Mulheres temem falta de segurança nas ruas e nos transportes públicos do DF  (Correio Braziliense – 15/01/2016)

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Se por um lado, as políticas públicas de combate ao assédio doméstico aumentaram, ainda faltam iniciativas que as protejam em ambientes públicos

O medo de assaltos e assédios as acompanha nas travessias por locais mal iluminados. A espera pelo transporte coletivo se transforma em guarda silenciosa da integridade física e emocional. Dessa forma, a persistência do machismo e a baixa qualidade de serviços públicos faz com que as mulheres se tornem reféns na cidade onde vivem. Se por um lado houve avanço, nos últimos anos, nas políticas públicas de combate à violência contra a mulher em ambiente doméstico, nos espaços públicos, há carência de iniciativas que as protejam. As ruas ainda são um ambiente hostil para elas.

Sentir-se insegura ao circular por vias públicas é ter garantias fundamentais, como o direito à cidade e o direito de ir e vir, violadas. Ambos estão previstos na Constituição Federal, mas são pouco aplicados no dia a dia das mulheres. Por isso, o receio de sofrer algum tipo de violência no trajeto para casa ou para o trabalho é encarado como medida natural de proteção. “Elas acabam culpabilizadas por estarem na rua com determinada roupa, em determinado horário”, destaca a assessora de Programas da ActionAid no Brasil, Gabriela Pinto. A ActionAid lançou, em 2014, a campanha Cidades seguras para as mulheres, que cobra a melhoria de serviços públicos como forma de tornar os espaços públicos mais seguros para elas.

A pesquisa realizada pela instituição mostrou que a iluminação pública precária é o principal fator ligado à insegurança da população feminina nas ruas. “A precarização dos serviços públicos têm relação direta com a maior probabilidade de a mulher sofrer violências nos espaços públicos”, diz. No levantamento, 50% das entrevistadas consideraram o serviço de iluminação ruim ou péssimo”, conta. O transporte público deficitário é outro componente para a insegurança. “Muitas estudam à noite e, se os ônibus não passam próximos de onde elas moram, não há como ir para a escola. O desenvolvimento social pleno das mulheres fica afetado”, afirma Gabriela.

Para evitar maus bocados enquanto espera a condução para ir para casa, a operadora de caixa Kríssia de Jesus Oliveira, 33 anos, recorre a subterfúgios. “Se estou sozinha esperando o ônibus, procuro ficar mais distante, próxima a uma lanchonete ou a um lugar mais iluminado. Só vou para a parada quando o coletivo está se aproximando”, diz. Para ela, a medida tornou-se um hábito, mas nem por isso é sinônimo de tranquilidade. “Tenho medo de que alguém passe e, além de me assaltar, querer fazer coisas piores”, explica.

As palavras não pronunciadas são o temor recorrente. Por “coisas ruins”, lê-se violência física e estupro.“Quando a parada está vazia, tenho medo de que alguém passe e faça algo de ruim para mim ou para minha filha”, afirma a diarista Érica Ramos Lauro, 33 anos. Moradora de Planaltina, ela vem, todos os dias, ao Plano Piloto para trabalhar. “Se estiver menos movimentado, fico preocupada. Tenho medo de assaltos, sim, mas, se me levarem o celular ou a carteira, é menos grave, porque coisas materiais a gente recupera. Meu medo é se fizerem algo a mais”, diz.

Todas por uma

A colaboração foi uma maneira de combater a insegurança nas vias públicas. Em agosto do ano passado, foi criado o movimento “Vamos juntas?”, nas redes sociais. Ele consiste em reunir mulheres que fazem trajetos semelhantes, nas cidades, para que percorram trechos mais perigosos juntas. No Distrito Federal, foi criado um grupo em um aplicativo de conversas instantâneas para que as participantes compartilhassem as informações de rotas. “Só as mulheres entendem o alívio que é estar passando numa rua escura e perceber que a pessoa caminhando atrás de você era outra mulher”, diz Suzanne Val Lima Bellanti, que administrou o grupo no Distrito Federal.

Segundo ela, ainda falta maior conscientização de que o temor é real. “A maioria dos homens com quem eu conversei a respeito simplesmente não consegue entender o motivo de as mulheres se sentirem tão inseguras em espaço público. Eles não entendem o grande medo de ser assaltada e, de repente, o cara querer algo além da carteira e do celular. Eles não entendem o constrangimento e a ofensa que é receber uma cantada na rua ou ser assediada no ônibus.” O apoio compartilhado incentiva uma corrente de empoderamento e fortalecimento. Isso porque as participantes vivenciam a sororidade (veja Para saber mais) e ampliam os efeitos dela. “Enquanto essa realidade não mudar, nós vamos precisar de outras medidas preventivas, assim como o movimento Vamos Juntas?”, defende Suzanne.

Maryna Lacerda

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