“Os homens precisam comprar briga pelo fim da violência contra a mulher”, defende Jackson Katz (Revista Veja – 10/01/2016)

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Para o educador americano, o fim da violência contra a mulher é uma urgência e impacta até a economia – a igualdade entre os gêneros incrementaria o PIB mundial em 28 trilhões de dólares até 2025

O americano Jackson Katz, 55, é um homem feminista – definição que lhe agrada. Dedica praticamente todo o seu tempo a combater a violência contra a mulher e a promover a igualdade entre os gêneros. Mestre em educação pela Universidade Harvard e doutor em estudos culturais pela Universidade da Califórnia, foi um dos criadores, em 1993, do Mentors in Violence Prevention, um dos mais influentes programas de prevenção contra o assédio e o abuso sexual nos Estados Unidos. Em 1997, idealizou o primeiro projeto de prevenção à violência de gênero da história dos marines americanos. Katz – casado e pai de um filho – já prestou consultoria à Organização Mundial da saúde e ao Exército americano. Autor de dois livros sobre o tema, ministrou mais de 2500 palestras em escolas, universidades e empresas nos EUA e no exterior. Em visita ao Brasil, falou a VEJA.

O que leva um homem a atacar uma mulher?

Gosto de dizer que não é um comportamento que se aprende, mas que se ensina. Pode não parecer, mas há uma diferença aí. As informações passadas pela sociedade constroem hábitos, parecem autorizar determinadas posturas. Pais e mães, a cultura esportiva, a pornografia, a religião, a educação  – tudo isso contribui para alimentar as agressões. Não há a defesa explícita da violência contra as mulheres, salvo aberrações. O.k., mas… Em um evento do qual participei no Brasil, a empresa de cosméticos Avon divulgou um estudo que mostrava que 20% das universitárias brasileiras já receberam comentários com conotação sexual de algum professor. Precisamos nos questionar: o que faz com que um menino amável na infância bata em sua namorada na adolescência? Tem a ver com genética ou com a forma como educamos as crianças?

Devolvo a pergunta: é genética ou educação ?

O que vemos ao estudar o assunto é que não se trata de características individuais. É ingênuo pensar que vamos resolver esse problema lidando com os casos individualmente, tentando encontrar o que há de errado no cérebro da pessoa ou procurando a resposta na genética. É preciso questionar a forma como definimos a masculinidade e como essa definição transforma os homens.

Tanto homens quanto mulheres devem, de modo equânime, zelar para pôr fim às agressões?

Os homens é que estão praticando essa violência, portanto, cabe a eles acabar com ela. A violência contra a mulher e a desigualdade entre os gêneros não são questões femininas. São masculinas, já que os homens formam o maior grupo que pratica essa violência. As estatísticas mostram que, nos Estados Unidos, uma em cada seis mulheres já foi vítima de estupro ou de uma tentativa de estupro. No caso dos homens, esse número cai para um em cada 33. Se partimos do pressuposto de que esse assunto concerne somente às mulheres, fica fácil culpar a vítima e levantar dúvidas como: “que roupa ela estava usando?” ou “ela o provocou?”. Se encararmos essa questão como um problema masculino, precisaremos responder a outras perguntas: “o que leva a isso?”, “a agressão é uma questão biológica ou cultural?”.

Parece ser cultural, não?

Sim, mas o fato de existir uma origem cultural, à exceção de casos de anomalias médicas, nos impõe ainda mais responsabilidade de mudança. As pessoas pensam que é preciso algum incidente trágico para que um homem se engaje na luta contra a violência de gênero. Isso só mostra quão desafortunada é a situação da mulher. Afinal, não precisa haver uma tragédia para que um ambientalista vire um ambientalista. Eu comecei a me envolver quando era um estudante universitário. Estava curtindo a liberdade longe da casa dos meus pais e voltando de festas tarde da noite. Segurança não era uma preocupação para mim, mas via que as minhas vizinhas estavam sempre preocupadas em conseguir uma carona para voltar para casa. Lembro-me de que as mulheres se organizaram para exigir melhor iluminação no câmpus, porque haviam ocorrido casos de estupro ali. Achei estranho o fato de não haver homens protestando.

De sua recente visita ao Brasil, o que mais chamou atenção nesse campo da violência de homens contra mulheres?

Posso falar de um estudo que me foi apresentado, feito pelo instituto de pesquisas Data Popular, a pedido da Avon, em torno do ambiente universitário brasileiro. O resultado é assombroso: 67% das universitárias relataram alguma forma de violência sofrida dentro das instituições educacionais. Isso representa dois terços das estudantes e, por si só, deveria gerar alguma reação de administradores, reitores e alunos. Outro dado que me assustou foi o fato de 38% dos estudantes do sexo masculino admitirem já ter cometido alguma forma de abuso contra a mulher no ambiente universitário. Um dos trunfos desse estudo foi ter levado em conta comportamentos que usualmente não são vistos como abusivos. Por exemplo, 27% dos homens disseram não reconhecer como ato de violência aproveitar-se de uma mulher alcoolizada e 31% não veem problema em divulgar fotos e vídeos de suas colegas sem o consentimento delas.

