mesmo após o término, o ex-companheiro continua ligando para ela e a seguindo. “Terminei com ele algumas vezes, mas perdoei e voltei. Quando eu ia trabalhar, tinha a obrigação nos momentos de pausas, falar com ele, se eu não falasse, ele fazia chantagem emocional e brigávamos”, disse.

Por causa do sentimento, Beatriz voltava o relacionamento na esperança de que ele mudasse. Mas ela enfatizou que o comportamento dele continuou do mesmo jeito.

“Violência é uma palavra forte, mas eu li sobre esse tipo de violência e eu passei por isso. No começo era tudo perfeito, mas eu tive vontade de me matar e chorei em muitos momentos porque ele fazia chantagens comigo e eu precisava chorar para que ele acreditasse em mim”, enfatizou Beatriz.

Ele não te bate, mas…

O termo violência, muitas vezes, remete ao uso da força física, entretanto, mesmo a agressão verbal ou qualquer conduta que cause dano emocional e diminuição na autoestima, é considerado violência psicológica ou emocional.

Além disto, a violência psicológica também é entendida como algo que prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar as ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição, insulto, chantagem, ridicularização, exploração ou que cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação.

A violência psicológica não pode ser ignorada e é o que alerta a psicóloga Roseanne Albuquerque. Conforme ela, a violência traz danos irreparáveis porque a mulher tem diminuição da autoestima, crises de ansiedade, depressão e sintomas psicossomáticos. “Uma depressão não tratada pode chegar ao suicídio, é preciso ter cuidado e atenção. Por isso é necessário a psicoterapia para que ela trate esses problemas”, contou.

A psicóloga disse que a violência psicológica surge de forma mascarada e não de uma forma “clara”. Conforme ela, a mulher tenta minimizar o que o agressor faz com ela, tentando justificar dizendo que o parceiro tem ciúmes ou tem cuidado. “Ela não consegue identificar sozinha que aquilo se tornou uma violência psicológica e de que forma podemos identificar? Uma mulher que vive com um parceiro e percebe que ele só ridiculariza, expõe ela a humilhações públicas, grita, brigas, ofende e diminui a autoestima dela, vive um tipo de violência”.

Roseanne enfatizou que a mulher pode buscar serviços especializados, como um psicólogo ou órgãos competentes em defesa da mulher. “A violência psicológica antecede a violência física que uma vez instalada, vai acontecer sempre. A mulher precisa se empoderar, mostrar que ela vive no mundo para viver, ser feliz e não ser massacrada por ninguém”.

Programas do Governo

O governador Renan Filho ressaltou em entrevista ao Cada Minuto que o Estado possui vários programas para combater a violência contra a mulher. “Nós temos a blitz Maria da Penha, o Maria da Penha na escola e nós reduzimos o número de homicídios contra a mulher no trabalho das Delegacias Especializadas, nós levamos a Delegacia da Mulher para a cidade de São Miguel dos Campos e vamos ampliar a Delegacia da Mulher em Alagoas”.

Programa de Proteção a Vítimas está suspenso

Entretanto, o programa de Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita), gerenciado pela Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos (Semudh) de Alagoas foi suspenso. À reportagem, a secretária Claudia Simões disse que o programa não é da secretaria da mulher. “A secretaria tinha um fórum que recebia recursos do Governo Federal e um Conselho que era ligado aos Direitos Humanos, mas nas gestões anteriores, eles não prestaram contas e agora vieram nas prestações em cima da nova gestão”, contou.

Claudia disse que tentou de todas as formas, juntamente com o fórum, tentou fazer a prestação e eles não aceitaram. “Estamos em uma luta política, técnica, para que as pessoas aceitem, viajei várias vezes para Brasília, mas com o Provita suspenso quem tem que garantir a segurança para às vítimas é a Secretaria de Segurança Pública e é isso que a Semudh tem feito em parceria com essa secretaria”.

Simões garantiu que muitas vítimas se sentem seguras indo para outros Estados e que eles viabilizam esse processo, mas ressaltou que o retorno do Provita depende exclusivamente do Governo Federal. “Já mandamos vítimas, enquanto Governo, até para outro país. Na nossa gestão, nenhuma vítima morreu porque temos dado toda proteção. O Governo Federal não manda recurso e sem recursos não podemos trabalhar”.

Uma nova vida

Ágata e Beatriz possuem algo em comum. Mesmo com idades, sonhos e vidas diferentes, ambas acreditam que não mereciam os relacionamentos que vivenciaram. “Existe sim a tampa da panela, o cara ideal, mas caso a mulher não ache, é esperar no tempo de Deus. Vocês, mulheres, se amem porque vocês merecem”, finalizou Beatriz.

*Os nomes dos personagens utilizados pela reportagem são fictícios

Raissa França

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