Na Argentina, 60 mil mulheres marcham contra a violência (Carta Maior – 12/10/2015)

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Durante encontro nacional realizado em Mar del Plata, polícia local – comandada por integrante de coligação de direita que disputa eleição de 25 de outubro –, reprime manifestantes com brutalidade

Para suportar o luto, foram à luta. Com a memória imediata de dois feminicídios ocorridos nos últimos dois dias, uma ativista atacada por um grupo de skinheads e a denúncia de um estupro sofrido por uma das participantes, enquanto dormia em um campus universitário, as milhares que foram à cidade de Mar del Plata realizaram a maior marcha de mulheres da história da cidade, com a mesma convicção, expressada de diferentes formas, a partir de distintos imaginários, que confluem na mesma consigna: “BASTA!”. A cidade sentiu a ira que nasceu quando a multidão de mulheres foi às ruas mesmo sem ter autorização, enquanto a polícia mostrava seus movimentos de patrões da via pública, intimidando as manifestantes que tinham os corpos pintados, tolhendo a criatividade dos cantos, o som dos tambores, a admirável organização das mulheres, sua persistência. Ontem à noite, foi impossível ignorar as 60 mil mulheres de toda a Argentina, unidas para pensar sobre sua luta e buscar uma maneira de construir alternativas para assegurar seus direitos e sua autonomia. E o contraste entre esse entusiasmo e a violência vista em diferentes episódios de repressão que os soldados impuseram como forma de retaliação mostra um pouco os ares da época em que vivemos, as tensões que se produzem num sistema patriarcal que se torna invisível quando suas mazelas são naturalizadas, quando se insiste na ideia de que há lugares pré-determinados para meninos e meninas – e o que foge dessa regra é considerada uma deformação que não necessariamente deve ser tolerada –, que as pessoas vulneráveis precisam imaginar em conjunto suas próprias respostas, desejos, limites. As dezenas de milhares de participantes do XXX Encontro Nacional de Mulheres marcharam na noite deste domingo, para dizer “NÃO”. Não à violência machista, não à alienação dos corpos negando o direito a decidir sobre eles, não às iniquidades que suprimem os direitos das mulheres. E também para dizer sim às suas próprias decisões livres e autônomas. Não passaram desapercebidas, o coração de Mar del Plata foi preenchido pelas colunas que marcharam juntas até chegar ao centro, e que logo se espalharam pelas vielas mais estreitas. Algumas chegaram até a mítica Praia Bristol, outras foram até a Catedral, onde estavam as cruzes dos militantes católicos, que saíram dali como vândalos, para atacar as ativistas, num conflito que terminou com a detenção de uma manifestante dentro do templo, gases lacrimogêneos e balas de borracha que impactaram em alguns corpos. Algo completamente inédito nos Encontros de Mulheres, onde sempre se sentiu a resistência conservadora, mas nunca na forma de violência institucional, como desta vez.

O XXX Encontro Nacional de Mulheres (ENM) termina hoje, depois de dois dias intensos de debates, em 65 painéis de discussão, que abordaram quase todos os temas ligados à vida das mulheres, heterossexuais, lésbicas e trans, além de outras atividades paralelas que tiveram seu epicentro na Praça Mitre, e que congregaram as milhares de mulheres que foram conhecer mais sobre as lutas de feministas de toda a América Latina, trocar experiências sobre suas trajetórias na organização feminista popular, ou simplesmente para escutar as histórias de uma combatente do exército curdo que luta contra o Estado Islâmico, mas também “contra a nossa própria formação patriarcal, contra nossas próprias práticas viciadas”, como eu disse, enquanto era traduzida em simultâneo numa rádio aberta que promoveu uma dezena de programas feministas, emitidos por vários meios alternativos. Mas esse panorama se tornou mais obscuro quando a repressão tomou conta das ruas em frente à porta da Catedral, lugar emblemático de cada cidade onde o Encontro de Mulheres se reúne, onde as participantes manifestam sua desconformidade com o modo pelo qual a Igreja Católica pretende condicionar a vida de todas com seu dogma. Ao menos cinco mulheres jovens foram arrastradas pela polícia para dentro do templo católico e lá ficaram retidas. Outras das manifestantes mostraram os impactos de balas de borracha em diferentes partes do corpo – uma delas foi a jornalista do caderno “Soy”, do diário Página/12, outra com uma ferida no rosto, próxima aos olhos. Nos trinta anos de Encontros de Mulheres, nunca se havia visto disparos contra as manifestantes, apesar da tradição do encerramento do evento em frente a catedral da cidade-sede. E nunca havia acontecido, como agora, a detenção de um grupo de mulheres dentro de uma igreja, algo que se parece mais com uma forma de prisão ilegal e abuso de autoridade do que com a intenção de dispersar uma manifestação.

Como se os dois feminicídios que se aconteceram enquanto as dezenas de milhares de mulheres de todo o país debatiam sobre suas trajetórias, suas resistências, alianças e vulnerabilidades não tivessem sido violência suficiente, como se não fosse possível entender de que modo a consigna “Nenhuma Menos” é atualizada a cada dia, apesar da impotência de saber que a contagem de vítimas não termina nunca, o clima supostamente feliz na cidade passou a ser hostil durante todo o fim de semana, especialmente contra as que foram ao Encontro. Os murais pintados para saudar estas três décadas de Encontros foram cobertos de provocações fascistas, alguns homens contrariados se meteram na marcha, dispostos a criar confusão e até mesmo a agredir, verbal ou fisicamente, as mulheres que pintavam os corpos nas calçadas. Durante a tarde, um desses grupos machistas atacou as ativistas do grupo Socorristas em Rede – uma organização que presta assistência às mulheres que necessitam abortar e não conseguem ajuda nos hospitais públicos – com socos e bastões de madeiras, num local próximo à praça. Também foi registrada uma denúncia de uma mulher, que teria sido estuprada durante a noite de sábado, embora os detalhes dessa informação não tenham sido checados, apenas se sabe que a mulher foi internada no hospital local.

A marcha durou cerca de três horas e encheu a cidade de bandeiras e cantos antipatriarcais: “apesar de tudo, fizemos o Encontro”. Porque as mulheres estão empoderadas, porque sabem que o corpo que vai às ruas faz a diferença e que existe um capital político que ganhou força desde o dia 3 de junho (quando se realizou a primeira manifestação multitudinária do movimento “Nenhuma Menos”) que é necessário capitalizar. Por isso, a consigna a favor do direito ao aborto ataca a criminalização e a clandestinidade como uma forma de violência contra as mulheres, e que, assim como os feminicídios, pode terminar em morte, sobretudo no caso das mulheres pobres. Dessa forma, as lutas se renovam, se potenciam e convergem num único grito de guerra: “BASTA!”. A este “BASTA!” também se referem aos elementos de coerção que, como acontece com todo sistema de dominação, permitem a subsistência da violência machista que sustenta o patriarcado.

Apesar de tudo isso, o ENM saiu fortalecido. Nunca, como antes houve tantas mulheres que vieram a se encontrar com outras. Hoje, além da conclusão dos distintos debates, também será designada a próxima sede. Também será divulgada a esperada declaração contra a repressão sofrida na noite de ontem, que teve como testemunha privilegiada, junto com os grupos católicos reunidos na catedral, o dirigente político Carlos Pampillón, líder de ultradireita que possui fortes vínculos com Carlos Arroyo, o candidato que venceu as primárias regionais em Mar del Plata, e que pertence à coligação Cambiemos (Mudemos), a mesma do presidenciável da direita argentina, Mauricio Macri.

Marta Dillon; Tradução: Victor Farinell

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