‘Muitas mulheres que sofrem violência doméstica acham isso normal’, diz defensora (Repórter MT – 23/04/2016)

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Presidente do Conselho da Mulher de Mato Grosso, Rosana Barros, comentou o caso da mulher que foi mantida refém pelo marido por dois anos em Cuiabá.

Apesar de serem agredidas pelos parceiros física e emocionalmente, “muitas mulheres ainda acham que é normal viver dessa forma”, disse ao a defensora pública Rosana Barros, presidente do Conselho Estadual da Mulher de Mato Grosso, se referindo ao caso da mulher, de 23 anos, M.C.M.S, mantida em cativeiro por dois anos, em uma casa de classe alta, no Centro de Cuiabá, sob a tutela do marido, Hélio Pereira Cardoso Neto, 37.

O caso repercutiu esta semana na capital mato-grossense e fora do estado.

Hélio, que é filho de um dos sócios do Shopping Três Américas, fugiu, após a vítima conseguir escapar da clausura e dos maus tratos cometidos por ele. É considerado foragido.

A violência doméstica é comum em Cuiabá. Em 2015, a Delegacia de Defesa da Mulher da capital instaurou 3,3 mil inquéritos para apurar histórias bem parecidas, envolvendo um homem como agressor e uma mulher como vítima, de várias idades, inclusive meninas, e classes sociais, inclusive ricas. O diferencial neste caso, da mulher mantida trancafiada, é o cárcere privado.

Apesar da situação atípica, somando cárcere e violência, a vítima continuou sob as ordens do marido por dois anos. Ele tinha armas e ela ficava com medo de pedir socorro.

“São nuances da própria violência doméstica. Existem mulheres que demoram a perceber que estão sofrendo com isso”, explica.

Rosana Barros explica ainda que, pela dependência emocional ou financeira, as vítimas demoram a quebrar o cilco de violência doméstica. “Ela poderia sair antes? Não podemos dizer. Mas o importante é que buscou ajuda”, avalia.

A ajuda à qual ela se refere é uma carta que a vítima escreveu a mão para a mãe e que ela conseguiu entregá-la despistadamente. Na carta, M. relata uma série de agressões e violências psicológicas sofridas ao longo do relacionamento conturbado com o marido. Segundo os relatos da carta, ela estava sendo oprimida, pois era obrigada a obedecer a todas as ordens do esposo sem questioná-lo. Ainda, conforme o relato dela, a vítima era obrigava a andar de cabeça baixa em qualquer situação em que outras pessoas estivessem na presença do casal.

Quanto às agressões físicas, que segundo a vítima eram semanais, o agressor preferia machucá-la na cabeça, para não deixar marcas, mas às vezes se excedia e acertava o braço e outros locais do corpo.

M. diz ter sofrido tudo isso, além de xingamentos que ele dirigia a ela na rotina.

Mediante a carta e o desaparecimento da vítima, que perdeu contato com a família por um tempo, a mãe dela registrou denúncia na Polícia.

No último sábado (16) a juíza Ana Cristina Silva Mendes, da Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, de Cuiabá, decretou a prisão de Hélio, que, após fugir, emitiu nota, por meio do advogado, dizendo desconhecer essa violenta relação denunciada pela vítima.

Para a defensora esse caso é emblemático, uma vez que mostra que, se a mulher, vitimizada pela violência doméstica, pedir ajuda, depois da Lei Maria da Penha, ela tem grandes chances de ser atendida.

“A Lei Maria da Penha é efetiva e eficaz quando se tem a possibilidade de buscar ajuda. Ela buscou e foi imediatamente atendida. A prisão foi decretada assim que o Poder Público tomou conhecimento da violência doméstica e familiar”, destaca a presidente do Conselho da Mulher, incentivando que outras vítimas tomem a mesma decisão que M.

Keka Werneck – Da Redação

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