Mulheres criam rede contra cantada agressiva (Diário de S.Paulo – 02/05/2014)

Tecnologia ajuda vítimas de assédio sexual a declararem casos normalmente não comunicados à polícia

Cansadas de sofrer assédio sexual nas ruas, as mulheres estão se unindo. E usando a internet como ferramenta para denunciar a ação dos tarados que agem impunemente todos os dias e assim colaborar para que novas vítimas não surjam.

O principal exemplo dessas novas medidas é o “Chega de Fiu Fiu”. O site está no ar há quase um ano e, através de denúncias feitas pelas leitoras, aponta no mapa os locais onde vítimas sofreram assédio e até agressões físicas e estupro.

“A cantada sempre foi a violência mais pública e violenta que a mulher sofreu. E a ideia é juntar essas denúncias e trazer uma luz para a sociedade, trazer o debate”, disse a jornalista Juliana de Faria, de 29 anos, criadora do site.

Desde junho de 2013, quando passou a funcionar, o site já recolheu 590 denúncias. A maioria delas, cerca de 45%, é da capital. Em alguns exemplos, até casos ocorridos há mais de 20 anos são denunciados pelas leitoras. “As mulheres se sentem seguras agora de falar de algo que as machucou no passado”, disse Juliana.

Aproximação/ Se a receptividade entre as vítimas é grande, os sites colaborativos de denúncias também são bem vistos por autoridades que tratam da questão da violência sofrida pelas mulheres.

“Eu acho ótimo, mostra que as mulheres estão saindo daquela letargia”, destacou Celi Paulino Carlota, delegada titular da 1 DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) da capital.

A ação independente, segundo ela, vai além de uma atuação conjunta. Apesar de ofensiva, uma agressão verbal dificilmente pode ser enquadrada em algum item do Código Penal.

“O que se vê hoje, com a internet, é uma atitude de coragem das mulheres, principalmente as mais jovens, de entender que elas não são as culpadas pela violência que sofrerem”, disse Gislaine Caresia, secretária da Comissão Especial da Mulher Advogada da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) federal.

Para Juliana, mais do que o respaldo das autoridades, um dos objetivos do grupo responsável pelo site é justamente se aproximar delas.

“Sabemos que muitas das denúncias se referem a crimes pesados. Por isso ressaltamos que somente o site não resolve, que é necessário procurar a polícia ou fazer a denúncia pelo telefone 180”, disse.

“Um de nossos objetivos é se aproximar das autoridades. Queremos, sim, ter relação direta com elas. Incentivar para que os casos que são levados a nós cheguem ao conhecimento deles. O mapa não é algo oficial, mas um levantamento particular”, completou Juliana.

Plano de autora é ampliar e levar serviço para a periferia

A maioria dos relatos que aparecem no “Chega de Fiu Fiu” é de casos ocorridos em bairros da região central da capital. Por isso, Juliana de Faria e as demais responsáveis pelo site querem ampliar o serviço e levá-lo ao conhecimento de entidades para que haja divulgação na periferia.

“Queremos nos conectar com todos que queiram falar com a gente”, destacou Juliana, que também pretende levar o serviço às principais capitais do Brasil.

A ação seria eficaz. Ao mesmo tempo em que índices criminais de crimes sexuais caem pouco, o Brasil vê apenas 10% das ocorrências do tipo serem levadas às autoridades. O que colabora para sites participativos terem uma importância grande para levar as denúncias à Justiça.

Juliana não tem dados exatos sobre onde ocorreu a maioria das atuações dos tarados e quantos casos houve. Mas o transporte público é a maior das preocupações. “É onde as mulheres mais ficam vulneráveis”, disse.

Após os casos dos “encoxadores”, amplamente divulgados pela imprensa, o Metrô, por exemplo, iniciou uma campanha nas estações para incentivar as mulheres a denunciarem abusos que venham a sofrer nos vagões por meio do SMS-Denúncia.

Análise

Wania Pasinato, Socióloga do NEV (Núcleo de Estudos sobre a Violência) 

Iniciativa é boa, mas pede cautela

Eu acho que essa iniciativa é boa. Incentiva as mulheres a buscarem ajuda e conforto quando são agredidas verbalmente. Mas a ferramenta ainda é muito nova. Temos de acompanhar o desenvolvimento dela e refletir com muita cautela sobre os dados. Pode gerar um alarde na sociedade. De repente todos os lugares se tornam perigosos. É preciso atenção. Mas evidente que é uma medida que pode ser eficiente a médio, longo prazo. Infelizmente o assédio verbal não é crime e sim uma prática muito ocorrente. É a chance de se trabalhar a prevenção e a educação. E não classificar cada vez mais as relações entre homem e mulher.

Entrevista

Juliana de Faria_criadora do ‘Chega de Fiu Fiu’ 

‘Quando criamos o site, o tema nem era discutido’ 

DIÁRIO_ Como surgiu a ideia para fazer o site?

JULIANA DE FARIA_ A inspiração veio de sites semelhantes que já existiam nos EUA e na Índia. Na época, esse assunto nem sequer era discutido. Trouxemos isso à tona por experiências que nós mesmas sofremos andando nas ruas.

E o que acharam da receptividade que o site teve?

Fizemos pesquisas de opinião no nosso site e vimos que a mulher não gosta de receber uma cantada. No começo o plano era apenas levantar os locais onde ocorriam esse assédio sexual para irmos colar cartazes alertando as autoridades. Mas com a criação do mapa, há quase um ano, percebemos que as vítimas começaram a se sentir confortáveis para relatar abusos que sofreram. Alguns casos são de até 20 anos atrás.

O mapa acabou ganhando muita importância, não?

Sem dúvida. A mulher, quando ela vai e marca um local, relata o que aconteceu com ela, não está fazendo isso para si mesma, mas incentivando quem sofreu a também denunciar, alertando sobre os riscos. Isso é o que é mais legal.

E como funciona quando vocês recebem uma denúncia de estupro ou algo grave?

Nós não temos como agir. Como são muitas denúncias, precisamos deixá-las em aberto. Mas em nosso site informamos os caminhos para a mulher agredida procurar ajuda.

Quais os planos para o futuro do site?

Sabemos da dificuldade, mas queremos chegar à periferia. Todo mundo que quiser pode contar a sua história. Vejo esse como um dos maiores problemas: a violência contra a mulher é considerada algo privado, que tem de ficar entre quatro paredes. Não tem uma solução clara e rápida para isso. Os órgãos públicos não olham direito para isso. E resta ao ativismo particular unir as mulheres e evitar que seus relatos fiquem para sempre esquecidos.

Vocês conversariam com as autoridades sobre os relatos?

É ruim a gente não ter uma conectividade com o poder público. Queríamos isso. Seria essencial que a polícia agisse em conjunto, responsabilizando o agressor pelo que ele cometeu.

Por Rafael Ribeiro
Especial para o DIÁRIO

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