Olhar policial em casos de violência contra mulher é tema de livro lançado por PMs do DF

Militares de três estados também participaram de coletânea. ‘Nós, mulheres, somos iguais nesse aspecto’, diz capitã de Brasília que escreveu capítulo sobre feminismo.

A cada dia, 45 denúncias de violência doméstica são registradas, em média, no Distrito Federal. Em todo ano passado foram 16.549 casos de mulheres agredidas física e psicologicamente. Na outra ponta, policiais militares que atuam nas ruas são treinados para conter o agressor e orientar as vítimas sobre os canais de ajuda.

Em meio aos militares, a capitã Danielle Alcântara, de 37 anos – sendo 17 deles na PM– esteve presente em uma série de atendimentos a meninas e mulheres espancadas, abusadas sexualmente e até assassinadas. Danielle decidiu contar, em livro, a experiência de ser uma “policial feminino” nas ruas (veja detalhes abaixo).

A capitã, que atualmente trabalha na Subchefia de Políticas Sociais e Primeira Infância, é doutora em sociologia da violência pela Universidade de Brasília (UnB) e integra uma lista de 18 coautores da coletânea “Feminicídio, Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher“.

A obra foi lançada no fim de janeiro e reúne militares de três estados e do DF. O trabalho aborda as nuances da violência sob a ótica policial.

“Usamos dados do panorama nacional a partir do Mapa de Violência Contra a Mulher. Os números evidenciam como o fenômeno cresce”, disse a capitã. “Reunimos relatos de policiais desde o atendimento às vítimas à prisão dos agressores”, explica.

“A violência é um fenômeno que atinge a todas, sem diferença de classe. […] Quando a PM chega, o estado emocional das vítimas é o mesmo. Nós, mulheres, somos iguais nesse aspecto… E é valoroso ter esse olhar.”

Policiais nas ruas

Em um dos capítulos do livro, a capitã Danielle refaz a linha do tempo desde os primórdios do movimento feminista no Brasil até a criação das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deam). No meio do caminho, ela cita a entrada em vigor da Lei Maria da Penha.

“Antes, a violência era reconhecida como algo de foro íntimo, briga de marido e mulher”, diz. “Mas o movimento feminista, que começou estigmatizado e radical, desembocou no que temos hoje como posicionamento de governo”.

“Graças a essas movimentações, que foram desvalorizadas em algum momento, hoje temos o Estado sendo cobrado para abordar essa pauta e atuar.”

Ao G1, a capitã também relembrou os quase 10 anos de atuação nas ruas da capital e como o fato de ser uma policial mulher foi importante na abordagem às vítimas. “Somos treinadas para identificar outros tipos de violência, que não só a física”.

“É um trabalho sensível, de escuta dessas mulheres, de atendimento e acompanhamento jurídico.”

Entre os casos marcantes, a PM cita o de uma mulher morta a facadas pelo companheiro, em 2016, no Gama. “Ao entrar no barraco, me deparei com quatro crianças ensanguentadas chorando em cima da mãe”.

Em outro momento, dois anos depois, a capitã ajudou a prender um outro agressor. O homem havia matado a mulher a tiros, dentro do carro onde também estavam as filhas – duas crianças de 4 e 6 anos.

“Perguntei para o agressor por que ele tinha feito aquilo. Ele me disse que era porque a mulher ‘falava demais’. Isso é triste.”

Violência psicológica

Em outro capítulo do livro, a narrativa é comandada pela tenente Morena Barbosa, de 33 anos. Há nove anos na PM do DF, a militar eternizou em palavras as experiências de ronda nas ruas em casos de agressões contra mulheres.

Em meio às lembranças, ela destaca que a violência psicológica, que não deixa marcas, é igualmente cruel. “Ela destrói a estrutura emocional e afeta a percepção da vítima sobre a realidade”, explica.

“Quando o agressor destrói o emocional, o prejuízo é para o resto da vida.”

A policial também chama a atenção para a atuação de PMs mulheres nas abordagens. “Acredito que a mulher policial militar traz uma percepção diferente”, diz.

“Colocando uma policial mulher em ocorrência de Maria da Penha cria-se um nível de segurança diferenciado pra vítima”, aponta. Como exemplo prático da relevância do trabalho, a tenente Morena relembra situações em que se viu frente a frente com a vítima e, ainda sim, ouviu da mulher agredida que não gostaria de denunciar o marido.

“Nesses casos, a gente não consegue trabalhar diretamente com ela [vítima], mas nós conversamos com a mãe, para encaminhá-la ao CRAS [Centro de Referência de Assistência Social] e receber apoio do Provid [Prevenção Orientada à Violência Doméstica].

“A percepção do policial sobre a vítima muda demais depois que se toma consciência da existência da violência psicológica.”

Por Marília Marques, G1 DF

Acesse no site de origem: Olhar policial em casos de violência contra mulher é tema de livro lançado por PMs do DF (G1/DF – 16/02/2020)