Mulheres falam da dor pela perda de familiares vítimas de feminicídio (Correio Braziliense – 06/05/2016)

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Na sexta reportagem da série, o Correio narra o sofrimento e a dor de duas mulheres que tiveram familiares assassinadas por homens marcados por sentimentos de posse. Ambas lutam para reestruturar a vida

Inconsciente, irracional e arraigado ao extremo na sociedade, o machismo mata 13 mulheres a cada dia no Brasil. Mas não existe estatística capaz de mensurar o tamanho do sofrimento para quem fica. Quando um homem chega ao ponto de assassinar a pessoa que já não lhe quer ou nunca lhe quis, ele decreta o fim de uma família. Ainda que a vida retome seu curso, o luto, de certa forma, dura para sempre. A dor não cessa para Cilene Sousa Farias, 39 anos, e Reginalva Nobre da Silva, 37. Cada uma a seu tempo, são sobreviventes de um trauma que finca raízes profundas na alma. Uma enterrou a irmã; outra, a mãe. Ambos os criminosos eram conhecidos das famílias, como na grande maioria dos casos de feminicídio, conforme mostra a série de reportagens Quando não mata, fere, que o Correio publica desde o último domingo.

Cilene, irmã mais velha de Suênia Sousa Farias, considerava-se também sua protetora. Com ela, dividia as vontades e angústias. Compartilhavam também certa ingenuidade. Nem uma nem outra — na verdade, ninguém — jamais poderiam supor que o fim do relacionamento da caçula de uma família de muitas mulheres poderia levar ao enredo trágico que se seguiu. Suênia foi morta aos 24 anos, atingida por cinco tiros, por um homem que não aceitou o fim do relacionamento. “Nunca imaginamos que uma coisa dessas pudesse acontecer”, confessa Cilene.

Jovem e bonita, Suênia queria ser delegada. Estudava direito e mirava a carreira na Polícia Civil. “Ela não falava em se casar, ter filhos, pensava só na carreira, nos estudos, ia de manhã e à tarde para a faculdade. Tinha um futuro promissor pela frente”, lamenta a irmã. Envolveu-se com um professor do curso na faculdade onde estudava, na Asa Norte. Aos poucos, segundo o relato de Cilene, o excesso de controle dele começou a incomodá-la; o ciúme era excessivo. Ela pôs fim ao relacionamento, e ele passou a persegui-la. Suênia reatou um antigo romance, e a situação piorou. A família só soube do envolvimento conturbado pouco tempo antes da tragédia.

Três meses depois do fim do namoro com o professor, ele a abordou no estacionamento da faculdade. Eram 15h30, de 30 de setembro de 2011. “Foi quando ela disse que preferiria morrer a voltar para ele. Os tiros foram dados para que ela não resistisse. Foram cinco. Eu vi o corpo dela. Todos à queima-roupa. Ele a destruiu”, recorda-se, emocionada. O professor andou com o corpo por horas até se entregar na 27ª Delegacia de Polícia (Recanto das Emas), onde foi preso. “Eu tinha falado com ela pouco tempo antes de ele a pegar. Ela estava feliz. Ia a um casamento com o namorado, em Goiânia. Ela só disse que queria muito me ver, falar comigo. Foi o pior dia e a pior notícia da minha vida”, diz Cilene.

Na época do crime, não existia lei do feminicídio, sancionada em março de 2015. O assassino foi condenado por homicídio duplamente qualificado. Inicialmente, a 20 anos de reclusão. Por ter confessado espontaneamente, a sentença foi reduzida para 18 anos. Como o julgamento foi no ano passado, ele já havia cumprido quatro anos. Nas contas da família, no ano que vem, poderá estar solto. O autor do crime, Rendrick Vieira Rodrigues, casou-se na prisão com uma amiga de infância. Os dois tiveram uma filha. Uma menina. “É revoltante. Uma vida vale tão pouco? Acabou com ela e agora vai viver a vida. É uma punição vagabunda. Por isso acontece tanto. Conhecem as leis e sabem que nada acontecerá.”

Desejo de justiça
Reginalva Nobre da Silva chora a perda da mãe, de 61 anos, há 25 dias. Aliado ao sofrimento, há o temor pela própria segurança e a da família. Também o medo de que não se faça a justiça esperada. Maria Lúcia da Silva Nobre, a mãe dela, foi morta dentro de casa em 12 de abril. Atingida com uma barra de ferro na cabeça ao sair do banho, foi enrolada em uma coberta e, depois, queimada. Teodorico Teles, 56, confessou o crime, está preso, mas ainda não foi julgado. Segundo Reginalva, ele era uma espécie de cuidador da mãe de Maria Lúcia, uma senhora de 85 anos. O assassinato dela foi o triste desfecho de uma história de reencontro.

Maria Lúcia havia sido separada da mãe ainda criança. “O meu avô maltratava a minha vó, e ela fugiu de casa. Na hora, ele apareceu e não deixou levar a minha mãe, que tinha 9 anos. Elas só se encontraram novamente em março do ano passado. Foi alegria para toda a família”, recorda Reginalva.

Camila Costa , Cristine Gentil

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