O que fazer para reagir?

Posso me basear nas experiências com o programa americano de prevenção Mentors in Violence Prevention (MVP), que ajudei a desenvolver. Começamos com a proposta de chamar atletas de renome para que falassem contra o abuso sexual e a violência. Funcionou, porque até então os homens eram vistos muito mais como potenciais agressores do que como críticos das agressões. Essa inversão fez o tema circular com mais inteligência. Outra característica importante do MVP é orientar quem presencia as cenas de agressão e, portanto, pode intervir. Antes do MVP, as iniciativas se concentravam em reduzir riscos. Propagandas orientavam as mulheres a cuidar de seu copo em festas, pois poderiam ser drogadas. Isso não é prevenção. Não ataca a raiz do problema. As mulheres não atraem violência. São eles que têm de estar no centro da preocupação. Os homens precisam comprar essa briga.

Mas eles estão se envolvendo aos poucos, especialmente os mais jovens, não?

É preciso que mais homens se envolvam. Não estou falando só de garotos de 16 anos de idade, que fazem parte de uma geração mais afeita ao discurso da igualdade de gêneros, mas de empresários, de presidentes de grandes empresas, de ídolos do esporte. Em resumo, de homens poderosos. Eles precisam assumir que esse é um problema grave da sociedade e que trabalharão a favor das mulheres, e não contra elas. Há muitos homens reconhecidos em seus respectivos campos de atuação que simplesmente não fazem nada. Acreditam que, porque não estupram mulheres, não batem na esposa, não é problema deles. Essa mentalidade precisa mudar.

O problema da violência contra a mulher persiste mesmo em nações desenvolvidas. Por quê?

Porque muitas cultura, mesmo as mais igualitárias, continuam a reforçar definições tradicionais do que é ser homem. Dois exemplos: a indústria pornográfica ainda é muito misógina e a cultura esportiva, muito agressiva. É possível ter igualdade formal entre os sexos e, ainda assim, manter aspectos sociais que reforcem o machismo. A Islândia, país que quase todos os anos figura em primeiro lugar no Global Gender Gap Report (um ranking do Fórum Econômico Mundial que mensura a igualdade entre os sexos com base em dados econômicos, políticos, educacionais e de direitos civis), ainda se debate para tentar reduzir a defasagem salarial e aumentar o número de mulheres em cargos políticos.

Na Suécia há uma escola em que as crianças são chamadas pelo pronome neutro hen e podem se vestir e brincar com o que bem entenderem, sem se importar com os estereótipos. Isso ajuda a reduzir a violência?

Essa é uma questão difícil, porque se trata de um problema de Primeiro Mundo. A grande maioria das pessoas mora em países onde as meninas se casam ainda na infância, não podem ir à escola nem dar sua opinião. Enquanto isso, a Suécia discute se deve ou não usar um pronome neutro. Não quero dizer que esse fato não seja interessante, mas não é a solução para o resto do mundo. É um avanço extremo, mas é quase uma distração do cerne do problema. O que concluímos por meio de décadas de pesquisa é que homens com crenças tradicionais sobre o papel do macho têm muito mais probabilidade de se tornar violentos do que homens educados em ambientes igualitários. Logo, é provável que a experiência na Suécia funcione bem, mas há muito mais a fazer antes de a humanidade alcançar esse ponto.

Como os homens podem se beneficiar de uma sociedade mais igualitária?

De muitas formas. O mesmo sistema que produz homens que abusam de mulheres produz homens que abusam dos próprios homens. Muitos são vítimas de violência, inclusive sexual, e eles são a grande maioria das vítimas em crimes como homicídios e assaltos. Os homens não são só os principais autores, mas também as maiores vítimas desses crimes. Se os estereótipos de masculinidade forem alterados, a vida de ambos os sexos ficará melhor. Basta imaginar o benefício que teriam os filhos de mulheres que sofreram violência, se tivessem crescido com mães que não precisassem lidar com essa situação. Um jeito de melhorar a qualidade de vida em qualquer sociedade é melhorar a vida das mulheres. Refiro-me aqui não só ao aspecto social, mas também ao econômico. Recentemente, um estudo mostrou que a paridade entre os gêneros incrementaria o PIB mundial em 28 trilhões de dólares até 2025. No Brasil, a economia ganharia, em dez anos, 850 bilhões de dólares, um crescimento de 30% do PIB nacional.

“Precisamos nos questionar: o que faz com que um menino amável na infância bata em sua namorada na adolescência? Tem a ver com genética ou com a forma como educamos as crianças?”

“Homens com crenças tradicionais sobre o papel do macho têm muito mais probabilidade de se tornar violentos do que homens educados em ambientes igualitários”

Fernanda Allegretti

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