Manaus registrou mais de um estupro por dia em 2015; foram 427 vítimas (A Crítica – 04/06/2016)

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Sociedade machista, vítimas com medo de falar, estupradores nas ruas… Mais que a cultura do estupro, a violência sexual é um crime que pode acontecer em qualquer esquina e precisa ser encarado

O estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro, vítima de 33 homens, deu início a uma discussão nacional sobre o tema. O Manaus Hoje foi às ruas, ouviu autoridades e conversou com uma vítima de violência sexual em Manaus, em busca de diferentes visões sobre o assunto.

A partir de 2009, o estupro é considerado como todo ato libidinoso ou sexo praticado mediante violência ou ameaça, causando danos físicos e morais à vítima, ou seja, é um crime contra a dignidade sexual. Dados do Datafolha indicam que, no Brasil, 67% da população tem medo de sofrer um estupro.

Em pesquisa feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicadas (Ipea) um dado relevante chama a atenção: 26% dos entrevistados concordam que as mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas e 58% disseram que se as vítimas soubessem como se comportar, haveria menos estupros.

De acordo com o delegado de polícia Rodrigo de Sá, essas afirmações não se encaixam. “Quando falamos em estupro, esse pensamento pragmático não pode ser levado à risca. Estamos falando de um crime contra o bem mais precioso de uma pessoa, que é o seu corpo”.

No Brasil, estima-se que a cada 11 minutos uma pessoa é estuprada, desses, 70% são cometidos por parentes, namorados e conhecidos das vítimas. A psicóloga Amanda Dantas dos Santos informou que a pessoa que pratica a violência sexual, sobretudo, o estupro, é considerada extremamente perversa, que desafia leis e impõe o desejo indiferente ao desejo e/ou permissão do outro. “Um exemplo disto são as exibições em redes sociais, ou seja, ele realmente se sente impune”, destacou a psicóloga.

Opiniões

Walmar Salgado, 30, gerente de produção: “Concordo que uma mulher que se veste com roupas mais ousadas está mais propícia a sofrer um assédio, mas daí para estupro existe uma grande diferença. O comportamento da mulher até pode chamar a atenção, mas o culpado é o cara que vai lá violenta a mulher”.

Rozivana Mesquita, 32, engenheira, lembrou do machismo em que vivemos. “Não é difícil ver um pai chegar para o filho e dizer que ele tem que ser pegador. De certa forma eles estão incentivando essa criança a não respeitar a mulher”.

Crianças vítimas

Para a delegada Juliana Tuma, titular da Delegacia Especializada em Proteção a Criança e ao Adolescente (Depca), o criminoso que pratica o crime de estupro pode ser qualquer tipo de pessoa. “Não tem um perfil e não há cor de pele, classe social ou cultural”, revelou.

Segundo a delegada, na maioria das confissões dos criminosos é dito que foram seduzidos pela vítima. “Tem uns que alegam que a criança se insinuou para eles, o seduziu. Tem vários que falam isso, mas isso não justifica o crime, aliás, não tem defesa para isso”, disse. A delegada ainda revelou como os casos podem diminuir com a denúncia feita a uma pessoa de confiança.

“O abuso só é evitado quando a criança ou o adolescente se encoraja de denunciar o caso”, contou, ao informar ainda que o protetor tem que estabelecer uma relação de amizade e confiança.

A investigação

Após o registro do crime na delegacia ocorre um processo para o início da investigação sobre o fato. Segundo a delegada Juliana Tuma, a palavra da vítima já é o suficiente para instaurar um Inquérito Policial (IP), porém há outros procedimentos que levam à comprovação do crime e a prisão do suspeito.

A versão da vítima também é analisada durante os procedimentos de investigação. Mesmo que a palavra da criança ou adolescente seja a mais forte, ela ainda terá que ser submetida a um exame com psicólogo. “Ela é submetida a um exame psicossocial, pois nós, da polícia, temos que verificar a veracidade dos fatos”, contou.

Na maioria das confissões de suspeitos, eles alegam que foram seduzidos pela criança ou vítima.

Educação familiar

A principal medida que deve ser adotada para que novos suspeitos em potencial não possam vir a surgir dentro da sociedade é a simples educação dentro de casa, segundo afirmou a delegada Andrea Pereira, titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM).

Simples modos dentro da casa podem mudar o futuro de uma pessoa. “Têm pais que não conduzem os filhos para uma boa educação. Às vezes, em uma simples brincadeira, os pais falam: ‘filha beija a fulana, paquera ela’ e, mesmo que não estejam com intenção nenhuma, essas pequenas atitudes estão erradas”, disse.

“Se eles (criminosos) sofreram algum tipo de violência na infância, eles irão trazer essa violência para a vida adulta”, continuou e alertou que, enquanto as famílias não trabalharem a educação, esses tipos de crime não terão fim.

De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), até o dia 20 de maio deste ano já foram registrados 155 estupros de vulneráveis, crime contra crianças abaixo dos 14 anos, e 157 contra maiores de 14 anos, totalizando 312 estupros somente em 2016. Em 2015 foram registrados 790, conforme os dados oficiais repassados à reportagem.

Relato de vítima

Uma das vítimas de abuso sexual, Denise, 28 anos, (nome fictício), relatou à reportagem que mesmo passados cinco anos depois que foi abusada, a cicatriz da dor física e, principalmente, psicológica jamais foram esquecidas.

De acordo com ela, o crime ocorreu em um matagal, no bairro Cidade de Deus, Zona Norte de Manaus. Na época, ela retornava pra casa junto com um amigo, quando foi abordada por um homem armado com um revólver.

Ela contou que o criminoso amarrou o colega e cometeu o ato. “O pior de tudo é o que vem depois do acontecido”, disse. “Vinha aqueles pensamentos em minha cabeça como ‘será que eu usei alguma roupa inadequada? Ou será que eu provoquei isso? e outras coisas que vieram na minha mente”, explicou.

ESTUPROS EM MANAUS

Registros de vítimas de estupro menores de 13 anos ocorridos na capital em 2015 e 2016*

Fonte: SISP. * Dados atualizados até o dia 20 de maio, sujeito a alterações.

Dani Brito e Fábio Oliveira

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