Mulheres santarenas relatam casos de violência vividos em casa (G1 – 30/07/2014)

Na semana passada, foi registrado em Santarém, oeste do Pará, o caso de uma mulher mantida em cárcere pelo próprio companheiro, que também abusava sexualmente das enteadas em uma comunidade ribeirinha. A família da vítima soube da situação após receber uma carta de uma enfermeira da comunidade Tucumatuba, que examinou a mulher e identificou indícios de agressão.

Casos de mulheres que passam anos sofrendo diversos tipos de violência se tornam cada vez mais frequentes. Em todos eles, a denúncia é a principal arma contra o agressor. E é esta atitude que muitas mulheres precisam ter para mudar a realidade.

Uma mulher que passou 23 anos casada sofrendo violência psicológica e, quando decidiu se separar, foi agredida pelo companheiro, faz parte das muitas que sentem medo de denunciar. A vítima, que não quis ser identificada, conta que com o apoio de amigos e da família, enfrentou o medo .“Você vive junto tanto tempo com a pessoa que é pai dos teus filhos e fica com medo dentro da própria casa, além de ser acusada de tudo o que não presta. Hoje eu consigo compreender porque muitas mulheres não conseguem sair da violência. A [violência] física some, desaparece, mas as palavras elas permanecem para sempre na tua vida. Me considero hoje uma pessoa feliz. Quando eu tomei a decisão de não viver mais com uma pessoa que me ameaçava, me violentava. Hoje eu sou uma pessoa feliz, tenho minha independência financeira. Hoje esse choro é um choro de desabafo”.

Uma das coordenadoras da Associação de Mulheres Domésticas, Edna Assunção, destaca a dificuldade que as mulheres passam até conseguirem denunciar. “É um momento difícil porque elas ficam com muito medo, ainda tímidas; é o medo de que o marido deixe ou o medo de que ele faça alguma coisa pior do que ele está fazendo”, explica.

Os casos tem sempre características parecidas. Outra mulher que também prefere não ser identificada e conviveu com o medo durante 26 anos de casamento, conta como ocorriam as agressões. “Uma vez nós fomos a uma festa e ele fez uma ameaça de me bater se eu saísse da mesa em que eu estava. A força de uma mulher não dá com um homem. Às vezes eu preferi ficar calada para não ficar constrangida de levar um tapa na frente dos outros”, descreve.

Para evitar a agressão, ela pediu a separação e denunciou o ex-marido. “A gente tem um B.O., eu e meu filho, porque ele disse que se a gente mandasse prender ele quando ele saísse de lá ele ia nos matar, eu e meu filho, aí eu evitei o pior e denunciei ele. Hoje a minha vida tá bem, saí de casa, comprei minha casa, vivo com meus filhos, tenho meu trabalho e estou muito bem”, conta aliviada.

Saiba o que configura violência contra mulher
Segundo a advogada e especialista em direitos de família, Ana Sarmento, “a maioria dos casos vem demonstrando que esse medo é não só do marido ou companheiro, mas o medo de enfrentar a vida sozinha, de conseguir lugar no mercado de trabalho; muitas vezes essa mulher não tem acesso à informação, à escola e ao próprio trabalho. Então por medo de morrer e de enfrentar a vida, ela se submete à violência”.

De acordo com Ana, a violência contra a mulher é descrita na Lei Maria da Penha pode acontecer de cinco maneiras: violência física, quando o companheiro descreve atos de violência contra a integridade corporal da mulher (machuca, bate e até mata); violência psicológica, quando ele humilha, ameaça, impede que ela tome decisões dentro de casa, que exteriorize seu pensamento, promove vigilância contínua; violência moral, em que o agressor calunia, difama, promove injúrias ou subjuga a mulher; violência patrimonial, quando o companheiro controla os bens da mulher, como o salário, impedindo que ela usufrua deles.

A mais grave, segundo Ana, é a violência sexual, quando o companheiro submete a mulher a práticas que ela não concorda, impede que ela engravide, ou faz com que ela aborte.

Denúncia
Em caso de agressão, a advogada orienta que a mulher ligue para o 190 ou vá a Delegacia da Mulher, para relatar os fatos e ser encaminhada para os devidos procedimentos.

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