Mulheres mudam a rotina por medo de serem alvo de estupro (O Tempo – 04/07/2016)

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Enquete produzida por O TEMPO aponta que a rua é o local onde elas se sentem mais vulneráveis

Desde março de 2014, quando um homem passou a mão pelo corpo da estudante Sandrele Cristina Reis Santana, 23, enquanto ela esperava um ônibus, à noite, a jovem não sai de casa com tranquilidade. Por medo, ela alterou toda a rotina. Mudou o turno da faculdade para a manhã, passou a frequentar aulas de defesa pessoal, deixou de beber quando não está acompanhada por alguém de sua confiança e começou a pegar ônibus apenas quando há cadeiras vagas, mesmo se precisar se atrasar por isso.

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A realidade de Sandrele é um retrato do que a maioria das brasileiras sente todos os dias ao sair de casa: o medo de se tornar vítima de um estupro. O temor parece ter se tornado ainda maior após o estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro no dia 21 de maio.

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2015, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 90,2% das mulheres têm medo de sofrer violência sexual. O dado se mostra ainda mais relevante quando elas expõem seus receios presentes em atividades rotineiras, como andar pela rua ou pegar um ônibus, conforme demonstra enquete realizada por O TEMPO (veja abaixo).

“Mudei tudo para que o assédio não me afetasse tanto, mas continua acontecendo com frequência. Sinto-me presa, com uma sensação de impotência enorme. Apesar de ser ruim quando a gente é assaltado, a vida segue, mas a violência sexual gera um trauma para sempre”, afirma Sandrele. Para ela, andar sozinha, principalmente à noite e no centro de Belo Horizonte, se tornou quase uma tortura. “Fico em pânico sempre que tenho que passar por lá, porque o assédio é inevitável e está completamente naturalizado. A liberdade está longe de ser conquistada”, lamenta.

Assim como a estudante, 71% das mulheres que responderam à enquete afirmam se sentirem mais vulneráveis nas ruas. Em seguida, estão dentro de ônibus, para 10%, e, depois, em baladas (8%). Ainda havia as opções de resposta: no táxi, na escola/faculdade, no trabalho e em casa.

Quando questionadas sobre o que gera mais medo quando o assunto é assédio, as mulheres poderiam escolher entre as opções pegar táxi sozinha, andar na rua sozinha, sair a pé à noite, voltar sozinha da balada ou ficar bêbada. No entanto, a grande maioria, 61% delas, marcou a alternativa que incluía todas as opções.

A estudante Monaliza Silva de Alcantara, 21, não precisou sofrer algum tipo de violência para se prevenir de um possível abuso. Ao ver o caso registrado no Rio, ela mudou de rotina. “Não que eu não soubesse que isso sempre aconteceu, mas como foi bastante debatido, fiquei mais receosa e sinto medo em todos os lugares. Não saio mais tão tarde, vou com roupas mais compridas a lugares cheios e não bebo em festas onde não conheço ninguém direito”.

Sociedade machista reforça temor, acredita especialista

Trocar de roupa para evitar ser assediada é um comportamento admitido por 77% das mulheres que responderam à enquete realizada por O TEMPO. Para a coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marlise Matos, mudar hábitos por medo é reflexo de uma sociedade machista.

Ela acredita que isso acontece porque as mulheres acabam acreditando que alterar comportamentos usados por autores de estupros como justificativa para o crime vai evitar que ele seja cometido. “Quando as mulheres são agredidas no espaço público, o que estão dizendo para ela é: ‘Seu lugar não é aqui’. Como se, caso ela estivesse em casa, com outra roupa, ou se não tivesse bebido, isso não iria acontecer”, explica Marlise.

Segundo ela, o sentimento de temor não é exagero, mas, apesar do contexto negativo, pode ser considerado um ganho, pois as mulheres ficam em alerta e buscam se proteger. (RM)

Apenas 7,5% dos casos são notificados

O medo da violência sexual faz parte do cotidiano da mulher e está conectado à experiência que ela tem diariamente e ao número de estupros registrados no país, conforme a diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno. Em 2014, 47.646 ocorrências foram contabilizadas. No entanto, a especialista afirma que o número real pode chegar a 500 mil, uma média de um caso por minuto, já que pesquisas apontam que apenas 7,5% das ocorrências são notificadas.

“Diferente de outros tipos de delitos, a violência sexual é uma incógnita. Pode acontecer em quaisquer lugar e hora, e o agressor pode ser o taxista, o profissional que faz a entrevista de emprego ou o vizinho”, alerta Samira. Segundo ela, é preciso investir em punição, mas, principalmente, na prevenção. “A mulher que sofre abuso tem mais chance de desenvolver dependência química, de se tornar alcoólatra e de ter depressão”, afirma.

RAFAELA MANSUR

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