“Nosso trabalho na Vara é romper o ciclo de gerações de violência”, declara assistente social de Rondônia (G1 – 26/11/2015)

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Em 2014, mais de 50 mil denúncias foram registradas em relatório nacional. Cerca de 80% das denunciantes tinham filhos que presenciaram agressões.

As crianças são as principais vítimas em ambientes em conflito familiar e violência doméstica. A declaração é da assistente social, Maria Inês Soares de Oliveira, que atua no Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher em Porto Velho desde que a Lei Maria da Penha foi implementada, em 2006.

Em 2014, a Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República (SPM) registrou 52.975 denúncias contra mulher no Brasil, sendo 383 registros originados de Rondônia que ocupou o 17º lugar no ranking de capitais que recorreram ao serviço. Uma porcentagem chama atenção no relatório: de todas as denúncias registradas no país, 80% das mulheres agredidas tinham filhos que chegaram a presenciar as agressões ou foram vítimas diretas da agressão. Desse total, 64,35% das crianças presenciaram a violência e 18,74% foram vítimas direta juntamente com a mãe.

Leia mais: Mais de 400 mil crianças não denunciam abusos, diz estudo (Terra, 25/11/2015)

Entretanto, a violência vai além da física. Traumas psicológicos e sociais oriundos da naturalização da violência ou, até mesmo alienação parental, quando os pais inserem a criança no conflito conjugal, entram na lista de problemas. “Há casos em que os pais utilizam o filho como barganha. Outros nunca exerceram a paternidade plenamente antes de serem afastados da família pela medida protetiva e querem usar o afastamento como medida para voltar ao lar. Tudo isso é analisado pela Vara”, relatou.

Alguns já usam a criança como forma de ameaça a mulher violentada. Foi o caso de uma mãe que preferiu não se identificar. O ex-marido não aceitava o término da relação e determinado dia invadiu a casa da ex e quebrou diversos móveis, além de uma motocicleta. Para completar, rendeu a filha da vítima que tem onze anos com uma faca no pescoço.

A menina não é filha do homem e ficou traumatizada com o ocorrido. Mas a situação serviu como força para a mãe denunciar o ex-marido definitivamente. “Tenho receio, mesmo com a medida protetiva, por mim e minha filha. Mas acredito que dessa vez vamos ficar em paz”, relatou a mulher. Segundo ela, a partir do momento que a situação chega até os filhos, é preciso ter força de vontade em denunciar.

Crescer em ambientes violentos pode gerar mais violência, segundo a assistente Maria Inês. Ela observa que além dos prejuízos sociais e psicológicos que as crianças sofrem, uma realidade é preocupante: a violência doméstica ultrapassa gerações.”A grande maioria de vítimas e agressores vítimas de violência doméstica, vieram de ambientes familiares com conflitos”,  disse.

A assistente social acrescenta ainda que a violência doméstica é transgeracional e se reproduz de pai para filho. “Nosso trabalho na Vara, além da aplicação da Justiça é romper o ciclo de gerações de violência”, declarou a assistente.

Existe luz no final do túnel, segundo a assistente. Para ela, é necessária a efetiva criação de políticas públicas para as famílias. A Vara de Violência contra a Mulher em Rondônia já desenvolve projetos destinados a mães e pais que vivem em contexto de violência doméstica. Entretanto, esses projetos são voltadosa a quem já tem processo criminal por violência no Tribunal de Justiça.

O município oferece ajuda à mulheres que sofrem violência, mas que não têm coragem de denunciar. O Centro de Referência Especializado ao Atendimento à Mulher Vítima de Violência (Creas Mulher) atende mulheres em situação de vulnerabilidadee oferece assistência social, direcionamento jurídico e atendimento psicológico. O centro fica ao lado da Maternidade Municipal, na rua Venezuela, nº 2360, bairro Embratel, em Porto Velho.

Ísis Capistrano

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