Mulher pode levar mais de 10 anos para denunciar violência, diz pesquisa do MPSP (G1/São Paulo – 10/07/2016)

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MP-SP analisou acusações de violência contra mulher feitas ao Ligue 180. ‘Romper o silêncio é muito difícil’, revela a promotora Valéria Scarance

Mulheres vítimas de violência em seus relacionamentos podem levar mais de 10 anos para denunciar o crime, apontou uma análise feita pelo núcleo de gênero do Ministério Público de São Paulo (MP-SP).

“Romper o silêncio é muito difícil, porque há um tempo para que a vítima entenda que está sofrendo violência”, explica a promotora Valéria Scarance, de 44 anos, coordenadora do núcleo.
A unidade analisou todas as denúncias de violência contra mulher feitas ao Ligue 180, canal de atendimento à mulher do Governo Federal, entre 2014 e 2015.

Na semana passada, a ex-modelo e atriz Luiza Brunet acusou o ex-marido, o empresário Lírio Parisotto, de agressão. Em depoimento ao Ministério Público (MP) de São Paulo, ela disse ter sido agredida mais de uma vez, durante os quase cinco anos de relacionamento que tiveram. Ao Fantástico, ela contou que teve “medo e vergonha” de denunciar (veja vídeo da reportagem abaixo).

Neste sábado (9), uma mulher foi resgatada após ser mantida em cárcere privado por três dias pelo marido em Guarulhos, cidade da Grande São Paulo. Ela foi agredida e teve o cabelo e a sobrancelha raspados. O homem foi preso.

De acordo com a pesquisa, cerca de 37% das denúncias foram feitas por mulheres que estavam em relacionamentos com uma década ou mais de duração. Segundo a promotora Valéria Scarance, em alguns desses relacionamentos foram violentos desde o início. A análise tem índice de erro de até dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

“Nem sempre a violência física acontece no começo da relação, e há também o tempo para que ela se conscientize que aquele comportamento do agressor é duradouro, é repetitivo, que pode colocar em risco sua vida e sua saúde”, explica Valéria.

Ainda segundo o estudo, no mesmo período, apenas entre 11% e 12% das queixas recebidas foram registradas por mulheres em relacionamentos de um ano ou menos. Para Scarance, que é também autora de um livro sobre a Lei Maria da Penha, os dados confirmam a dificuldade das mulheres em relatar de forma imediata uma agressão.

A promotora revela que o tempo de repressão da denúncia pode ser estendido, também, pela vergonha da vítima em ter sua vida pessoal exposta; pelo medo de reações ainda mais agressivas vindas do parceiro ou de terceiros e, principalmente, pelo medo de sofrer revitimização – quando a vítima é culpabilizada pela violência sofrida.

“Isso acontece tanto pelos destratos das autoridades, quanto por parte da sociedade, quando se avalia conduta, o histórico da vítima, suas vestes, seu comportamento, o porquê e as vírgulas e entrelinhas do relato da vítima”, diz.

Para ela, o que se deve avaliar quando há a denúncia de um crime é se houve violação e quem a fez. Outros questionamentos seriam “juízo de valor que não são compatíveis com uma sociedade que se julga desenvolvida”.

“A responsabilidade de cada um é não julgar as vítimas de violência de gênero. Se o nosso país é o quinto no mundo que mais mata mulheres, é porque muitas não encontraram apoio, acolhida. A responsabilidade dessas mortes não é só das autoridades, é de cada um de nós”, defende.

Ciclo da violência

A promotora baseia sua análise em um estudo desenvolvido pela pesquisadora norte-americana Lenore Walker após as entrevistas realizadas com mais de mil mulheres vítimas de agressão, também operam como um entrave na denuncia do crime. Nele, os relacionamentos abusivos são definidos em etapas chamadas em Ciclo da Violência – fases de “tensão”, “explosão” e “lua de mel”.

Na primeira, o relacionamento está instável, o homem assume uma postura ameaçadora, mas a mulher crê que controla a situação ao não contrariá-lo. Na segunda, há a materialização da violência, como agressão física ou verbal. Na terceira, há um aumento de carinho do agressor com a agredida. Ele é, porém, temporário.

“Há uma tendência à repetição desse ciclo e quanto mais se repete, mais grave a violência e menor a possibilidade de reação da vítima”, afirma Scarance.

“A repetição do sofrimento ou a repetição da dor ativam no cérebro da mulher o mecanismo inibidor da reação. É por isso que as vítimas, muitas vezes, sofrem caladas, morrem caladas ou demoram tanto tempo até noticiar uma violência”, completa.

Filhos e a violência

A pesquisa do MP apontou também que entre 80% e 83% dos filhos de mulheres agredidas também tornam-se vítimas, diretas ou indiretas, de violência. “Aproximadamente 60% das crianças, nesses casos, presenciam violência. Em mais aproximadamente 20%, elas acabam se tornando vítimas diretas também”, relata a promotora.

“O que presencia também é uma vítima, e pode sofrer consequências físicas, além de psicológicas. Em razão do estresse vivenciado, pode haver sequelas para o desenvolvimento neurológico da criança”, alerta Scarance.

Para Valéria, a ideia de que uma separação pode ser mais prejudicial a uma criança do que a proximidade de um relacionamento abusivo, é um engano. Segundo Scarance, “estar em um contexto de violência é prejudicial aos filhos. Mais prejudicial do que uma separação”, alerta.

Segundo a promotora, é papel da sociedade, por meio da mídia e demais ferramentas de conscientização, combater a chamada “Cultura do Estupro”.
“Nós fomos formatados por séculos, ao longo da nossa história, para pensar que a mulher é alguém inferior. Um país onde acontece um estupro a cada 12 segundos e só 10% desses estupros são noticiados é um país que tem de repensar seus conceitos, seus valores e suas culturas”, conclui.

*com supervisão de Lívia Machado

Eduardo Pereira*
Do G1 São Paulo

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