Medo já impediu 90% das mulheres jovens de realizar alguma atividade social

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(Rede Brasil Atual, 10/06/2015) Ruas são o lugar considerado mais perigoso pelas mulheres ouvidas para a pesquisa. No entanto, o machismo e a violência são cotidianos também nos relacionamento e nos lares

“O medo cresce com a gente.” Esse é o resumo do sentimento exposto por 2.285 mulheres, com idades entre 14 e 24 anos, ouvidas em uma pesquisa desenvolvida pela agência-escola de comunicação Énois Inteligência Jovem em parceria com os institutos Vladimir Herzog e Patrícia Galvão. Do total, 77% afirmaram já ter sofrido assédio sexual físico e 90% deixaram de fazer alguma atividade por medo da violência, como sair à noite, usar certas roupas ou responder a uma cantada. Ou seja, o medo no caso delas não é só por uma questão de segurança pública, mas por serem mulheres.

Dos casos de assédio físico, 72% se deram com desconhecidos. As chamadas “encoxadas” no transporte público, um beijo forçado na balada ou um tapa na bunda durante um passeio foram os casos mais relatados. Já o assédio verbal foi relatado por 94% das jovens, sobretudo através de cantadas, bem distantes da alegada inocência do gesto. “Aos 9 anos de idade ouvi o meu primeiro ‘te chupo todinha’”, relatou uma entrevistada carioca de 24 anos.

Além do assédio, as agressões físicas já foram vividas por 41% das mulheres ouvidas. Nesse caso, a violência é algo presente no círculo social da vítima e não uma ação de estranhos. Nada menos que 97% dos casos envolviam um conhecido da jovem, sendo que 51% foram agredidas por familiares, 38% pelo parceiro e 23% por amigos. A íntegra da pesquisa está disponível no site da Énois.

Lares machistas

As mulheres também foram questionadas sobre formas mais sutis de violência, como a relacionada à criação e à família. “Quando chego em casa tarde por qualquer motivo, sou vítima de insultos por estar ‘vadiando’, ‘não ajudando em casa’ ou simplesmente ouço ‘isso não é hora de menina estar na rua’”, relatou uma paulista de 20 anos, exemplificando a situação de 74% das entrevistadas, que sentem receber um tratamento diferenciado em casa por serem mulheres. Essa situação afetou seu desenvolvimento, comportamento e aprendizado, na opinião de 77% delas.

Na visão de 86% das entrevistadas, a mídia fortalece estereótipos e desvaloriza quem não se encaixa nos papéis definidos às mulheres na sociedade. “Me sinto alheia, pois a mulher está sempre como a que gosta de casar, ter filhos, cuidar da casa, faz ‘coisas de mulher’. É a que não entende de ciências exatas e não sabe trocar uma lâmpada”, lamentou uma santista de 21 anos.

A situação não melhora nos relacionamentos. Quase metade das jovens já foi forçada, pelos parceiros, a manter relações sexuais contra a sua vontade. Outras 57% tiveram as amizades ou os locais em que iam limitados por namorados ou maridos. E 39% sofreram o mesmo em relação às roupas que usavam.

Apesar do cenário machista, há avanços. Pelo menos na ação e na compreensão das próprias mulheres. Dois terços delas relataram que consideram essas práticas como formas de violência e reagem contra isso. E defendem que é preciso levar o debate de igualdade para mais espaços de convívio social, como as escolas. “Acho que a escola deveria discutir isso, falar de igualdade de gênero, porque ela é a base, é ela que forma cidadãos, então deveria cumprir esse papel”, defendeu uma paulista de 14 anos.

Para a pesquisa, foram ouvidas jovens moradoras de 370 cidades brasileiras, das classes C, D e E. Dessas, 26% tinham cursado até o ensino médio, 55% tinham curso superior incompleto e 17%, o superior completo. Em 71% dos casos, foram criadas por mãe e pai. E 96% têm filhos.

Rodrigo Gomes

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