Mortes por causas externas crescem mais entre mulheres no Paraná (Folha Web – 12/04/2015)

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Óbitos violentos ou acidentais cresceram 20,22% na população feminina no Paraná em dez anos; entre os homens, variação foi quatro vezes menor

Desde a década passada, a preocupação em combater a violência contra a mulher e incrementar as ações específicas de atenção à saúde da população feminina gerou uma série de políticas nas diferentes esferas do poder público em todo o Brasil. Entretanto, dados coletados pela reportagem da FOLHA mostram que, ao menos no Paraná, essas iniciativas têm falhado. O fenômeno do crescimento das mortes violentas e/ou acidentais, as chamadas causas externas, têm afetado com mais intensidade as mulheres paranaenses.

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Segundo números do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), os homens continuam morrendo mais em razão de causas externas no Paraná. Em 2014, 7.092 homens e 1.665 mulheres morreram no Paraná nessa condição. Porém, a variação da mortalidade por causas externas em dez anos foi maior entre pessoas do sexo feminino. De 2004 a 2014, as mortes de mulheres por esses fatores aumentaram 20,22%, e de homens, 4,9%, quatro vezes menos.

De acordo com as estatísticas do SIM, entre as causas externas, os acidentes de trânsito foram as ocorrências que mais mataram mulheres em 2014 no Paraná: foram 595 vítimas. Em seguida, aparecem outros tipos de acidentes, como quedas, afogamentos, choques elétricos e incêndios, com 575 mortes. Os homicídios aparecem em terceiro lugar entre as mortes femininas por causas externas, com 284 óbitos, e os suicídios vêm em quarto, com 111 mortes. Outros fatores provocaram 100 óbitos.

Dos quatro grupos principais de causas externas, os suicídios foram os únicos que tiveram redução de 2004 para 2014, com -27,92% de mortes de mulheres paranaenses por esse fator no comparativo entre os dois anos.

Os óbitos femininos em acidentes de trânsito cresceram 6,63% e os homicídios, 13,6%. Entretanto, o maior aumento foi registrado no grupo que abrange outros tipos de acidentes, com um incremento de 61,06%. Nessa categoria, das 575 mortes de mulheres registradas no Paraná no ano passado, 439 (76,3%) foram por quedas. A maioria dessas ocorrências (399) vitimou mulheres a partir de 65 anos de idade.

A Sesa diz que os números de 2014 do SIM ainda não estão consolidados, e por isso o último ano que permite comparações é 2013. Mesmo assim, se forem considerados os dados do ano retrasado em comparação com dez anos antes, a constatação é a mesma: as mortes de mulheres por causas externas também aumentaram mais do que as de homens no Paraná no período 2003-2013. Em 2013, segundo o SIM, 1.633 pessoas do sexo feminino morreram nessas condições, 27,08% a mais do que em 2003. Entre os homens, no mesmo período, os registros de óbitos por causas externas cresceram 18,64%, chegando a 7.294 no ano retrasado.

Márcia Cecília Huçulak, superintendente de Atenção à Saúde da Sesa, diz que as causas externas hoje são o terceiro principal fator de mortalidade no Paraná, atrás apenas de doenças cardiovasculares e neoplasias, e a população feminina sente o impacto dessa realidade.

A superintendente não considera uma contradição que os homicídios de mulheres tenham aumentado no Paraná mesmo com a criação de mecanismos de enfrentamento à violência contra a população feminina nos últimos anos.

“Falando sinceramente, no Brasil nós temos a cultura de achar que a criação de uma lei resolve tudo. A legislação ajudou muito na notificação. Há dez anos, nós não tínhamos tanta notificação de violência quanto temos hoje. Era mais difícil uma mulher ir a uma delegacia para denunciar que foi agredida pelo marido. Não é que a violência não existia”, argumenta.

Ela aponta que, além das situações de violência doméstica, houve a influência do aumento dos homicídios relacionadas às drogas, que também atingiu a população feminina. Também houve efeitos do crescimento da mortalidade no trânsito. “Hoje, a mulher usa moto tanto quanto o homem, e 70% das mortes no trânsito envolvem esse tipo de veículo”, diz Márcia.

Quanto ao aumento das mortes por outros tipos de acidentes, a superintendente argumenta que está relacionado ao crescimento da população paranaense e da expectativa de vida – já que os óbitos por quedas são a ocorrência mais comum dentro dessa categoria.

“As mulheres vivem mais do que os homens. No Paraná, a média é de sete anos a mais. E o risco de óbitos por queda é muito grande entre idosos. Para evitar esses acidentes, a família precisa tomar cuidados básicos, como tirar tapetes e providenciar calçados adequados, já que a maioria das quedas acontece dentro de casa. As mortes por esse fator entre mulheres mais do que dobraram no Paraná entre 2004 e 2013”, descreve.

Fábio Galão
Reportagem Local

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