Mulheres reivindicam ações afirmativas no setor privado (Agência Senado – 15/12/2016)

O terceiro painel do seminário Mulheres no Poder: Diálogos sobre Empoderamento Político, Econômico e Social e Enfrentamento à Violência, realizado nesta quinta-feira (15), trouxe para o Senado a voz de mulheres executivas, empreendedoras e que lutam por ações afirmativas de gênero no setor privado. Mediada por Boris Utria, coordenador-geral de Operações do Banco Mundial Brasil, a mesa-redonda foi marcada pela presença de Mônica de Sousa, diretora-executiva da Maurício de Sousa Produções.

– As meninas fortes de hoje serão as mulheres incríveis de amanhã – disse a executiva que, na infância inspirou o pai a criar a personagem que acabou protagonista da chamada Turma da Mônica. A marca principal da produtora de conteúdo infantil hoje se destaca pelo envolvimento em uma série de projetos de empreendedorismo social de cunho inclusivo, que já levaram à criação de personagens cadeirantes, deficientes visuais, com síndrome de Down e autistas.

Waldemir Barreto/Agência Senado

Waldemir Barreto/Agência Senado

Mônica destacou a importância da parceria com a ONU Mulheres, que realizou oficinas com a equipe de roteiristas envolvida no projeto Donas da Rua de empoderamento das meninas. Os dez fundamentos do projeto envolvem: empoderamento, identidade, igualdade de direitos, educação de qualidade, oportunidades, autoestima, segurança das meninas, direito à proteção e acesso a esportes e serviços de saúde.

Falsa meritocracia

Raquel Preto, representante do Grupo Mulheres do Brasil, falou sobre legislação de cotas para mulheres nos conselhos de Administração de Empresas, objeto do PL 112/2010. Ela defendeu a necessidade de instituição de uma política concreta e afirmativa que garanta a presença de mulheres em cargo de decisão, seja no setor privado seja no setor público.

Com base em exemplos nacionais e internacionais, Raquel mostrou que a presença das mulheres é prejudicada pela hegemonia de uma falsa meritocracia. Nos Estados Unidos, apenas com a introdução de “audições cegas” houve aumento da presença de mulheres nas orquestras sinfônicas, pois os selecionadores não podiam ver se o instrumentista era homem ou mulher.

No Brasil, ela referiu o caso do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que a custa de muita luta aceitou a presença de mulheres nos concursos para magistradas. Todavia, as mulheres quase sempre eram reprovadas, fator que só mudou com a proibição da identificação dos nomes dos candidatos, que permitia a identificação de gênero.

– Logo no resultado do primeiro concurso, a aprovação saltou do tradicional teto de 10% para o patamar de 42% – disse Raquel, para quem a cultura patriarcal instaurou uma falsa meritocracia, que afasta as mulheres sistematicamente e ignora que “o que faz a diferença é a força do intelecto, da vontade, da dedicação, fatores que as mulheres têm de sobra”.

Envolvimento masculino

Vice-presidente jurídica de relações governamentais da Avon, Ana Costa abordou a importância de arquétipos e estereótipos de homem e mulher que geram comportamento repetitivos e pensamentos automatizados, que precisam ser desconstruídos também com o envolvimento dos homens na conversa.

– Na empresa, há uma placa assim: ‘Mulher no volante, perigo constante – vamos conversar?’. Nesse espírito, podemos abordar outros conteúdos também: ‘Ela foi promovida, deve estar tendo caso com o chefe’ – Vamos conversar?”, exemplificou.

Uma pesquisa do Instituto Avon sobre o papel do homem na desconstrução do machismos mostra os espaços e limitações para o avanço da conversa. Entre os dados referidos por Ana, cerca de 85% dos homens considera muito importante educar os filhos para não ter comportamentos machistas, mas porcentagem significativa acha que “pega mal”, por exemplo, censurar atitudes machistas de outros homens.

Empreendedoras

Fundadora da Rede Mulher Empreendedora, Ana Lúcia Fontes abandonou o mundo corporativo em 2007 para se aventura no sonho do empreendedorismo. Segundo ela, as mulheres são 52% dos micro e pequenos empresários do país, sendo que um percentual significativo, 44% sustenta as próprias casas. Para ela, as 8 milhões de mulheres empreendedoras demandam ações afirmativas, como as políticas aplicadas nos Estados Unidos que favorecem compras de empresas dirigidas por mulheres.

A compreensão do impacto positivo do negócio feminino extrapola o sucesso individual ou o lucro financeiro.

– Quando você pergunta a um homem por que abre um negócio, ele geralmente fala em dinheiro; quando você pergunta a uma mulher, ela lhe fala de sonhos, de vontade de ter outra vida – disse Ana Lúcia.

A experiência de Ana Lúcia à frente da Rede Mulher Empreendedora levou-a também a compreender o papel do empreendedorismo na emancipação de relações abusivas.

– Quando você é dona de seu dinheiro, ninguém manda na sua vida – afirmou.

O seminário Mulheres no Poder: Diálogos sobre Empoderamento Político, Econômico e Social e Enfrentamento à Violência foi organizado pela Procuradoria Especial da Mulher do Senado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência do Senado, o Banco Mundial e a ONU Mulheres. O encontro reúne legisladores, representantes dos setores público e privado, entidades do movimento organizado de mulheres e organismos internacionais.

Da assessoria de imprensa da Procuradoria da Mulher do Senado

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