No me grites: palestra discute a violência de gênero (TJMG – 03/12/2015)

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“Desde tempos imemoriais, a mulher sofre violência. Considerada inferior, sempre coube a ela obedecer em tudo, sem nunca questionar”. Com essa afirmação, a narradora cubana Mirta Portillo deu início à palestra “No me grites”, realizada na manhã desta quinta-feira, 3 de dezembro, pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), por meio da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Comsiv). O evento integra a terceira semana Justiça pela Paz em Casa, realizada em todo o país. Mirta falou aos participantes, um público quase integralmente feminino, sobre a violência de gênero, suas possíveis causas e ferramentas de mudança.

A narradora cubana Mirta Portillo falou sobre violência de gênero (Foto: Marcelo Albert)

A narradora cubana Mirta Portillo falou sobre violência de gênero (Foto: Marcelo Albert)

Mirta Portillo apresentou textos diversos, de filósofos, políticos e religiosos que defenderam e legitimaram, ao longo dos séculos, a submissão feminina, explicando que para mudar este cenário, era necessário confrontá-lo. A palestrante falou sobre a diferença entre o conceito de sexo, biológico, e o de gênero, construído socialmente, destacando que modificar tais significados cabe a todos nós, inclusive mulheres, que se ocupam da criação de meninos e meninas e devem observar o seu comportamento para que não reproduzam em casa a discriminação que enfrentam em seu cotidiano.

“Muitas vezes, acreditamos que a violação acontece apenas quando uma mulher é tomada à força na rua, por um estranho, violentada por ele. Mas há violação também quando uma esposa é obrigada a se relacionar com seu marido contra sua vontade, apesar do cansaço imposto por sua dupla ou tripla jornada, apenas para satisfazê-lo”, analisou Mirta, indicando ainda que há violências cotidianas, muitas vezes não reconhecidas como tal, e que marcam ainda mais, levando a mulher a desacreditar de si mesma. A narradora destacou como exemplos da violência e controle psicológico a crítica às roupas, fala ou modo de caminhar; controle de saídas e isolamento social; menosprezo ao conhecimento e opiniões; ridicularização; convencimento de que a vítima é responsável pelo ato violento ou pelos problemas familiares, entre tantas outras situações. “As marcas físicas somem. As psicológicas permanecem, seguem com a mulher, até que ela se convença de que ela é quem está errada, que não é boa ou bonita o suficiente”, refletiu a artista.

Mirta Portillo destacou ainda os receios que levam a mulher a permanecer na situação de opressão, especialmente em nome da proteção dos filhos ou pela esperança na mudança do parceiro. Falou ainda sobre o complexo de culpa, a autoestima comprometida e o receio à dificuldade econômica. “O agressor sabe que a mulher tem medo, que está disposta a se sacrificar por seus filhos. Ele se aproveita disso”, reforçou. Para encerrar o ciclo de violência e recomeçar, a narradora enumerou algumas ferramentas: como o respeito a si mesma, a busca por conhecimentos, a independência financeira, a coragem de buscar apoio para a reconstrução da autoestima e a denúncia. “E que possamos ensinar desde cedo aos nossos filhos, para que cresçam acreditando na igualdade”, finalizou.

Mirta Portillo

Narradora oral, com formação em teatro e educação, Mirta Juana Portillo Barnet é uma artista cubana, reconhecida internacionalmente por seu trabalho e por sua experiência de vida. Durante 25 anos, Mirta foi casada e sofreu as consequências de uma relação de violência psicológica. Somente quando ficou viúva, aos 50 anos de idade, ela pode se dedicar à vida artística, onde buscou apoio, conhecimento e autorrealização.

Mirta Portillo já levou seus contos e aprendizados à Colômbia, Suíça, Itália, Espanha e México e está pela primeira vez no Brasil. Em 2015, a narradora lança seu primeiro livro, “Una mujer como yo”, com textos que falam sobre o amor e o erotismo descobertos na fase madura da vida.

Justiça pela Paz em Casa

Durante esta semana, o TJMG, por meio da Comsiv, realiza a semana Justiça pela Paz em Casa, com um esforço concentrado em todo o Estado pela realização de audiências e julgamentos dos processos relacionados à violência doméstica. O objetivo é promover a pacificação desses conflitos de forma mais célere.

Essa é a terceira vez que a Justiça mineira participa da campanha Justiça pela Paz em Casa, proposta pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A primeira começou em 8 de março, data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, e, em Minas Gerais, se estendeu pelo mês inteiro. A segunda foi em agosto, mês em que a Lei Maria da Penha comemorou oito anos de vigência. Conheça o trabalho da Comsiv.

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