Maioria das vítimas de estupro em AL não procura por atendimento médico (G1/AL – 24/05/2014)

1ª Delegacia Especial de Defesa dos Direitos da Mulher em Maceió (Foto: G1)

1ª Delegacia Especial de Defesa dos Direitos da Mulher em Maceió (Foto: G1)

Apesar de a violência sexual exercer um grande impacto sobre a saúde das vítimas, pouquíssimas mulheres procuram atendimento médico. Em 2013, por exemplo, a Polícia Civil registrou 504 ocorrências de estupro, no entanto, a Maternidade Escola Santa Mônica, única unidade de saúde que realiza atendimento a vítimas de estupro, registrou a entrada de apenas 91 mulheres. Em 2012, a situação foi semelhante. De 491 ocorrências policiais, apenas 95 procuraram o hospital.

Os números reforçam o resultado de uma pesquisa da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) que aborda as dificuldades e inseguranças das mulheres vítimas de estupro para procurar a ajuda de um profissional de saúde. O estudo é da enfermeira Luciana de Amorim Barros, mestra pela Ufal, que aponta o desconhecimento e a falta de acesso aos serviços como os maiores problemas para essas vítimas.

Para Luciana, existe uma dificuldade para que a mulher tenha acesso aos tratamentos necessários para evitar doenças e maiores traumas psicológicos. “A vítima já carrega os traumas provenientes da violência. Quando ela é mal orientada ou tem que percorrer longas distâncias para conseguir atendimento, acaba perdendo a vontade de fazer o tratamento”, falou.

Para desenvolver a pesquisa, Luciana contou com a colaboração de mulheres vítimas de estupro com idades entre 18 e 45 anos, que estiveram em atendimento no ambulatório de uma maternidade pública de Maceió. “Analisamos casos da capital e do interior. Pelo que foi relatado, as mulheres que são do interior têm mais dificuldade para ter acesso ao tratamento”, explicou.

A pesquisadora diz que a vítima de violência sexual requer um atendimento apropriado no serviço de emergência. “O crime sexual exerce grande impacto sobre a saúde das vítimas, destacando-se a ocorrência de injúrias físicas e traumas psicológicos, de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) incluindo o HIV e a gravidez”, falou.

Na Santa Mônica, ele é realizado por uma equipe multidisciplinar, para dar suporte às demandas bio-psico-sociais. As equipes são compostas por médico, enfermeiro, psicólogo e assistente social capacitados no atendimento a situações de violência e sensíveis ao problema.

Na maternidade, as mulheres recebem o atendimento de urgência, onde é realizado um exame de sangue, recebem medicamentos antibióticos e os que evitam gravidez e contra as DSTs. Depois disso, ela é encaminhada ao Hospital Hélvio Auto, onde recebe os medicamentos antirretrovirais, para evitar o vírus HIV.

Para Luciana, é preciso repensar o cuidado às mulheres vítimas de estupro e por outras situações de violência sexual. “Deve-se estabelecer um bom vínculo com a paciente com postura acolhedora, de forma que ela se sinta segura. Mas no interior, as mulheres, após vivenciarem o estupro, sequer têm direito de acolhimento em sua cidade porque o estado conta apenas com a Santa Mônica para o procedimento”, explicou a pesquisadora.

Faltam delegacias especializadas

A pesquisa também retrata a dificuldade que as mulheres têm por causa da falta de informação sobre o atendimento. Para a pesquisadora, trata-se de uma busca investida, que é quando a mulher se dirige primeiro a delegacias, IMLs e só depois procura um serviço de saúde. “O atendimento médico deve ser a primeira coisa a ser feita”, destacou.

Delegada Maria Teresa, da Delegacia Especializada da Mulher da capital, também reforça a importância do atendimento médico (Foto: Carolina Sanches/G1)

Delegada Maria Teresa, da Delegacia Especializada da Mulher da capital, também reforça a importância do atendimento médico (Foto: Carolina Sanches/G1)

A delegada Maria Teresa, da Delegacia Especializada da Mulher da capital, também reforça a importância do atendimento médico. Apesar de dizer que todas as vítimas de violência devem procurar a delegacia o mais rápido possível para prestar queixa, ela falou que isso deve ser feito após tratamento na Santa Mônica e no Hélvio Auto.
“Recebemos em nossa delegacia mulheres que ainda não procuraram atendimento médico. Quando isso acontece, ela é orientada e fazemos tudo para que vá de imediato ao hospital. Mas é preciso reforçar que em todos os casos, tanto o tratamento de saúde como a queixa na delegacia são importantes”, falou.

Como a maior parte dos casos registrados acontecem no período da noite, quando as delegacias estão fechadas, as vítimas procuram a Central de Flagrantes, no bairro do Farol, na capital, ou as delegacias plantonistas do interior. “Acredito que o trauma pode fazer com que muitas vítimas deixem de procurar atendimento médico. Quando ela passa pela delegacia, precisa relembrar o caso e isso pode fazer com que ela desenvolva um trauma maior”, disse a delegada.

Programa atende a vítimas por seis meses

Depois do atendimento de urgência, as vítimas atendidas na Maternidade Santa Mônica são incluídas no Programa de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual que é um serviço de referência para o atendimento a crianças, adolescentes e mulheres.

Segundo a médica Teresa Valéria, que faz parte do programa, além do serviço emergencial, a vítima precisa ter um acompanhamento para evitar problemas de saúde e psicológicos. “Trabalhamos com mulheres que foram atendidas na maternidade. Apesar da necessidade, nem todas comparecem ou completam o tratamento”, falou.

A médica diz não poder atribuir com certeza os motivos da desistência, mas aponta a distância e o trauma como alguns deles. “Muitas vezes a mulher tem vergonha ou medo de sair de casa por causa da violência que sofreu. Tem também o fato do transporte, que dificulta a viagem para a capital das pessoas que moram em cidades distantes”, observou.
Assim como a enfermeira Luciana Amorim, a médica reforça a necessidade de ampliar o atendimento às vítimas. Para isso, ela sugere a criação de núcleos regionais para que a mulher não precise se deslocar longas distâncias. “O acompanhamento é muito importante, não só para a questão física, como a mental da mulher”, falou.

Carolina Sanches

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