Mulheres vítimas de violência são capacitadas para o mercado de trabalho (Jornal do Comércio – 04/01/2016)

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A cada dia de 2014, 405 mulheres demandaram atendimento em uma unidade de saúde por alguma violência sofrida. Os dados são do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, que registra os atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) e foram divulgados no Mapa da Violência de 2015. A violência física foi a que registrou uma maior incidência, representando 48,7% dos atendimentos, seguida da psicológica (23%) e da sexual (11,9%). Ainda segundo o estudo, o ambiente doméstico é o local de maior ocorrência de violência não letal, representando 71,9% dos casos. O número evidencia outro dado importante: parentes, parceiros, ou ex-parceiros são os responsáveis por boa parte das agressões (67,2%), sejam elas letais ou não.

Resultado das relações de poder construídas socialmente, a violência doméstica se caracteriza, muitas vezes, por longos ciclos que se agravam com o tempo, já que muitas mulheres acabam por não denunciar seus companheiros e suportam caladas as agressões. De acordo com Madgéli Frant Machado, juíza do 1º Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, tem influência nesse ciclo o fato de que muitas delas são dependentes economicamente de seus companheiros, seja por terem abandonado suas profissões para se dedicarem ao lar e aos filhos, ou por nunca terem entrado no mercado de trabalho.

As legislações específicas de proteção à mulher têm ajudado a denunciar as agressões. Em 2006, entrou em vigor a Lei nº 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, com o objetivo de coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher e de estabelecer punições rigorosas aos agressores. Em março de 2015, foi sancionada a Lei nº 13.104/2015, a Lei do Feminicídio, classificando-o como crime hediondo e com agravantes em determinados casos.

Por outro lado, iniciativas buscam auxiliar vítimas de violência doméstica, como a desenvolvida pelo Judiciário gaúcho, desde o início de novembro do ano passado em parceria com o Senac Comunidade, que oferece oficinas de capacitação e preparação de mulheres para o mercado de trabalho. De acordo com Madgéli, há dois anos os juizados de violência doméstica da capital vêm atuando por meio de grupos de apoios a mulheres vítimas e, ao longo desse período, foi identificada a necessidade de auxiliá-las no processo de independência em relação aos companheiros. “Dentro do trabalho desenvolvido, nós percebemos que precisávamos avançar na questão da autonomia e do empoderamento dessas mulheres. Muitas delas acabaram não se profissionalizando e não sabiam como chegar até o mercado”, conta Madgéli.

Para participar das capacitações, as mulheres têm de ter algum processo em tramitação e devem frequentar também o grupo de apoio. Os encontros e as aulas acontecem todas às terças-feiras, na parte da tarde. “O que priorizamos é que essas mulheres também façam parte do acolhimento, que é a primeira parte onde nós atuamos para que elas recuperem a autoestima e lutem por sua independência”, aponta a juíza.

A primeira turma conta com aproximadamente 20 mulheres, que debateram e escolheram em conjunto quais seriam as oficinas ofertadas no primeiro ano do curso – a estimativa é de que a primeira edição da formação aconteça até novembro de 2016. “As aulas vão desde marketing pessoal, com o auxílio na preparação de um currículo próprio, até noções de informática básica”, conta Laci Hoffmann, multiplicadora socioambiental e docente do Senac RS. Ela conta que as aulas sempre são ministradas por mulheres, para que as alunas se sintam mais a vontade, e que as professoras também passam por uma sensibilização prévia. “É o primeiro trabalho do Senac nesse sentido e nosso interesse partiu principalmente por nos vermos no lugar dessas mulheres violentadas. Qualquer uma de nós poderia estar ali”, acredita.

Para Madgéli, a expectativa é de que esta seja a primeira parceria firmada entre as duas instituições e que novas edições do curso sejam promovidas. “O acolhimento já era extremamente importante, mas elas tinham que buscar a profissionalização fora daqui. Agora, elas já sobem esse degrau aqui dentro e saem ainda mais fortalecidas”, acredita.

Equidade de gênero é realidade distante

Apesar do aumento de mulheres no mercado de trabalho nas últimas décadas, a equidade com os homens pode levar até 80 anos, segundo o Relatório Global de Equidade de Gênero, do Fórum Econômico Mundial. Para tentar diminuir esse tempo, equivalente a uma geração, pesquisa feita com líderes de 400 empresas ao redor do mundo indicou que três medidas prioritárias podem ser tomadas. Todas relacionadas ao engajamento da corporação na estratégia.

As medidas constam do estudo Women Fast Forward, feito pela consultoria Ernst & Young (EY). O trabalho indica como prioridade: “Iluminar o caminho para a liderança feminina, acelerar a mudança na cultura empresarial com políticas corporativas progressistas e construir um ambiente de apoio”, alicerçado no combate ao preconceito “consciente e inconsciente”, para aumentar o ritmo das empresas rumo à equidade.

De acordo com Tatiana da Ponte, sócia de Impostos da EY no Brasil, uma das principais vantagens da paridade é o ganho financeiro. Entre as empresas pesquisadas, 64% daquelas com melhores resultados econômicos encorajam suas funcionárias. Isso se deve, segundo ela, ao aumento da participação na tomada de decisões e favorece a visão global. “Não é porque a visão global é mais da mulher ou do homem. É porque o aumento da participação gera diversidade. São opiniões diferentes subsidiando as decisões”, explica.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima em 81 anos prazo para se atingir equidade de gênero na economia. Para desenvolver as estratégias, Tatiana esclareceu que é preciso definir oportunidades de progresso na carreira e dar exemplos. “Não adianta defender a diversidade e não ter mulheres nos conselhos, na direção”, disse. “As funcionárias precisam se ver nesses cargos para acreditar que dá para chegar lá”, completa.

Outra medida, segundo ela, é a flexibilidade na carga horária, adotando prazos mais longos, por exemplo, para licença maternidade ou paternidade. “Estamos caminhando para um momento em que não só a mulher tem que achar espaço no mercado de trabalho, o homem também tem que achar um espaço na família. Quando a divisão de tarefas for mais igual para os dois lados, todo mundo ganhará, principalmente os filhos. A presença mais atuante do pai na formação dos filhos nos dá crianças mais fortes”, afirma.

Luana Casagranda

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