Nadine Gasman: ‘Não há país em que a igualdade seja realidade’ (O Globo – 03/07/2015)

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Mexicana com nacionalidade francesa e representante do escritório ONU Mulheres no Brasil veio ao Rio à convite do GNT para campanha #ElesPorElas

“Nasci há 57 anos na Cidade do México, sou filha de francesa e tenho dupla nacionalidade. Tenho dois filhos e uma filha. Fiz meu doutorado em Políticas de Saúde nos EUA. Entrei na ONU em 2005 e, entre os cargos, dirigi a Campanha do Secretário-Geral da ONU pelo Fim da Violência Contra as Mulheres”

Conte algo que eu não sei

Não há país no mundo em que a igualdade universal de gênero seja uma realidade. Existe essa ideia de estarmos avançados, mas as piadas, o assédio e a desigualdade estão lá.

A Dra. Nadine Gasman, representante do Escritorio da ONU Mulheres no Brasil afirma que uma das metas do projeto é alcançar a igualdade entre os dois gêneros antes de 2030. (Foto: Leo Martins / Agência O Globo)

Muito se fala sobre a violência física. E a violência psicológica, que peso tem?

Há países em que até 50% das mulheres relatam sofrê-la. Vem acompanhada de violência sexual, patrimonial, física… é tão naturalizada que parece normal, não nos damos conta de que é violência, mas há cicatrizes profundas. Já vi mulheres em estados lastimáveis sem jamais terem sido tocadas pelos seus parceiros. E esse tratamento ocorre em todas as classes sociais, religiões e nacionalidades. Tem a ver com a construção social de ser homem e ser mulher.

Você trabalha com questões da mulher desde 2000. Quais os próximos passos?

Algo importante para a ONU Mulheres é destacar que as mudanças precisam ser mais rápidas. No ritmo atual vamos demorar 80 anos para ganhar o mesmo salário que os homens. Temos uma de alcançar um planeta mais igualitário antes de 2030. Como diz Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora da ONU Mulheres que lutou ao lado de Nelson Mandella: “Mudamos o apartheid. Agora temos que acabar com o patriarcado”.

Mulheres em cargos de chefia com postura masculina: como mudar isso?

É fácil: é só fazer com que, em vez de haver só uma mulher no poder, haja muitas (risos). As mulheres chegam em cargos poderosos em ambientes tão masculinos, e passaram por tantas dificuldades, que terminam deixando de lado o lado mulher. Muitas têm aberto o caminho para outras, mas não se abriu o caminho para sermos nós mesmas, deixando que os homens se sintam à vontade sendo eles.

Antes da ONU, você lidou com questões como o aborto, um tema muito delicado no Brasil. O que tem a dizer que ajude a enfrentá-lo?

O tema vem de uma discussão sobre a saúde reprodutiva, o direito de decidir, da prevenção da gravidez através da educação sexual, dos métodos contraceptivos. Essa discussão tem que ampliar-se para prevenir a mortalidade pelo aborto. É um tema de saúde pública, de direitos humanos e uma decisão dos países. Mas tem que ser avaliado sem se perder de vista que está custando a vida das mulheres.

Como se sente no Brasil?

Conheci o Rio no final dos anos 1980 e pensei: “Puxa, gostaria de ter nascido aqui”. É o único lugar do mundo sobre o qual eu digo isso. O Brasil é grande, diverso e generoso com o estrangeiro. Estou contente de estar num lugar com tantas possibilidades, de grandes problemas, mas grandes soluções.

França ou México?

Minha mãe era francesa e bem francesa no comportamento. Então adquiri muito dessa cultura na vida pessoal e na educação. Falo francês, curto a cultura francesa, mas, quando se trata de minha dupla nacionalidade, toda vez que alguém me pergunta o que eu sou, eu penso “mexicana”, sempre mexicana.

Qual sua visão das políticas daqui face às mulheres?

Gosto do jeito de se fazer políticas públicas no Brasil, em que se começa com um processo de consulta. Para vocês isso é supernatural. Mas não, é inédito.

Sério?

As políticas normalmente são feitas pelos ministérios e pronto, com alguns diagnósticos de especialista. As pessoas ao fazer política pensando em gênero tentam elaborar ações complicadas, mas basta fazer a pergunta “Que impacto isso tem para as mulheres?” ou “Como será para eles e para elas?”, e responder, Da mesma forma que devemos perguntar se algo será igual para negros e brancos, jovens e adultos….

Cibelle Brito

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