Mulheres vítimas do descaso (Correio Braziliense – 07/08/2014)

As mortes em série que chocaram Goiânia podem ser incluídas em um contexto mais complexo de impunidades. Além da sequência de 12 execuções por motociclistas armados, a cidade convive com um cenário alarmante de feminicídio: apenas na capital, 45 mulheres foram assassinadas desde janeiro. O número é maior que o contabilizado durante todo o ano passado, quando 46 pessoas do sexo feminino foram mortas. Falta de Delegacias Especializadas de Atendimento à mulher, estruturas precárias e machismo no Judiciário estão entre os motivos apontados pelo Fórum Goiano de mulheres para o aumento da violência. Hoje, dia em que se comemora o 8º ano de sanção da Lei Maria da Penha, mulheres vão às ruas da cidade protestar por mais segurança e um cortejo promovido pelo fórum homenageará as vítimas dos crimes cometidos por motociclistas.

Dos 45 assassinatos do ano, a Polícia Civil só conseguiu desvendar 11. Entre estes casos, há quatro latrocínios. Segundo a articuladora de comunicação do fórum, Ariana Tozzatti, a uma enorme falta de transparência sobre o orçamento repassado ao combate à Violência Contra a mulher. “O Estado não divulgou o orçamento. Isso dificulta muito o acompanhamento sobre a execução das ações”, diz. Outra crítica feita por Ariana se refere a falta de integração entre as polícias. “O sistema é lento. A burocracia e a precariedade impedem que ele funcione direito”, avalia. Para ela, se houvesse mais interatividade, seria possível identificar a relação entre os casos mais cedo. Nesta semana, outros seis crimes foram incluídos na lista das investigações de execuções feitas por um suspeito em um moto.

Em nota, a entidade aponta ainda outras deficiências no sistema de proteção às vítimas. “A não aplicação efetiva dos direitos conquistados: delegacias da mulher (DEAMs) e IML com estruturas precárias e insuficientes; não implementação dos serviços de atendimento às mulheres em situação de violência; lentidão e machismo no Judiciário”, destaca trecho do documento. Para a entidade, não é um serial killer o autor dos homicídios em Goiânia e, sim, a bagunça na segurança pública do estado que tem permitido a série de assassinatos, a impunidade e “o sacrifício de toda a população”.

De acordo com o Mapa da Violência divulgado no ano passado, Goiás é o segundo estado com maior número de mortes de pessoas do sexo feminino, entre 15 e 24 anos, com uma taxa de 8,5 assassinatos a cada 100 mil mulheres. A unidade da Federação só perde para o Alagoas, considerado o estado mais violento, com taxa de 9,2 vítimas. O estudo também mostrou que, entre os jovens dessa faixa etária, as meninas foram as principais vítimas de assassinatos. De 2001 a 2011, o índice de mortes femininas cresceu 17,2% e 49 mil brasileiras foram executadas no período.

Cruzes

De acordo com o número de confirmações por meio de uma rede social, cerca de 500 pessoas participarão do protesto de hoje. A mobilização começa às 8h, no centro administrativo de Goiânia. A programação inclui uma caminhada até o Palácio das Esmeraldas, com gritos de palavras de ordem. As manifestantes carregarão 12 cruzes para marcar as vítimas mais recentes da violência e farão denúncias a respeito da falta de transparência nos recursos voltados para a área. Outras manifestações também estão previstas – a maior delas será no sábado, com previsão de 34 mil pessoas.

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